Ao longo da história, existiram civilizações que eliminavam indivíduos cegos pois eles eram considerados um perigo à harmonia social. Em outras sociedades, acreditava-se que os cegos tinham funções transcendentais, como de oráculos, e, por esse motivo, eles seriam conhecedores do ‘mundo da escuridão’.

 

Após o surgimento de novos entendimentos sobre o tema, as relações de distinção entre determinados grupos sociais e as formas de lidar com as pessoas com deficiência visual mudaram, seja através da criação do conceito de acessibilidade, seja através do uso da dança, do teatro ou da música para inserção social ou para o desenvolvimento psicomotor.

Grandes nomes de deficientes visuais se destacaram na história da arte. Um exemplo é o pianista norte-americano, pioneiro e cantor de música soul, blues e jazz, Ray Charles. Ele foi eleito, pela revista Rolling Stone, o segundo maior cantor de todos os tempos e o décimo maior artista da música de todos os tempos.

O médico neurologista Marcelo Young Blood explica que os cinco sentidos básicos servem para que o nosso cérebro entre em contato com o meio que nos cerca, fazendo com que possamos interagir com as pessoas e os objetos.

“Quando a pessoa não tem um desses cinco sentidos, ela acaba utilizando outros para interagir com o ambiente. O deficiente visual compensa essa falta aguçando o tato e a audição. Ele utiliza do tato para reconhecer estruturas ou até mesmo rostos”, descreve o médico.

Young Blood pontua ainda que a maioria dos relatos dos cegos de nascença é que a imagem não é importante para eles e sim a adição e o tato: “Eles ficam sensíveis principalmente à audição. E pequenos sons nos ambientes, que as pessoas não se dão conta, os deficientes visais conseguem perceber”.

Para o professor de música da Associação de Pais e Amigos do Deficiente Visual (Apadevi), Ricardo Correia, a arte em geral já nasce com o ser humano. “Se o indivíduo tiver a aptidão de marcar a música, ou perceber o tempo, ele vai se desenvolver independente da parte motora que ele é deficiente”, destaca.

Ricardo conta que a ideia de trabalhar a música com deficientes visuais é explorar o tato, como, por exemplo, quando eles colocam as mãos no instrumento. O professor também trabalha o braile para ensinar as casas do violão. E, no caso do teclado, o dó, ré, mi, fá, sol, lá, si também são marcados com as siglas do braile.

“Quando uma pessoa perde um órgão, ela começa a buscar outros caminhos para a sobrevivência. Isso é natural do ser humano. O ouvido do deficiente visual começa a ser trabalhado bem mais forte. A música é uma forma de estimular os sentidos, para aí então entrar no mercado como músico profissional ou em outros setores”, conclui o professor.

Confira, no áudio, a entrevista com o professor Ricardo Correia

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