Financiado pelo MEC, programa traz a opção a pais e alunos de estudo em período integral.


Eric tem 14 anos, foi abandonado pela mãe, e mora com o pai que trabalha o dia todo. Ele não tem ninguém que faça o café da manhã ou o almoço. Até começo de 2013 passava a maior parte do seu tempo sozinho em casa, ou na rua.

Frequentemente adoecia por motivos banais: uma gripe, alimentação inadequada e irregular, falta de um adulto o acompanhando diariamente, solidão, ninguém olhava seus olhos abatidos. Sem ter ninguém para conversar em casa, acabava tendo dificuldades para fazer amigos dentro da escola também. Esse distanciamento afetou o aprendizado de Eric, que ficava cada vez mais e mais retraído. Foi quando algo que era apenas obrigação, se tornou refúgio e um segundo lar para Eric: a escola.

Através do projeto “Mais Educação”, criado e financiado pelo MEC, que amplia a jornada escolar, introduzindo as escolas a Educação Integral. Eric saiu das ruas e passa suas tardes dentro da escola, participando de atividades diárias desde acompanhamento pedagógico, até rádio escolar. Essas atividades de contra turno são destinadas apenas à alunos inscritos no programa. As escolas das redes públicas de ensino estaduais, municipais e do Distrito Federal podem aderir ao projeto através de uma inscrição feita anualmente pelo site do MEC.

Através do site é possível ver a listagem de todas as escolas incluídas no projeto. Em Ponta Grossa, o MEC contabiliza no site 17 escolas participantes. As quais 3 participam hoje, 2 não nos atenderam, e as outras  12 já não participam do projeto há anos.

Uma das escolas que está listada e de fato participa efetivamente do projeto, é a Escola Estadual Professor Becker e Silva, que possui ensino fundamental e tem cerca de mil alunos matriculados. Após quatro anos de Mais Educação, a escola hoje possui duas turmas de 45 alunos cada, e recebe verba para a compra de materiais para realização do projeto e para a merenda escolar desses alunos. A desistência é de cerca de 20% anualmente. O programa inclui alunos do 6º ao 8º ano, e acontece no período da tarde.

Os estudantes não são selecionados, a escola faz o convite á todos que desejem participar. Porém tem preferência àqueles que vivem em estado de vulnerabilidade social, explica o diretor da escola Fábio Silva: “Procuramos aquele aluno específico que tem algum problema familiar, aquele que está perante a sociedade, de alguma forma vulnerável. Tentamos trazer esse aluno á escola, para participar do programa.”.

A Professora Leda Maria Schimiguel participa do projeto desde o primeiro ano em que foi inserido na escola, em 2011. Dentre os alunos em vulnerabilidade social, ela cita um em especial; o Eric. “Como o programa faz com que o aluno fique em tempo integral na escola, é oferecido café da manhã, almoço e o lanche da tarde á eles. O programa Mais Educação melhorou a vida do Eric e de outros alunos em vários sentidos, até na saúde.”

Além disso, o Eric está no 9º ano, enquanto o projeto enquadra alunos até o 8ª ano, mas ele não é o único.     Os professores abrem exceções para alguns estudantes, em casos como o dele. “São alunos que nós conseguimos tirar da rua, e trazer para a escola. Mudamos a forma como eles veem o ensino. Além do ambiente estudantil eles podem aprender outras coisas.” explica Leda.

O MEC disponibiliza uma verba anual para as escolas matriculadas no projeto, de acordo com a quantidade de alunos que frequentam o programa efetivamente. No caso do Becker, a escola recebeu em 2014 R$25.000 para a realização do projeto. A verba da merenda também é feita de acordo com esse número, e vem do Governo do Estado do Paraná. Assim como o pagamento dos professores que ministram as atividades do programa, que são concursados, e recebem o pagamento de acordo com o número de aulas que eles dão.

Assim que a escola recebe a primeira verba para realizar o projeto, o MEC envia um manual com especificações, para que os diretores usem o dinheiro para fins pré-determinados. Por exemplo, cerca de R$1700,00 foram destinados á uma saída de campo escolar. Se o colégio decidir não fazer essa pequena viagem com os alunos, o dinheiro predestinado á ela é devolvido ao MEC.

Outra escola participante em Ponta Grossa é o Colégio Estadual Senador Correia, que aderiu ao programa em 2013. Com 700 alunos matriculados, hoje conta com duas turmas de 50 alunos cada no projeto do Governo Federal, sendo eles de 6º á 7º ano, tendo desistência de apenas cinco alunos no ano passado. Recebeu em 2014 R$30,000 para a realização do projeto.  A diretora Márcia Terezinha Costa, conta que é comum ter casos de vulnerabilidade social na vida dos alunos que participam do programa.

Ela explica que além de diretora, não só ela como os professores e funcionários, assumem diversos papéis dentro da escola. Intervenções familiares são comuns para eles. Se perceberem algo diferente nos alunos, como maus tratos, sinais de violência ou comportamento diferente, eles intervêm.  

“Muitas vezes a família está desestruturada e nós fazemos uma intervenção. Os motivos são diversos, mas já tivemos casos mais sérios como de abuso sexual dentro de casa. A escola acaba fazendo vários papéis além de educar.” Explica Márcia. O contra turno muitas vezes é o ideal para pais que trabalham muito e passam pouco tempo em casa, em casos mais extremos, é o refúgio que o aluno busca e a atenção que ele precisa.

O maior foco dessa intervenção são famílias desestruturadas e falta de atenção. Um caso que Márcia citou, foi de uma aluna que chegou á escola mancando. Quando a diretora perguntou o que houve, descobriu que a aluna havia sofrido um acidente e estava mancando porque tinha quebrado o pé. No mesmo instante ligou para á família, e alertou que se os pais não levassem a aluna para o hospital imediatamente, ela teria que alertar o Conselho Tutelar.  

Márcia conta que dentro da escola é possível encontrar alunos de todas as classes sociais. E que alguns fatores específicos como a alimentação, não só no projeto, mas também fora dele, é importantíssima na vida de alguns alunos. Assim como no Becker, no Senador Correia é servido café da manhã e almoço. Todo o cardápio da escola tem acompanhamento de uma nutricionista, e todos os produtos são orgânicos e vem direto da Agricultura Familiar.
  

O programa Mais Educação, transforma uma obrigação, em algo novo, produtivo e diferente na vida desses alunos. O período integral trás uma aproximação maior entre aluno e professor, o que não acontece com facilidade no período letivo comum. O contra turno é distribuído em várias oficinas, como:    

Acompanhamento pedagógico; educação ambiental; esporte e lazer; direitos humanos em educação; cultura e artes; cultura digital; promoção da saúde; comunicação e uso de mídias; investigação no campo das ciências da natureza e educação econômica.
 

E até alguns projetos mais desenvolvidos, no Becker os alunos participam de uma Rádio Escola, e no Senador Correia eles têm uma oficina de histórias em quadrinhos. Que são atividades diferenciadas, justamente para despertar o interesse dos alunos, em mente que eles devem passar obrigatoriamente por todas as oficinas que a escola produz para o projeto.

Em diversos países ao redor do mundo, o estudo em período integral é obrigatório há anos. O Brasil caminha em passos lentos para que isso se torne realidade no nosso país também. Devagar conseguimos perceber a diferença que essa mudança trás para a vida de milhares de estudantes que buscam apoio e perspectiva.