A trajetória do jornalista Seu Luis até a sua chegada na Princesa FM

Seu Luis apresenta estúdio da Princesa FM

O atual movimento de rádio comunitária em Ponta Grossa parte de Luis Dzulinski, jornalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e professor de português e de inglês. A inspiração para trabalhar com a temática comunitária vem de sua construção familiar e de períodos de resistência, durante a Ditadura Militar, no Brasil. Não falta a ele a convicção acerca da importância da comunicação crítica e destinada à classe trabalhadora. Durante a formação e atuação profissionais, apesar de correntezas contrárias, sempre acreditou na possibilidade de informar com inteligência.

 

Bases para convicções: os caminhos de Seu Luis

Seu Luis está aposentado pelo Banco do Brasil. Foram mais de 30 anos de colaboração em empresas de bancos que, de certa forma, são contrárias à maioria de suas ideologias. A forma de ver o mundo, de maneira crítica, continuou até a sua chegada à Princesa FM. Em grande parte por influência, desde a infância, do pai.

Enquanto criança, Seu Luis já tinha a visão de que era pertencente à classe trabalhadora. “Lambaris que fogem dos tubarões”, dizia seu pai referindo-se à exploração no sistema capitalista. Ele consertava latarias de caminhões e carros, não era um intelectual para poder definir todos esses conceitos, mas sempre apontava ao filho as diferenças evidentes entre as classes. O pai sabia quem era o explorado e quem era explorador e isso bastou para definir as ideias do futuro jornalista.

Durante o período em que trabalhou no Banco do Brasil, Seu Luis esteve ligado ao Sindicato dos Bancários para conquista de melhores salários e para a luta pelos direitos humanos e o respeito à vida. No entanto, nunca esteve ligado diretamente à direção do Sindicato, pois este tinha uma linha mais à direita politicamente. Os anos de trabalho no banco, assim como o exemplo familiar durante a infância, contribuíram ainda mais para seu conhecimento político.

Desde os 10 anos, Seu Luis trabalhava e estudava incentivado pelo pai. Fez cursos noturnos de inglês e português intercalados com o trabalho. E, quando teve oportunidade de ter períodos livres durante as manhãs, começou a estudar jornalismo na UEPG. Na época, o curso era cedido pela Universidade apenas em um turno, o que favoreceu Seu Luis a continuar trabalhando.

Seu Luis vivenciou o período de regime. Naquela época, tinha a clara consciência do que era o regime exceção. Conheceu São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Com poucos professores no mercado, durante a faculdade, já conseguiu lecionar. Com as aulas de português, Seu Luis levava textos esclarecedores a seus alunos. Pela Moral Empírica verificada por investigações, foi 'convidado' a se afastar por diversas vezes. A militância já começava ali.

Depois de aposentado, sua vontade de trabalhar como jornalista aflorou. Seu Luis sempre pensou em atuar em um órgão para poder trabalhar conscientização acerca das questões que aprendeu durante a vida. Fora de jornais e revistas mais comerciais, ele almejava uma rede que atendesse diretamente os interesses da classe trabalhadora. “Este é um sentido da comunicação como um trabalho”, afirma. Antes mesmo de chegar à Princesa FM, Seu Luis atuou como assessor de imprensa.

O primeiro trabalho como jornalista político foi na assessoria de comunicação de Padre Roque, durante seu mandato como o deputado federal. Para Seu Luis, esse envolvimento com a política o fez entender mais sobre as ações pública voltadas à agricultura familiar. Logo após, fez a assessoria de Selma Schons, assistente social e professora da UEPG que fez carreira política filiada ao PT. Com essa experiência, aprendeu mais sobre questões ambientais. Durante esse período, Seu Luis colaborou inclusive para a construção de um livro sobre as questões da água.

A Rádio Princesa foi a primeira rádio em que Seu Luis começou a atuar, logo após a aposentadoria. A entrada do jornalista não era esperada e surgiu de um jeito curioso. Para a criação da estação, houve um pedido inicial ao Ministério das Comunicações. Precisava-se de um jornalista para a licença ser permitida. Na época, Seu Luis morava perto da possível sede e foi indicado sem saber do cargo.

Em 2006, quando a licença foi liberada, várias reuniões com a comunidade foram promovidas para esclarecer os motivos da criação. No começo, muitas pessoas participaram. A indicação de Seu Luis foi positiva, pois era o que queria fazer e com total liberdade. A rádio, com todo seu glamour, trazia muitos programas. Como diz Seu Luis, “o dom ou o amor à comunicação é necessário, pois é um trabalho que cansa”.

