Ponta Grossa gastou seis vezes a média de recursos aplicados pelos municípios que integraram o roteiro de peregrinação

Buraco em trecho da rua Baltazar Lisboa, em frente CMEI Profa. Cândida Leonor Miranda, no bairro Ronda. Foto: Douglas Kahl

 

Na última semana de competição, Brasil atinge o oitavo lugar no quadro de medalhas na Paraolimpíada 2016, com 72 medalhas, sendo 14 de ouro, 29 de prata e 29 de bronze. Com o encerramento do evento, no último domingo, dia 18, ficam os questionamentos acerca das consequências de o país ter sediado os dois maiores eventos esportivos internacionais.

 

A população de Ponta Grossa pode acompanhar de perto a passagem, pela cidade, da tocha olímpica. Segundo o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), com o objetivo de “envolver a população no espírito olímpico”, a peregrinação percorreu 327 cidades e sua chegada na capital carioca, no dia 5 de agosto, marcou a abertura do Jogos Olímpicos Rio 2016.

O símbolo das Olimpíadas chegou a Ponta Grossa no dia 15 de julho. Dentro do município, o percurso teve início no Parque Estadual de Vila Velha e terminou na Estação Saudade, tendo contado com a participação de 58 condutores.

A Prefeitura de Ponta Grossa abriu uma licitação no valor de R$136.704,61 que, segundo o texto do pregão, foram empregados para a contratação de empresas e serviços diversos para a realização do evento de passagem da tocha pela cidade.

A licitação foi aberta mesmo com o município sofrendo com problemas de estrutura nos próprios locais por onde a tocha passou. É o caso do Parque Ambiental, cuja falta de estrutura e de conservação é destacada pelos usuários do local para atividades de lazer.

Três meses antes da passagem da tocha em Ponta Grossa, o presidente da Câmara Municipal, Sebastião Mainardes Junior, chegou a ser questionado, em entrevista ao Portal Comunitário, sobre a razão de o projeto do Parque Central - destinado à restauração do Parque Ambiental - nunca ter saído do papel. O vereador alegou, na ocasião, que o município teria outras prioridades e que sofria com a redução da receita, resultado da crise.

“Não tem dinheiro para as obras. Nossa prioridade é a saúde e educação. Temos ainda o restaurante popular para manter e não temos condições de pagar uma obra dessas. Não é só Ponta Grossa que está sofrendo com a crise”, explicou Mainardes, na ocasião em que foi questionado sobre o projeto Parque Central.

Usuários do Parque Ambiental pedem melhorias

Após a cerimônia da passagem da tocha, para alguns usuários do Parque Ambiental, ficam as reclamações e o pedido de melhorias. Flávio Antunes, frequentador do espaço de lazer, acredita que algumas ações deveriam ser feitas pelo poder público. “Poderia haver melhorias nas áreas de arvorismo e reformas nas pistas de corrida, por exemplo”, avalia o estudante.

A cada 15 dias, Edivaldo Antônio Mendes passeia, durante os finais de semana, com o filho pelo parque. Para o servidor público, os brinquedos e a área de esportes poderiam ser melhorados. “Quando chove, os brinquedos para as crianças ficam cheios de barro. Além disso, poderia ter mais segurança na área das crianças”, critica.

A falta de ações para apoio aos esportes também é alvo das reclamações de Edivaldo Antônio. “Quem pratica esporte, aqui, não recebe nenhum incentivo. Poderia haver campeonatos, para incentivar a prática e até para descobrir novos talentos”, sugere.

A pista de skate do parque é também muito precária, como descreve Victor Miguel da Silva Estaciaki, praticante do esporte. “A pista inteira precisa de melhorias. O piso, os caixotes e o palco estão sem condições de andar. A iluminação, durante a noite, também é ruim.”
Victor afirma que Ponta Grossa, como um todo, é carente quando o assunto é espaço para a prática do skate. O skatista relembra as promessas ainda não cumpridas pela atual gestão municipal.

