Conheça a trajetória de Lucélia Clarindo, idealizadora do projeto Bando da Leitura

Atrás de Lucélia, o nome de todas as crianças que já participaram do projeto, registrado em uma das paredes da sede do Bando da Leitura. ( Foto: Mayara Mirante)

O caminho dizia muito sobre o destino. O sol forte da tarde batia sobre os detalhes de uma pacata vizinhança, localizada no bairro de Oficinas. As ruas eram ladeadas por troncos antigos de árvores fartas de sombra. A calçada era convidativa aos poucos pedestres que passavam por ali. Casas de família e terrenos baldios, que eram os lares de árvores e de mato, se misturavam na paisagem.


Até que dobramos à esquerda numa rua que fazia uma grande curva. A via era pequena e estava tomada pelo sol. As casas ali eram menores, mas tinham o mesmo estilo, como se fossem todas réplicas, em cores diferentes, de um modelo. Ao final da rua, uma casa de jardim florido chamava a atenção. No muro que sustentava antigas grades de ferro, havia desenhos de borboletas, nuvens e livros multicoloridos. Aquela era a sede do Bando da Leitura, um espaço de contato com os livros e outras expressões artísticas.

Ao nos aproximarmos da casa, não encontramos interfone ou algo do tipo para anunciar a nossa presença. É necessário bater palma, no maior estilo “boa vizinhança”. Depois de três palmas, um homem me recebe. Logo percebemos que é um ator com reconhecido pelo intenso trabalho no teatro local. Trata-se de Américo, também marido de Lucélia Clarindo, a contadora de histórias. Ele nos recebe com simpatia e nos guia até a sala de leitura do Bando, alegando que a Lucélia logo iria nos receber.

O acesso à sede do projeto era por trás da casa, atravessando um extenso pátio. Ao lado do espaço dedicado ao Bando, havia um pequeno bosque, cheio de detalhes que o tornavam chamativo. Nos galhos finos das pequenas árvores, havia fileiras de CDs pendurados, que refletiam a luz solar pelo espaço, desenhando pelo chão um caminho dourado. Quando entramos na sala, pudemos ouvir uma música tranquila, clássica.

Não havia ninguém lá dentro, o som vindo do computador, próximo à porta, ecoava pelas prateleiras de todas as cores, de todos os livros. Devidamente enfileirados, cada um tinha sua forma, tamanho e cor. Pelo chão, almofadas e pufes eram um convite para se afundar o corpo, depois de mergulhar a mente nos livros. O ambiente também era carregado por um ar infantil. Desenhos de animais, carrinhos de brinquedo, maquete de princesas, tudo espalhado. Mesmo com a sala vazia, era possível imaginar os pequenos se divertindo a beça com todas aquelas possibilidades.

- Boa tarde! Estão aproveitando a música? – perguntou uma voz feminina. Lucélia havia acabado de chegar, carregando um sorriso simpático e um olhar enérgico. Cumprimentou-nos com um abraço, caminhou até a cadeira em frente ao computador e regulou o som a fim de melhorar a nossa conversa. Resolvemos sentar em um banco de madeira, bem à frente dela, mas ainda com o desejo de desfrutar dos pufes coloridos. Até que pedimos a Lucélia para nos contar uma história. A história de sua vida.

- Eu vejo toda a minha história se formar por uma linha do tempo. Nasci em 1961 e sempre vejo o número sete na minha história, sempre tem algo importante com esse número. Sessenta e um, no caso, seria seis mais um, sete. – ela explica de forma didática, com um sorriso de professora que acredita no potencial de um aluno. Ela se ajeita na cadeira, arruma os cabelos negros atrás da orelha e continua.

- Nasci e me criei no Parque Estadual de Vila Velha. É bem próximo daqui da cidade, mas antes era difícil por causa do transporte. Eu fui a primeira filha e a casa dos meus pais era bem simples, não tínhamos muito. O que marca a minha infância é a lembrança de minha mãe contando histórias. Ela foi a primeira referência na minha vida como contadora de histórias.

O sorriso profundo, em seu rosto, denunciou o orgulho que sentia ao falar da mãe, por inspirar boa parte de sua vida.

- À noite, o tempo de histórias era curto porque a luz da casa funcionava até às nove da noite. A gente morava bem perto de um bosque, tinha até pinheiros no quintal da nossa casa. Isso ajudou a desenvolver a minha imaginação. Outra coisa que chamava a minha atenção eram as formas que se faziam na parede de madeira quando chovia. Nas histórias de assombração que a minha mãe contava, eu via, naquelas imagens, as criaturas que a minha mãe descrevia.