Dentro da Rádio Princesa, Seu Luis trabalhava, diariamente, com as pautas, entrevistas e seleção do material. Além disso, participava também da parte administrativa e financeira. Como conta, muita gente passou pela rádio e sem nenhum tipo exploração. O trabalho sempre foi bem liberal e negociado para o bem de todas as partes. Com o envolvimento, Seu Luis começa a compreender melhor as dificuldades de gestão em se manter uma rádio comunitária.

Tanto foi o engajamento que ele foi eleito, em 2016, representante da Associação Paranaense de Rádios Comunitárias (Apracom). Um ano atrás, os responsáveis pelas rádios no estado notaram as dificuldades imensas dentro do campo e decidiram se reunir para a resolução de tantos processos. No Paraná, há cerca de 300 rádios comunitárias. Regionalmente, foram feitas reuniões. Houve uma boa receptividade. Seu Luiz acredita que uma rádio comunitária se associa ou morre dentro da atual situação.

Até agora, cerca de 150 rádios do Paraná já estão aliadas. A mobilização cresceu em Brasília, em reuniões legislativas. Muitas das rádios que não participaram ao menos se manifestaram em prol da criação da Apracom. Além da Princesa FM, Seu Luis também é responsável pelas questões legais da associação. Ainda em processo de criação, há toda uma burocracia como criação de estatuto, CNPJ e abertura de conta bancária para arrecadar contribuições.

Nova linha editorial: decisões recentes de Seu Luis

Entre setembro e outubro de 2016, tendo como base fundamentos ideológicos e experiências dentro da comunicação, Seu Luis decidiu mudar a linha editorial da Princesa FM. Os programas jornalísticos se mantiveram por oito anos sempre voltados à comunidade trabalhadora. Agora, tornou-se um veículo mais crítico e esclarecedor na questão de ações do atual governo federal.

A mudança é considerada radical. Seu Luis acredita que o jornalismo deve falar do governo e trazer entrevistas com pessoas que contestem as atuais medidas políticas. Ele defende que a Princesa FM não é um rádio partidária. Busca-se o outro lado com base em várias informações. A única nova característica é a evidência de problemas de uma maneira crítica.

Com uma linha mais declaradamente de crítica ao cenário político, muitos apoiadores abandonaram o contato com a rádio. Isso aconteceu alguns que já vinham apoiando por muito tempo. As desculpas foram por cortes de despesa, mas pela verificação nas redes sociais, foi percebido que o único corte foi com a Princesa FM. Não existe nenhuma explicação a não ser essa.

Agora, são transmitidas entrevistas ao vivo e com especialistas de outras cidades. O volume de informações aumentou. Pela falta de patrocínios, em dois meses, a finança se desequilibrou. O dinheiro começou a faltar e a sair do próprio bolso de Seu Luis. Alguns programas de entretenimento saíram do ar. Dois deles renderam mais de R$ 1 mil.

Em relação à audiência, houve uma redução. Grandes entrevistas substituíram os programas de música. Mesmo sem pesquisa, foi possível perceber que a audiência da rádio diminuiu devido a essa mudança. Apesar de tudo, Seu Luis se mantém firme na nova decisão. Fazer uma rádio que os outros já fazem não é a meta. Para ele, é preciso avançar sem reproduzir somente notícias de agências e trazer, sim, informações que colaborem na mudança de consciência.

Atualmente, há um problema grave de participação da comunidade, tanto na parte administrativa, quanto de colaborações. Segundo Seu Luis, a comunidade não usa muito a rádio para encaminhar reclamações. No programa Manhã Comunitária, por exemplo, não há participação e quando há, as pessoas relatam que tudo está bem. Pelo Conselho Comunitário, oito entidades fazem, eventualmente, críticas ou sugestões. É difícil reunir todos os conselheiros.

Ao lado de Seu Luis, o jornalista André Bida começou seu trabalho dentro Princesa FM há sete anos. No início, durante quatro meses, André oferecia ajuda voluntária e resolvia questões mais administrativas. Em sua segunda fase, auxiliou o lado jornalístico da rádio. O jornalista comandou cerca de 500 edições do programa Manhã Comunitária, durante os oito últimos meses na Princesa.

Segundo Bida, o principal fundamento repassado por Seu Luis foi a verificação de informações. Além disso, Seu Luis sempre se preocupou com todos dentro da rádio, seja com investimento de conteúdo, seja com a estrutura e as condições de trabalho. Seu Luis já tirou dinheiro do próprio bolso até mesmo para ajudar no salário dos colegas. Mesmo com a pouca participação da sociedade, Seu Luis batalha para fazer algo diferente dentro de Ponta Grossa.

Havia muita atenção às possíveis transmissões de notícias erradas. Por mais que a rádio fosse comunitária, Seu Luis sempre orientava dos possíveis processos que poderiam causar o fechamento da rádio. Seu Luis sempre defendeu a checagem da procedência e da veracidade das informações para evitar problemas e para manter o público bem informado.

