Para reverter os impactos negativos de suas ações, restou ao governo Beto Richa (PSDB) recorrer à verba de publicidade, que tem orçamento de R$ 107,6 milhões

Cerca de 50 alunos estiveram presentes, nesta quinta-feira, dia 28, no debate “Mídia X Movimentos Sociais: a cobertura jornalística da greve dos professores do Paraná”, realizado em Castro. Participaram as professoras do Departamento de Jornalismo da UEPG, Karina Janz e Angela Aguiar, e o estudante de administração da mesma Instituição, Aloízio Pereira Neves. A atividade de greve, organizada pelo SindUEPG e pela APP-Sindicato, integrou a programação destinada a estudantes em preparação para o exame do Enem e para o vestibular.

 

A relação entre o exercício da cidadania e a mídia foi alvo da reflexão apresentada por Karina Janz. Para ela, a questão está diretamente relacionada à forma como a sociedade se organiza.

No caso específico do Brasil, a docente destacou o fato de haver uma concentração da propriedade de veículos de comunicação nas mãos de poucas famílias. Essa realidade acabaria comprometendo a lógica da pluralidade das fontes, princípio fundamental ao funcionamento independente e crítico da imprensa, tão necessário às sociedades democráticas.

O impacto do episódio de 29 de abril, quando mais de 200 pessoas ficaram feridas após a operação policial realizada no Centro Cívico, em Curitiba, foi avaliado pela docente. A repercussão da cena de violência teria sido, em sua avaliação, determinante para a mudança no sentido de uma cobertura mais favorável à apresentação da posição dos movimentos de greve. Num primeiro momento, a mídia hegemônica reproduziu, no entanto, a versão apresentada pelo governo de que haveria black blocs entre os manifestantes.

No dia 30 abril, o Paraná Online trouxe como manchete o fato de o ex-secretário de Segurança do Estado do Paraná, Fernando Francischini, ter colocado a culpa em black blocs. E, no dia seguinte, a Gazeta do Povo já contestaria essa versão ao trazer o questionamento proposto pela Defensoria Pública do Estado do Paraná.

“Face às cenas de violência em claro desrespeito aos direitos humanos, acaba por prevalecer o senso de realidade”, destacou Karina.

A professora criticou, no entanto, o uso de verbas públicas destinadas à publicidade para influenciar a opinião da sociedade e reverter os impactos negativos à imagem do governo do Paraná, após a difusão de informações sobre o que ficou conhecido como o massacre de 29 de abril.

E, para isso, o governador Carlos Alberto Richa (PSDB) já tem aprovados recursos do orçamento no valor de R$ 107,6 milhões para a produção de vídeos e anúncios publicitários através de contratos com agências de propaganda.

 

Propaganda e publicidade não são jornalismo
A Agência Estadual de Notícias (AEN) foi um dos temas apresentados por Angela Aguiar. O serviço noticioso se apresenta como um trabalho jornalístico, aparentemente isento de interesses particulares, e tem seus conteúdos transcritos, integralmente, sem alterações, por jornais de todo o Estado do Paraná. Este fato fere, de acordo com a docente, os princípios da independência e da isenção necessários ao bom exercício do jornalismo nas sociedades democráticas.

É o caso do texto divulgado, ao final da tarde do dia 24 de abril, portanto, cinco dias antes do massacre de 29 de abril, pela AEN, cujo título é “Professores do Paraná têm remuneração média de R$ 4,7 mil”. O conteúdo foi reproduzido pelo Jornal O Comércio, na edição de 28 de abril, e pelo Diário dos Campos, na edição dos dias 26 e 27 abril. As informações foram questionadas pelos comandos de greve, para os quais essa não é a realidade da grande maioria dos professores.

Através de pesquisa realizada no mecanismo de busca do site da AEN, a docente destacou como as “manchetes” dos textos encontrados apontam uma tendência de associar a greve dos professores à ideia de prejuízo causado à sociedade. E, não por acaso, repete-se, muitas vezes, na mídia hegemônica essa interpretação, sem que seja apresentada a posição dos movimentos de greve dos professores.

