Fevereiro de 2015 foi o mês em que a paisagem urbana se transformou em Ponta Grossa. E dessa vez não foi por conta apenas de alguma obra 'grande, moderna e bonita', como dizia um antigo prefeito. Ou inacabada, como diria a população. Essa alteração no que vemos e sentimos quando andamos pela cidade também não se deve a condomínios fechados ou prédios que roubam a visão.

 

Agora o que se nota no horizonte são pessoas que ocuparam o espaço público na cidade, sobretudo a rua, de modo regular por todo o mês de fevereiro. Quem caminhou ou dirigiu pela região central de PG nos últimos dias encontrou alguma passeata ou manifestação coletiva em torno de questões de interesse público – tal como a educação. Testemunhamos mais atos públicos pelas ruas do centro durante um par de semanas do que em um ano inteiro.

 

Um das mudanças significativas nessa paisagem socialmente construída foi a ocupação do Parque Ambiental pelos professores em greve da rede estadual de ensino. O movimento transformou uma das 'esquinas' do parque – chamado de 'cimental' por alguns – em um ponto de encontro e de tomada de decisões coletivas.

 

Por ali apareceram cruzes com o nome de cada colégio estadual de PG fechado durante a greve e inviabilizado de funcionar no início do ano letivo em função dos cortes do Governo do Estado do Paraná. Depois os nomes dos deputados estaduais que votaram contra a educação e a favor do 'pacotaço' ganharam letras garrafais em outras cruzes. Uma simbologia passou a ser incorporada ao Parque Ambiental.

 

O ambiente ficou repleto de faixas de reivindicações. Numa dessas tardes ensolaradas que viram em chuva, teve até aula pública por ali. Uma aula sobre educação no meio da praça. Os professores viraram estudantes e se abrigaram à sombra da estação. Cena memorável e motivo de orgulho dos ponta-grossenses. No início de março, foi a vez de professores, estudantes e técnicos em greve da UEPG realizarem uma exposição no Parque Ambiental dos serviços prestados à comunidade e que saem prejudicados na atual conjuntura de desmonte da universidade pública.

 

Isso demonstra a capacidade da sociedade se apropriar democraticamente de um espaço público e convertê-lo em lugar de encontro, organização e de deliberação política a céu aberto. O que era um parque com cara de estacionamento virou área de lazer e, por fim, funcionou como local de agregação e de visibilidade de questões públicas. De dentro do ônibus que entrava ou saía do terminal, muitos viram aquele movimento no parque e puderam diariamente se atualizar sobre a greve dos professores da Rede Estadual e dos servidores da UEPG.

 

Num dos momentos da greve, o Calçadão também viu passar os manifestantes – relativizando o  caráter hoje eminentemente comercial do local em prol de um espaço (ainda que temporário) de reunião e expressão coletiva, tal como ocorre em tantas outras cidades brasileiras de forma cotidiana.

 

Nem sempre é o barulho dos manifestantes o que mais chama atenção. Numa das passeatas dos servidores da UEPG, em greve desde 10 de fevereiro, foi o silêncio diante da Santa Casa que mais chamou a atenção de quem passava e dos trabalhadores do hospital. Professores e técnicos caminharam em silêncio como forma de protesto contra o fechamento do Serviço de Assistência a Saúde (SAS) do servidor público.

 

A onda de manifestações de fevereiro em Ponta Grossa também incluiu um ato organizado pelo Fórum das Águas. Trabalhadores e estudantes fizeram passeata da Praça dos Polacos até a Prefeitura para chamar atenção para a necessidade de protegermos nossos recursos naturais, atualmente ameaçados.

 

Tudo isso não é pouco em uma cidade que ainda convive com medidas autoritárias por parte de certas instituições e empresas que visam criminalizar integrantes de movimentos sociais pelo simples fato de irem às ruas defender direitos coletivos.

 Rafael Schoenherr é jornalista e professor em greve na UEPG.