Marquinhos Freitas, programador e editor da emissora, acredita que o principal fundamento repassado por Seu Luis é a ética profissional através de orientações para levar informação de utilidade e que acrescente. Dedicação, parceria e entrega fazem parte do trabalho de Seu Luis, que corre atrás de tudo o que pode, como parcerias. Isso é algo fundamental para a rádio pela dificuldade de se manter uma emissora comunitária, como explica Marquinhos, também atual apresentador do programa Manhã Comunitária.

O padrão musical da rádio nunca foi comercial. Sempre houve resgate a um segmento musical, sem seguir as músicas que “bombam” em outras rádios. A estação possui vários quadros, como o Antes e Agora, com músicas de sucesso do passado, e Estação Brasil, que foca músicas sertanejas e gaúchas mais clássicas. Seu Luis quer oferecer entretenimento, mas por outro lado resgatar as coisas boas do gênero.

A sede da Princesa FM: abrigo de Seu Luis

A forma como Seu Luis organiza a Princesa FM revela grande de sua personalidade. De origem simples, Seu Luis possui um jeito criativo e habilidoso de trabalhar. Ele se supera mesmo com as dificuldades e mudanças que a rádio passou desde a sua criação.

Rua Coronel Generoso Martins de Araújo, 1750, em frente ao Colégio Sagrado Coração de Jesus. Esse é o endereço da sede da Princesa FM. Local com cerca de cinco cômodos, que abriga a história da comunicação comunitária em Ponta Grossa. O ambiente é marcado por certa simplicidade, pelo uso mínimo de recursos por falta de grande incentivo, mas o espaço garante a estrutura mínima para manter a rádio no ar.

Assim como uma rádio comercial, a sede da Princesa FM traz todos os espaços necessários para o funcionamento de uma rede de entretenimento e de comunicação. Dentro do mesmo terreno da Igreja São Sebastião, a sede abriga a aparelhagem de uma rádio substituindo os móveis, que deveriam ocupar quartos e a cozinha de uma casa. É notável a adaptação criativa e bem feita realizada para a separação de um estúdio, sala de recepção, área de arquivo e espaço para alimentação.

Já na entrada, sofás pequenos fazem do pequeno cômodo uma recepção ou sala de espera. A decoração é simples e há uma grade de ferro em frente à porta, típica de casas antigas. Duas portas levam a novos cômodos: a cozinha e sala de gravações. Na cozinha, uma geladeira e algumas estantes para guardar copos e outros utensílios rápidos. Há também um bebedouro com água gelada, canetas e alguns papéis espalhados sobre os balcões.

Na cozinha da sede, computador com a memória das produções
Na cozinha da sede, computador com a memória das produções

No mesmo espaço, um computador se mantém ligado e serve de memória para as últimas transmissões realizadas pela Rádio Princesa. O computador é atualizado constantemente. Ao lado, uma cuia de chimarrão. Percebe-se, no tom informal do local, um clima positivo e agradável para qualquer pessoa que passe algumas horas por ali. Ao fundo da cozinha, há uma porta imensa que se liga a um espaço simples e útil à realização de inúmeras atividades da rádio.

O chão é de madeira, com aquelas tábuas longas que fazem certo barulho a cada passo. Nesse espaço aos fundos, cerca de cinco cadeiras, também de madeira, ficam arrumadas em um espiral curto. De longe, avistamos, ao fundo, a sala de reuniões. Este cômodo é o mais minimalista possível. As paredes são brancas e as cadeiras combinam com o chão. Apenas uma grande janela faz desse local o mais claro e agradável da sede. É ali que também acontecem entrevistas ao vivo e decisões tomadas junto ao conselho.

A sala leva aos dois últimos cômodos, um de cada lado. No primeiro, há alguns equipamentos de emissão e recepção, além de caixas e outras coisas guardadas. Escuro, parece servir como um depósito para tudo aquilo que já foi utilizado na rádio. O segundo espaço guarda apenas uma escrivaninha disposta ao centro. Este até serviria para uma sala de administração, mas tudo é mesmo resolvido por Seu Luis no estúdio.

O estúdio é onde tudo acontece: seja a parte administrativa, financeira ou até mesmo de programação jornalística e de entretenimento. Há um microfone principal com a espuma vermelho, um computador, telefone e uma escrivaninha antiga. Além disso, há equipamentos de controle de voz típicos das rádios. O pouco é suficiente para manter a única rádio comunitária da cidade.

Arquivo Portal Comunitário
25/07/2013 - Conselho Comunitário garante representação de moradores na Rádio Princesa
01/09/2009 - Trabalho voluntário mantém rádio comunitária na Nova Rússia

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