Para a professora de jornalismo, essa prática de usar uma agência de notícias na forma de propaganda do governo influencia o público-leitor dos jornais, pois, ao invés de apresentarem uma visão plural dos acontecimentos da sociedade, trazem apenas a versão oficial, que é a do governo.

“A publicidade e a propaganda, ainda que travestidas de jornalismo, não são jornalismo”, destacou a professora, que ainda criticou a mudança de humor de alguns veículos da imprensa após receberem o investimento em publicidade feito pelo governo Beto Richa.

Essa mudança de posicionamento na cobertura, como ressaltou a docente, foi criticada pela mídia independente e de oposição, como é o caso do texto “Propaganda de Beto Richa muda postura da RPC / Gazeta com os professores”, publicado no Blog do Esmael e reproduzido no site da revista Carta Capital.

O papel da mídia e da imprensa alternativa como um lugar de fala que se contrapõe a interesses e a tendências dominantes também foi destacado por Angela Aguiar (foto). Para ela, esses veículos se valem, atualmente, sobretudo da facilidade de difusão de informação pelas plataformas integradas à internet, como blogs, Facebook e twitter.

Na cobertura da greve, um dos efeitos foi a integração de usuários da internet em torno de um nós político, como se deu no caso da difusão do lema dos grevistas “somos todos professores”, amplamente difundido pelas redes sociais.

Outro aspecto destacado por Angela foi o papel da mídia alternativa deflagrando pontos de interdição e de silenciamento nas versões apresentadas pelas falas oficiais, como no caso da versão de que, entre os manifestantes do dia 29 de abril, haveria black blocs. A apresentação de outras versões e personagens, afirmou a professora, acabaria por pautar a mídia tradicional e hegemônica, pela capacidade de a mídia alternativa influenciar, via internet, a opinião pública.

O debate foi encerrado com a fala do acadêmico em administração da UEPG Aloízio Pereira Neves, que alertou os alunos de Castro para a importância do movimento estudantil e do apoio à greve dos professores para a manutenção do direito à educação pública e gratuita de qualidade. Aloízio destacou ainda a necessidade da luta em prol dos interesses dos estudantes, como na proposta de reabertura do Projeto Fera Com Ciência.

A fala do estudante foi finalizada com a convocação para a passeata organizada, em Ponta Grossa, no período da tarde.

 

Não somos black blocs
Ao final do debate, os professores Maurício Kusdra e Rosângela Cristina Moreira e o aluno Rodolfo de Cava (foto) expressaram indignação pela foto publicada pelo Portal Paraná em matéria que falava da suposta participação de black blocs no episódio de 29 de abril. A foto trazia os professores e o aluno.

De acordo com Maurício Kusdra, ainda que a matéria não tenha dito explicitamente que ele era um black bloc, a associação era possível, o que se comprova pela repercussão da matéria entre conhecidos. Para o professor, a versão apresentada pelo governo, e reproduzida por jornais, é um desrespeito aos professores que estavam no Centro Cívico lutando por direitos e por uma educação pública de qualidade.

Maurício conta que, no dia 29 de abril, ele compunha um grupo formado por professores e alunos que estavam posicionados a quatro metros da barreira policial, montada para blindar o acesso à Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep).

“Não havia black blocs, e a participação dos professores foi feita de forma pacífica. É um desrespeito nos chamar de black blocs”, afirma.

A professora Rosângela Moreira, que há 15 anos atua na rede ensino do Estado do Paraná na área de língua inglesa, disse que seus familiares, colegas de trabalho e conhecidos viram com surpresa a matéria.

“Eu tenho uma ficha funcional exemplar, e as pessoas não conseguem me imaginar provocando um ato de vandalismo”, descreve. “Deveriam, sim, nos chamar de white blocs, pela forma pacífica como lutamos por nossos direitos”, ressalta a professora de inglês.

Arquivo comunitário
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