“O prefeito disse que seria feita uma pista nas quadras ao lado do estacionamento da VCG, mas até agora nada. Tem até um vídeo dele mostrando o espaço, mas ficou nessa. O skate é muito discriminado na cidade e, por isso, não dão tanta atenção”. Mesmo sem existir uma pista, são realizados campeonatos de skate nas quadras ao redor do estacionamento da VCG.

Valor gasto por Ponta Grossa é seis vezes a média nacional

Segundo o pregão da prefeitura, a empresa contratada, por R$ 121.300,00 para realizar o evento de passagem da tocha olímpica em Ponta Grossa, foi a PGP Estrutura para Eventos em Geral de Curitiba (PR). Consta no contrato disponibilizado pela prefeitura que a empresa gastou, só com grades de isolamento, quase R$ 60 mil.

Com tendas para o evento, foram gastos mais de R$ 9 mil. Ainda foram feitos aluguéis de rádios comunicadores profissionais no valor de R$ 2.210 e de painéis móveis para divisórias com custo de mais de R$ 10 mil, entre outros serviços. Além disso, só com a segurança de todo o evento foi gasto mais de R$ 11 mil.
O valor, apesar de parecer pequeno se comparado aos gastos corriqueiros da prefeitura, está muito acima da média de outras cidades de mesmo porte de Ponta Grossa.

Chapecó (SC), Joinville (SC) e Campo Mourão (PR), por exemplo, gastaram, segundo os pregões disponibilizados pelas prefeituras de cada município, somente R$ 10 mil para realizar o evento. Segundo as licitações, Londrina (PR) gastou R$ 44 mil, quase alcançando Cascavel (PR) cujo valor empenhado foi R$ 50 mil. Confira, no infográfico abaixo, os gastos de cada cidade com a passagem da tocha olímpica.

Fonte:  Portal de transparência dos municípios.

 

Há ainda cidades que nada desembolsaram para participar do revezamento, como é o caso de Colatina e São Matheus, ambas localizadas no Espírito Santo. A média dos gastos de todas as cidades do Brasil, que fizeram parte do percurso da tocha, foi de R$ 20 mil.
Todas as despesas com o revezamento da tocha foram de responsabilidade das cidades. Essa foi uma exigência do Comitê Organizador da Rio 2016 uma vez que os patrocinadores se recusaram a arcar com esses gastos.

Houve cidades pelo país que, apesar de terem sido escolhidas para a passagem da tocha, se recusaram a participar tendo em vista o montante de recursos que deveriam desembolsar. É o caso de cidades mineiras, como Ipatinga, Gouveia e Betim.

Segundo declaração dada pela Prefeitura de Betim a jornais locais mineiros, o custo da passagem da tocha seria de R$ 180 mil. A recusa de sediar o evento foi justificada pelo fato de o município estar passando por dificuldades financeiras.

A prefeitura declarou ainda aos meios de comunicação da cidade, que preferiu direcionar os gastos ao pagamento dos servidores, à manutenção dos serviços básicos e à continuidade de obras na cidade. O município chegou a declarar que se comprometeria a sediar o evento se o Comitê Olímpico Brasileiro ou os patrocinadores custeassem a passagem, mas isso se mostrou impossível.

Ipatinga, que também se recusou a sediar a passagem da tocha, tem o mesmo porte de Ponta Grossa, contando com 250 mil habitantes e uma economia baseada na indústria. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita do município mineiro é de aproximadamente R$ 37 mil, enquanto o de Ponta Grossa não ultrapassa R$ 32 mil.

Ponta-grossenses protestam contra gastos supérfluos

Assim que o preço da realização do evento foi anunciado, alguns protestos eclodiram em Ponta Grossa. É o caso do que ocorreu na Unidade de Saúde Adão Ademar Andrade que foi inaugurada em 24 de junho passado.

O protesto contou com uma faixa afixada em frente ao estabelecimento com o dizer “Prefeito gasta R$ 136 mil com a tocha e aqui na unidade de saúde falta remédio, médico, telefone e lâmpada”.

