Funcionária e aluna da APADEVI, Angela Tozzeto é um exemplo de superação na luta contra a  discriminação

Especialista em Massoterapia, Ângela atende, três dias da semana, alunos de diferentes idades

 

Angela Tozzeto é dessas histórias que inspiram a gente. A conheci quando fui fazer uma visita à sede da Associação de Pais e Amigos do Deficiente Visual (Apadevi) no final de uma semana qualquer.  Não tinha pretensão alguma de sair de lá com uma reportagem pronta, mas bastou uma conversa rápida com ela para eu ter um insight.

A sala onde ela trabalha é a última de um corredor longo que acaba em um refeitório da Associação. E sem querer, ela foi a última que visitei e, no momento em que voltava para sala de administração, pensei: “Acho que aí tem história e, se tem história, pode ter jornalismo.” E me bastou isso. Voltei à sala dela e conversamos por uns 40 minutos ininterruptos, até ela precisar fazer uma pausa para atender um bebê de colo.

Ângela tem uma estatura alta. No decorrer da nossa conversa, eu me perguntava a todo momento, se ela teria sido jogadora. E me dizia: “Com toda certeza, é jogadora de basquete”. Nem de longe essa era a explicação. Ângela foi vítima de preconceitos desde muito cedo. Aos dois anos, ela sofreu de um mal que é considerado, segundo a Organização Mundial de Saúde, um dos maiores problemas de saúde pública do mundo.

“A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso; e mais de 700 milhões, obesos. O número de crianças com sobrepeso e obesidade no mundo poderia chegar a 75 milhões, caso nada seja feito”, afirma o mapa da obesidade.

Através dos relatos, ela me contou que sentiu na pele o preconceito desde muito cedo. E, por esse motivo, aos 29 anos, preocupada com a saúde e com a discriminação, resolveu fazer uma cirurgia bariátrica, que lhe custou a perda da visão dos dois olhos e uma paralisação simples. A decisão ainda lhe custa, até hoje, o desequilíbrio ao caminhar por lugares que não são planos.  As complicações da cirurgia se deram por uma infecção generalizada que a deixou em coma, por seis meses e 15 dias, na UTI.

Sua relação com a Apadevi começou em 2009, ano em que ela entrou, como aluna, na Instituição. Após a cirurgia bariátrica, Angela contraiu uma infecção hospitalar que, entre outros problemas, resultou em uma deficiência visual. Por conta disso ela entrou na Apadevi com 2% de visão. Através do método Self Hiller, Angela, hoje, já recuperou 8% da visão.

Ângela tem 37 anos e é formada em Fisioterapia. Após o período da cirurgia, ela relatou que viu sua carreira como fisioterapeuta se perder. “Depois de toda essa história, minha profissão como fisioterapeuta meio que foi por água abaixo. Fiquei perdida. Fisioterapia é uma das áreas que eu mais me dediquei. E logo pensei que tinha perdido minha carreira. Aí trabalhei com telemarketing. Óbvio que eu ainda estava com limitações, mas eu precisava trabalhar. Afinal, a gente tem contas para pagar. Fiquei por 9 meses, mas era uma coisa complicada, porque não era a minha área”, relata.

Depois do trabalho com telemarketing, Ângela relata que ficou três meses sem trabalhar e até que surgiu uma vaga como funcionária da Apadevi. “Já era aluna desde 2009 e entrei como funcionária em fevereiro de 2013. Fiquei na parte de assessoria aos professores e na parte de terapia, esta envolvia massagem e relaxamento corporal.”

Angela relatou que não sente resistência dos alunos atendidos por ela na Apadevi

 

A primeira vez que conversei com Angela foi em outubro de 2016 e não tinha pretensão de sair de lá com um texto pronto. Por isso, conversei com uma colega, Bruna Camargo, que também se interessou pela história dela também e resolvemos voltar à instituição em janeiro deste ano. Meses após a nossa primeira conversa, tive a mesma impressão: uma pessoa proativa e trabalhadora, que busca superar as próprias limitações. “Sempre gostei de buscar estudar, até antes mesmo das minhas complicações”.

Ao longo da segunda entrevista, percebemos, no entanto, que embora ela seja esforçada em todas as atividades que realiza, a sociedade não a vê dessa forma. “É complicado porque normalmente as pessoas associam qualquer tipo de deficiência à deficiência mental. Por exemplo, quando você chega a uma loja, o vendedor ao invés de perguntar direto para mim, eles se dirigem a quem está me acompanhando. Parece que eu sou uma pessoa invisível.”  

Angela ainda comenta as mudanças vivenciadas após as complicações resultantes da cirurgia. “É uma vida nova depois de tudo que aconteceu comigo. Tive que reaprender no escuro. Eu cheguei aqui com 2% da minha visão. Tive que readaptar a minha vida para poder fazer coisas simples, como passar um café. Me organizar na vida. E, às vezes, as pessoas perguntavam: “tá, mas como você vai estudar?” Penso que, hoje, a gente tem uma tecnologia fantástica, como computadores adaptados e celulares, por meio da voz, da tela”, afirma buscando explicar os recursos que facilitam no processo de adaptação à nova realidade.

 

Impressões

A diretora auxiliar da Apadevi, Rita Mariano, relatou que desde sua entrada na instituição, em 2009, Angela já começou a apresentar progressos ainda enquanto aluna.

Por telefone, a diretora falou da importância da Apadevi na recuperação do quadro clínico de Angela. Ela cita, por exemplo, melhoras na visão e em seu equilíbrio.

“Ela é muito aplicada. Tudo que damos de tarefas ela faz, todos os dias”, afirma Rita, ao lembrar de Angela nas aulas que envolvem exercícios.

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