Seu talento para contar histórias aparece na riqueza dos detalhes. Enquanto ouvia aquela história, a imagem da pequena Lucélia, com os olhos encantados em uma simples parede, dominou o meu pensamento.
Quando a pequena Lucélia entrou na escola, sua mãe já havia lhe dado uma base de leitura e escrita. Na sua sala, tinha alunos mais velhos, porque haviam sido reprovados no ano anterior. Ela conta que era comum isto acontecer, pois os pais não valorizavam o estudo, mas, sim, o trabalho. Seu contato com a educação começou ali, quando a professora pedia para que ela ensinasse os outros alunos a lerem o alfabeto. No começo, ela admite que se sentia desconfortável, pois era a mais nova ensinando os mais velhos, mas enxergava neles a confiança que suas palavras passavam. Outro personagem que foi atingido por suas palavras foi o seu querido tio. 

- Eu ia muito pra fazenda dele porque eu tinha bronquite e minha mãe achava que os ares da fazenda me faziam melhorar. Lá, o meu tio pedia pra eu descrever esses momentos e eu escrevia tudo, como foi a viagem, o que eu fazia por lá. Ele não sabia ler e pedia pra que eu contasse tudo o que tinha escrito. Eu tinha que ficar de pé, na frente dele, com o caderninho na mão e lia. E, às vezes, ele se emocionava porque tinha a visualização de tudo aquilo que eu escrevia. Era uma leitura de vivência.

Lucélia explica de forma minuciosa, na tentativa de entender como o seu aprendizado influenciava na vida de um homem tão acostumado com a leitura de mundo.

Na transição para a juventude, Lucélia fez do estudo um estímulo para construir um conhecimento sobre leitura e educação. Em 1977, conseguiu uma bolsa de estudos no colégio Sagrada Família para cursar o magistério. Ela nos conta a dificuldade de chegar até a escola, do quanto o transporte era caro e demorado, chegando até a dificultar o seu estudo. Mas conseguiu concluir o magistério com sua determinação, voltou seus estudos para um concurso da prefeitura e conseguiu seu primeiro emprego, na primeira escola onde estudou, a Escola Isolada Parque Estadual de Vila Vela. “Quando criança eu errava o nome da escola na caligrafia, escrevia “Escola Escolada”. E minha mãe brigava comigo, tenho muita lembrança disso”, ela comenta rindo de seu erro. 

A primeira experiência de Lucélia foi ambígua. Com 19 anos, a jovem professora foi colocada em uma sala com quarenta e cinco alunos, todos filhos de suas colegas e vizinhas. Assim como o ambiente não havia mudado, as salas carregavam os mesmos detalhes de sua infância, a dificuldade dos alunos também permanecia. Muitas crianças tinham 10 anos, já estavam crescidas para estarem naquela turma. “Eu era muito iniciante pra pegar uma turma com tamanha responsabilidade. O meu aprendizado, tudo o que eu aprendi no magistério, não foi o suficiente pra entender aquelas crianças”, relembra Lucélia com certa preocupação no olhar ao lembrar da época em que, além de ser professora, tinha que ser a psicóloga, assistente social e fonoaudióloga dos alunos.

Além desta dificuldade, Lucélia relembra que também sofreu com a desconfiança dos adultos em relação a seu trabalho. “Quando eu comecei a dar aula, as pessoas não acreditavam que eu era professora, que já tinha um diploma. Achavam que eu era só uma ajudante. Havia uma dúvida no sentido de que pobre não podia estudar. Mas eu continuei trabalhando firme e forte”. Sua persistência e sede de conhecimento fez com que ela crescesse na sua experiência como professora. Em 1987, Lucélia conseguiu emprego na cidade, em uma escola no bairro Santa Paula. Ao se lembrar dos aprendizados com aquela turma, ela revela:

- Foi como sair da zona de conforto. Lá, na Vila Velha, eu conhecia a história de cada um, enquanto no Santa Paula eram crianças diferentes, mais agitadas, não eram acostumadas comigo. Era tudo muito novo pra mim, foi uma ruptura, um crescimento e conflito muito grande pra minha vida, que só estava começando.
Neste mesmo ano, Lucélia descobriu que estava grávida de seu companheiro Américo. Os dois se conheceram na juventude, enquanto ela ainda cursava o magistério. “A história com o Américo é uma novela a parte”, brinca ela, mantendo o sorriso no rosto. “Eu o conheci quando estava envolvida no mundo do teatro, não perdia uma edição do Fenata e cheguei até a participar de uma companhia, tenho até prêmios, acredita?” Lucélia relata essa fase da vida com surpresa, como se tivesse surgido, em sua mente, as lembranças de uma boa fase. 