Houve protestos também no Centro de Ponta Grossa. Na rua Paula Xavier, foi colocado um outdoor com a seguinte afirmação: “Senhor prefeito, a Visconde de Taunay está ótima, linda! Veja no seu orçamento se sobra um pouquinho e recape a Rua Colômbia! A Tocha Olímpica passa, a Ronda fica”.

No caso da Ronda, os moradores estão reclamando muito do estado de conservação das ruas do bairro. Isabell Prestes, que trabalha como cobradora na linha de ônibus Ronda/Terminar Central, destaca que as vias de circulação do bairro estão em péssimas condições, o que inclusive no trajeto do ônibus.
Confira mais detalhes no áudio realizado com Isabell.

Realizando uma conta básica, o custo gasto com a passagem da tocha daria para comprar cinco aparelhos de hemodiálise (equipamento que faz a função dos rins), ou uma ambulância equipada com UTI móvel completa, ou 1,5 mil vacinas contra a gripe H1N1, ou 250 cestas básicas, já contabilizando o aumento das mesmas sofrido neste ano ou, pelo menos, quatro casas pré-fabricadas de 55 metros quadrados.

Como não existe calçada em frente ao CMEI Profa. Cândida Leonor Miranda, na rua Baltazar Lisboa, no bairro Ronda, as criança são obrigadas a caminhar na rua. Foto: Douglas Kahl

 

Vale lembrar que a rede pública do Paraná só recebeu 48% do total de vacinas H1N1 previstas para este ano. O problema também afetou o atendimento aos usuários do serviço público de saúde de Ponta Grossa.

Em defesa da gestão municipal de sediar a passagem da tocha olímpica, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Ponta Grossa alega que não foi feito “nenhum exagero de gastos” e “só foi feito o que o Comitê Olímpico exigiu”.

Por que Ponta Grossa foi escolhida para passagem da tocha?

Uma reportagem feita pela Agência “Lupa”, projeto jornalístico que utiliza a metodologia do fact checking para a apuração das informações, mostrou que o roteiro de peregrinação da tocha olímpica contemplou municípios mais desenvolvidos. O texto destacou que as cidades escolhidas tinham, em sua maioria, Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) alto, superior à média nacional, ou seja, ao índice da maioria dos municípios brasileiros.

No Brasil, das 5.565 cidades, 0,6% possuem IDHM muito baixo, já na rota da tocha, não houve nenhuma cidade com essa classificação. No outro extremo, o Brasil possui 33,9% das cidades com IDHM alto, enquanto o trajeto de passagem da tocha contou com 59,9% de cidades com esse perfil e 10,2% de cidades com IDHM muito alto.

Confira, no gráfico abaixo, a discrepância entre o perfil do IDHM das cidades brasileiras e das cidades por onde a tocha passou.

O que se conclui, tendo como base o material publicado pela Lupa, é que as cidades escolhidas para a passagem da tocha, possuem, em sua maioria, um nível de desenvolvimento alto. Ainda é possível dizer que a realidade de municípios como Ponta Grossa não corresponde à condição de muitas cidades brasileiras. O município possui um IDHM de 0,763, índice que o classifica como uma cidade com alto desenvolvimento.

Em entrevista à agência de notícias “Lupa”, o Comitê Organizador da Rio 2016 explicou, no entanto, que a escolha das cidades teve “o intuito de mostrar a diversidade do povo brasileiro”, levando ainda em conta o “interesse das cidades”. O comitê explicou também que as cidades deveriam ter estrutura para receber o comboio que acompanhava a tocha.

Segundo o portal de transparência do Distrito Federal, em Brasília, primeira cidade a receber a tocha, os custos para bancar a passagem da tocha chegaram a R$ 4,3 milhões. Esse valor foi dividido, sendo que R$ 3,8 milhões foram pagos pelo Distrito Federal e o restante pelo Governo Federal. O valor foi utilizado em segurança, melhorias viárias e atrações culturais na Esplanada dos Ministérios.

Veja também
19/07/2016 - Tocha Olímpica passa por Ponta Grossa
05/09/2016 - Por amor à camisa

 

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