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A abordagem no Bar da Tia não parece um caso isolado. Relatos de truculência policial se tornaram comuns não apenas em Ponta Grossa, mas em todo o país. 70% dos brasileiros não confiam na polícia, segundo o 7° Anuário de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Nacional de Segurança Pública em 2013. As polícias do Paraná estão entre as oito do país com baixo índice de transparência quanto à letalidade, de acordo com a mesma fonte.

 

A reportagem do Portal Comunitário enviou pedidos de acesso à informação para o Ministério Público e para a Secretaria de Segurança Pública do Paraná sobre o número de inquéritos abertos para investigar abuso policial no estado e em Ponta Grossa.

O MP informou que, em 2013, foram instaurados 16 inquéritos para apurar casos de abuso de autoridade na cidade. No Paraná, foram 555 investigações abertas.

A Secretaria de Segurança Pública repassou o pedido para os órgãos internos responsáveis pela conduta da Polícia Militar e da Polícia Civil. De acordo com a seção de Processos e Procedimentos Administrativos da Polícia Militar do Paraná, foram instaurados quatro inquéritos policiais militares (IPMs) para investigar abuso de poder em Ponta Grossa, durante o ano de 2013.

No mesmo período, foram abertos 51 IPMs em todo o estado. A Divisão Policial do Interior (DPI) da Polícia Civil alegou que só poderia responder ao pedido mediante “identificação completa do solicitante e qual seu interesse nas informações”, pois os dados são considerados sigilosos.

O professor do departamento de História da UEPG, Antônio Benatte, afirma que a truculência da polícia é algo constante no país. “A violência policial e o militarismo são endêmicos na história do Brasil, mas recentemente, com o acaloramento dos movimentos sociais e populares, a truculência se tornou mais visível”, diz. “Só que isso não é um fenômeno novo, nem exclusivo dos períodos de ditadura”.

De acordo com Benatte, os agentes da polícia, especialmente da Militar, não são treinados para proteger e servir – pelo contrário, a lógica que predomina é a do confronto. “A Polícia Militar não lida com cidadãos, porque quem é tratado dessa maneira não tem seu direito de cidadania respeitado.”

“A falta de transparência e a impunidade ajudam a perpetuar a violência. Não sabemos se os dados de letalidade e violência da polícia são confiáveis, e muitas vezes não são sequer disponibilizados”, termina.

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