- E nessas peças, leituras dramáticas e festivais, eu acabei conhecendo o Américo. Me interessei muito por ele, pelas coisas que ele falava sobre a arte. E esse interesse dura até hoje. 

Com o nascimento do primeiro filho, Lucélia teve que se afastar do papel de professora para construir um papel de mãe. Quando conseguiu desenvolver o seu lado materno, deixando seu filho com os cuidados necessários, ela voltou para a sua vida no ensino. Pronta para trabalhar na escola, foi comunicada de que todas as vagas de professora já haviam sido preenchidas. Lucélia ficou preocupada, por um momento pensou que seu emprego estava em risco. Além de não poder fazer o que queria, também tinha que pensar no filho para cuidar. Seu trabalho também ajudava nisto. Mas uma conversa com a diretora deixou a professora mais calma, ao saber que não iria perder o emprego, mas iria trabalhar de uma forma diferente. Iria coordenar um projeto de leitura. 

- A diretora separou uma sala de vídeo para o projeto, colocou umas mesas e eu comecei a pesquisar sobre salas de leitura. Tinha um projeto na televisão, chamado “Um salto para o futuro”, que me inspirou muito. E a partir dessa base eu fui criando. Fizemos caixinhas de perguntas para os alunos, mural de propaganda de livro, tudo isso na sala daquela escola. Assim, fui levando o projeto.

O que começou com uma ideia simples de promover a leitura tornou-se modelo para todo o sistema de ensino de Ponta Grossa. Os alunos se interessavam, cada vez mais, pelas histórias que Lucélia tinha a oferecer, pela forma como ela as contava e como ela proporcionava esse contato com o livro. Algo que para muitas crianças era tedioso, tornou-se mágico. Nessa época, a contadora de histórias lembra que, no intervalo das aulas, a sala de leitura ficava cheia, muitos trocaram as brincadeiras do pátio pelo universo da leitura. O projeto também recebia visita de outras escolas, para proporcionar o contato com outros alunos e professores, que queriam disseminar a leitura em suas escolas.

- O projeto foi desenvolvendo de tal maneira, que muitas coisas aconteceram. – conta Lucélia, com um brilho de orgulho nos olhos. – Fui chamada para trabalhar na Secretaria da Educação para levar esse projeto para todas as escolas. Realizei oficinas, li muito por conta própria sobre o assunto, pesquisando nos livros didáticos e aprimorando as atividades.

Com um suspiro, Lucélia para de falar por um momento e torna-se pensativa, até engatar no próximo assunto. “As pessoas perguntavam qual graduação eu havia feito e tinha vergonha de falar, dizia que não tinha feito graduação. E me motivavam para fazer algum curso, principalmente meus amigos professores. Até que eu fiz vestibular, em 1997, para pedagogia na UEPG. Fiz a prova achando que não teria a mínima chance, mas passei. Foi uma surpresa.”

O ano de 1997 trouxe surpresas distintas para a vida de Lucélia. Logo que começou a vida como acadêmica, ela recebeu a dolorosa notícia de que sua mãe havia falecido. A perda da mãe foi somada às dificuldades que surgiram ao desempenhar o papel de professora, aluna, esposa e mãe. 

- Sei que a morte da minha mãe foi ruim apenas para mim. Hoje, encaro isso no sentido mais amplo. A morte não significa apenas sofrimento.

A experiência de Lucélia, no âmbito acadêmico, trouxe uma extensa bagagem ao seu conhecimento. “Trabalhei na usina de conhecimento, lá tinha computador já e podíamos entrar em alguns sites, então foi uma ótima descoberta. Conclui o curso e já tinha três filhos, o mais novo tinha quase dois anos.” Apesar de ter se envolvido muito com a pedagogia, Lucélia não esqueceu, em momento algum, a sua base: a família. 

- Mesmo com essa recompensa do conhecimento, foi difícil pra mim. Não teria conseguido se não fosse a ajuda e a colaboração da minha família para tornar tudo isso possível. E, principalmente, a ajuda do meu marido que, só por cuidar dos nossos filhos, me deu uma força imensa.

