Paratleta Carlos Garletti exibe suas medalhas

 

Há treze anos, depois de um grave acidente num voo livre, o atleta Carlos Garletti teve sequelas permanentes em uma das pernas. Porém, isso não atrapalhou seu sonho de criança: ser um atleta.

Desde muito cedo o gosto pelo tiro esportivo despertou a atenção de Carlos. Foi em uma competição que ele se interessou pelo esporte e, através de uma brincadeira, foi percebido seu potencial, dando início a uma carreira de sucesso.

Garletti estará representando o Brasil na terceira Paralimpíada que acontece, em setembro, no Rio de Janeiro. As modalidades são carabina deitado cinquenta metros, cabina de ar dez metros e carabina três posições. Nesse mesmo evento, o atleta já esteve nas edições de Londres, em 2012, e Pequim, em 2008.

O ponta-grossensse já participou de diversas competições, de caráter estadual, nacional e internacional. A medalha de prata foi obtida na Copa do Mundo, na Alemanha. Atualmente, ele é campeão brasileiro. O atleta classifica a participação nos Jogos Paralímpicos como uma experiência fabulosa.

O atleta, que possui um espaço de treinamento em casa, diz que mesmo adaptando o local, seus equipamentos são todos de última geração. O alvo é o Clube Santa Mônica, em Curitiba. Recentemente, os atletas fizeram uma parceria com o 13 Bib em Ponta Grossa.

Carlos relata que a maior dificuldade enfrentada na modalidade esportiva por ele praticada é a necessária de utilização de armas. “A posse de arma e munição, no Brasil, se torna algo extremamente restrito e burocrático”, destaca.

O financiamento é também um problema que o atleta brasileiro tem que enfrentar. “Quando se trata de um esporte amador, que não seja futebol, o financiamento público se torna mais difícil, mas ainda é mais acessível que patrocínios particulares”, critica.

Além da atuação no campo do esporte, Carlos é médico especializado em oftalmologia. Para ele, a dedicação e concentração necessárias no stand de tiro é a mesma demandada pela medicina. Dessa forma, a ele leva para a clínica as experiências baseadas em coisas aprendidas durante as competições e vice-versa. “Essa simbiose, a troca de experiências entre o esporte e a profissão acaba sendo uma coisa muito válida”, diz Garletti.

Sobre a questão financeira, as participações em eventos de grande porte são patrocinadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro. Porém, todo o equipamento de cada competidor - arma, munição e alvo - são de responsabilidade dos próprios atletas. Há bolsas que são distribuídas entre os atletas, com a nacional e a estadual, a Top 2016. Ainda existe uma ajuda da Prefeitura de Ponta Grossa.

Em relação à perspectiva de atuação para os novos atletas, Carlos busca incentivá-los. A ajuda e o acompanhamento dos calouros do tiro ações que ele realiza por saber as dificuldades e os dilemas enfrentados nessa fase. O campeão brasileiro acha imprescindível dar apoio aos iniciantes para evitar que eles desistam do sonho.

Mesmo estando diante de possíveis futuros concorrentes, Garletti não deixa de ajudá-los. “Empresto equipamentos. Se for lugar perto e puder levar algo, eu levo. Procuro dar sugestões. Não se posso pensar que se eu for competir sozinho, eu vou estar na frente. É um pensamento muito pequeno”, ressalta.

Filiado à organização Associação Pontagrossense de Esportes para Deficientes Físicos (Apedef), o atleta reconhece que o auxílio e apoio da associação são fundamentais.

Elizabete Aparecida Basrcz, que trabalha na Apedef, diz ser um grande orgulho para eles ter atletas sendo reconhecidos mundialmente, através de grandes eventos, como é o caso das Paralimpíadas. “Nós investimos muito no esporte para pessoas com deficiência. O reconhecimento de nossos atletas é um incentivo para os outros”, ressalta.

O objetivo da Apedef é mostrar à sociedade que deficientes físicos possuem os mesmos direitos e oportunidades de alguém sem deficiência. Todos podem alcançar os mesmos objetivos, independente da condição física. As chances serão sempre as mesmas, independente do caso.

“Incentivar pessoas com algum tipo de deficiência física significa mostrar que elas também podem participar de eventos esportivos ou de qualquer evento, basta ter força de vontade e muita dedicação”, pontua. Os atletas são estimulados a crescer e a concorrer no esporte, pois a limitação deles é mínima se comparada ao sonho de cada um, é o que destaca Elizabete. Para ela, todos são iguais e merecem ser tratados como tal por ser um direito de todo ser humano.

Adriana de Paula é professora do curso de educação física da Universidade Estadual de Ponta Grossa e especialista na área de pessoas com deficiência física. A docente destaca a importância do esporte na vida dos atletas com deficiência.

“Ser reconhecido pela sociedade traz um grande sentimento de que ele pode e que tudo é possível e está ao seu alcance. Não é devido a uma deficiência que o ser humano está privado de viver e fazer as mesmas coisas que qualquer outra pessoa faria”, avalia.

Os benefícios, como destaca Adriana, são inúmeros, como a melhora da condição cardiovascular, da agilidade e da coordenação motora. O esporte ainda ajuda no desenvolvimento das funções cerebrais e proporciona um estilo de vida melhor e mais saudável.

Para a professora, o esporte só traz benefícios. Para o corpo, é uma solução para o sedentarismo e, muitas vezes, acaba levando as pessoas a terem hábitos alimentares mais saudáveis o que, consequentemente, aumenta a expectativa de vida.

“Mas o que é mais significativo, para o deficiente físico é estar se relacionando com outras pessoas, com mundos diferentes do dele, realidades opostas. Isso aumenta sua autoestima e a interação social. Ele fica mais confiante em si próprio e confia nas outras pessoas”, avalia.

O técnico da equipe de tiro que integra o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) é James Walter Lowry Neto. Após a carreira como atleta de tiro, ele passou a ser o responsável por treinar Garletti, que também é um amigo.

Lowry também possui experiência em competições nacionais e internacionais, como esportista e como treinador. No entanto, ele prefere treinar paratletas, pois além de ser um desafio, a cada dia, é um aprendizado e uma lição de vida diferente.

“Ao treinar um paratleta, você percebe uma dedicação muito grande. Ele realmente se entrega ao esporte. Esquece dos problemas que enfrenta, reduz a agressividade, fica mais independente e trabalha a mente para aprender a lidar, ao mesmo tempo, com conquistas e fracassos”, diz James.

Carlos Garletti no treinamento de Tiro Esportivo

James fala ainda sobre a necessidade de dedicação e de treinos intensos para se chegar a uma paralimpíada. “O atleta precisa fazer muito trabalho físico, mental e ter um equipamento de ponta, que é todo importado e bastante caro”, ressalva. Na maioria das vezes, é o próprio atleta que arca com as despesas de viagens, local para treinar, equipamento, mas é possível conseguir, algumas vezes, um bom patrocínio.

Os desafios para se tornar um atleta profissional e se chegar a uma competição internacional não param por aí. “Precisa ter um nível de pontuação muito alto e estar entre os dez melhores atletas do mundo. Isso leva, no mínimo, uns quatro anos de treino, com uma média de quatro horas diárias de preparação”.

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