 

Ideias que mudam vidas e movimentam estantes

Além de proporcionar o contato com a leitura, o Bando oferece experiências artísticas para os seus visitantes, como pintura e arte a partir da reciclagem. (Foto: Mayara Mirante)

 

“Era uma vez” seria uma das maneiras de como começar a contar a história do espaço do Bando da Leitura, que poderia muito bem pertencer a um conto de fadas. E, talvez, a primeira sensação que sentimos ao adentrar o Bando da Leitura é que ali, naquele espaço resguardado por poesia e amor aos livros, se encontrava de fato um lugar mágico.

Todos os detalhes da sede do projeto, que fica localizada ao fundo da casa de Lucélia, pareciam convidar o visitante a sentar-se para desfrutar das histórias presentes em cada página dos livros contidos nas estantes.
Passamos a respirar literatura ao adentrarmos o Bando, pois cada detalhe, desde as poesias, presas nas árvores do pequeno bosque, até as almofadas, espalhadas no chão sala de leitura, nos remetem a um lugar que foi edificado para celebrar o encantamento contido nos livros. E é a história deste lugar, que já foi palco para revelação de tantas estórias, que vamos contar. 

Há um aspecto, no enredo do Bando da Leitura, que difere das estórias contidas nos contos de fadas. Trata-se da história, real, que começou a ser escrita no bairro de Oficinas. Contudo, a idealização do projeto já havia sido escrita muito antes de 2007. A ideia do Bando começou a ser criada nas aulas de leitura, que Lucélia lecionava na época que era professora na Escola Municipal Frei Elis Zulian. Foi neste ambiente que as alunas Ana Stobb e Bianc compartilharam com Lucélia o amor pela leitura. “Nós gostávamos muito de ler e a Lucélia, com o jeitinho e o dom dela, nos cativou ao mostrar o mundo da leitura de uma forma ainda mais bonita”, recorda-se Ana dos momentos partilhados com a professora. No início de 2007, a professor acaba se afastando da sala de aula, após se dedicar 30 anos ao magistério. Lucélia pede sua aposentadoria para, então, se dedicar, de forma exclusiva, ao desenvolvimento de projetos de leitura.

- Em 2007, duas ex-alunas, a Ana e a Bianca, me pararam na rua e me disseram que iriam na minha casa ler, já que eu não voltaria mais para escola.

Em uma quarta-feira, mais exatamente no dia 14 de março do mesmo ano, Ana e Bianca foram até a casa de Lucélia como haviam combinado. As três, cada uma com seu livro, sentaram-se, no pátio da casa da professora, e desfrutaram de uma tarde inteira de leitura. Nesse dia, sem saber, Lucélia e suas ex-alunas, estavam presenciando os primeiros encontros que mais tarde viriam se tornar o Bando da Leitura. 

- Na quarta-feira seguinte, a Ana e a Bianca vieram novamente aqui em casa. Só que, dessa vez, elas não estavam sozinhas, junto com elas, havia mais sete crianças. Na outra semana, já havia mais 12 e assim foi indo até elas me perguntarem se elas podiam vir mais vezes no “clubinho”. Era assim que a gente chamava, inicialmente, esse nossos encontros.

Lucélia recorda, com um ar nostálgico, da época em que o clubinho se reunia na sala e no pátio da sua casa. Naquele período, o Bando ainda não tinha a estrutura atual.

Ana lembra-se do dia em que decidiram conferir um nome ao “clubinho” que se reunia, fielmente, todas as quartas-feiras. “Um dia, estávamos todos reunidos quando a Lucélia nos deu a ideia de darmos um nome para o nosso grupo. Como nós éramos várias crianças, pensamos em "bando" e, como gostávamos de ler, relacionamos com "leitura", até porque essa era nossa intenção quando procuramos a Lucélia. Foi, então, que surgiu o Bando da Leitura.” 

Lucélia, ao rememorar a data em que o Bando começou a criar forma, comenta que sua filha Malu, que estava presente no dia da escolha do nome, sugeriu que eles criassem uma marca para o nome.

- Nesse mesmo dia, a minha filha Malu estava recebendo a visita de um amigo, o Sádico, que é ilustrador. A Malu, então, contou para ele que eu estava com projeto, aqui em casa, chamado Bando da Leitura. O Sádico desenhou três possibilidades e, na outra quarta-feira, nós mostramos para as crianças e elas escolheram a ilustração que hoje é marca do projeto. E foi assim que o Bando da Leitura foi, pouco a pouco, criando vida. 

Com o passar do tempo, as crianças, que já vinham aos encontros do Bando Leitura, começaram a convidar outras crianças que chamavam mais outras, até a o pátio da casa de Lucélia ficar repleto dos pequeninos amantes da leitura. “Nós sempre víamos o Bando como a nossa brincadeira de fundo de quintal”, comenta Lucélia sobre como era, para ela, os encontros do Bando. 

- As crianças continuaram vindo para ler o meu acervo de livros, que era grande devido aos meus filhos. E, em um desses encontros, uma avó, que veio trazer seu neto, acabou se emocionando ao ver ele interpretando e lendo. Ela, então, me perguntar se poderia trazer a imprensa e eu pensei comigo “a mídia não vai se interessar pelas crianças lendo no meu quintal”, até porque aquilo, para nós, era apenas uma forma de divertimento. Então, a imprensa acabou mesmo vindo e, desde então, vários outros meios começaram a vir visitar o bando.

Foi neste momento que o Bando da Leitura passou ser mais do que apenas um momento de diversão para as crianças e para a Lucélia. 

Em 2008, um ano após os primeiros encontros do Bando da Leitura, Lucélia decidiu inscrever a proposta do Bando, como um projeto de leitura, a partir de um edital que estava sendo desenvolvido pelo Governo Federal. “Esse projeto do Governo buscava mapear os pontos de leitura do país que não fossem vinculadas às escolas. Quando o resultado da pesquisa saiu, o Bando da Leitura tinha ficado como 50º entre os melhores pontos de leitura.” 

Lucélia viu isso como um incentivo para o Bando. No mesmo ano, a professora aposentada escreveu o seu projeto em um edital do Governo sobre pontos de leitura. “Eu não acreditei quando vi que o projeto do Bando tinha sido selecionado e ficado em 9° lugar entre os pontos de leitura do Paraná.”

- O Bando ganhou uma certificação por ter sido selecionado nesse projeto e, junto com esse certificado, nós recebemos alguns presentes que se encontram, até hoje, aqui, como o computador e as estantes onde estão os livros que também recebemos como presente, entre outras coisas.

Cada objeto, citado por Lucélia, resguarda a memória daquilo que foi, aos poucos, dando forma ao projeto.
Em outro momento, ao olhar para aqueles pertences que antes de ficarem na sede do projeto estavam na sua sala de estar, Lucélia se recorda da época em que percebeu que os seus pequenos leitores do Bando precisavam de um espaço que fosse destinado não só à leitura, mas também a todas as outras formas de arte. “Foi, então, que surgiu a parceria entre o Bando e o Rotary Alagados, já que a instituição se colocou à disposição para construir a sala onde, hoje, está a sede do Bando da Leitura.”

Ao falar sobre como se deu o processo de construção da sede, Lucélia cita, em meio à história, a ‘A Pedra Fundamental’. Curiosos, questionamos a professora: “Afinal, o que é essa tal ‘Pedra Fundamental?” Lucélia esboça um singelo sorriso e nos diz: “A Pedra Fundamental foi o nome memorial que damos ao primeiro tijolo que fez parte da construção da sede deste lugar”. De pedra em pedra fundamental, o Bando foi ganhando não só vida, mas também o seu espaço concreto. 

Ana, a ex-aluna que ajudou a idealizar o projeto, se emociona ao perceber no que, aos poucos, o projeto foi se tornando. “Eu sou muito grata à Lucélia, pois de um simples pedido de leitura, ela nos deu algo muito mais rico. A Lucélia nos ensinou muito ao abrir as portas da sua casa.” 

Ao contemplar suas memórias do Bando, Lucélia percebeu que o projeto abriu horizontes da leitura para atingir os pensamentos da arte.

- Depois que a sede do Bando ficou pronta, vários artistas locais passaram a acompanhar as reuniões do Bando e até realizaram trabalhos em parceria, como oficinas literárias, de dança, de poesia, de teatro e música. Isso possibilitou ainda mais a integração desses elementos à literatura. Eu não esperava tanto reconhecimento e valorização.

Desde pequena, Lucélia colocou suas conquistas no caminho da arte. Sua família surgiu no encontro da literatura com o teatro, da relação entre ela e o Américo, que deu origem a três filhos inspirados pelas veias artísticas dos pais. Nessa trajetória, o Bando se tornou um refúgio para todos aqueles que compactuam com o encantamento pela literatura e pelos outros segmentos artísticos. O sete aparece novamente na vida de Lucélia. Neste ano [2017], o Bando da Leitura completa dez anos de histórias compartilhadas.

 

Filmagens dos primeiros encontros do Bando da Leitura, com as músicas apresentadas junto com as crianças. (Arquivo pessoal de Lucélia Clarindo)

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