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Em fevereiro, a PM de Ponta Grossa agrediu estudantes em um bar próximo ao campo de Uvaranas da UEPG e foi acusada de abuso de poder. O problema é nacional: 70% dos brasileiros dizem não confiar na instituição. Nesse contexto, pesquisadores apontam a desmilitarização como alternativa para diminuir os casos de agressão.

“Olha lá, cara, a polícia tá aqui!”, disse o universitário Mauro Rocco* para um de seus colegas, quando viu que quatro viaturas se aproximavam do Bar da Tia, boteco próximo ao Campus Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde aproveitava a música ao vivo e a cerveja gelada. Ele ainda não sabia que, naquela noite, seria agredido pela Polícia Militar e veria cinco amigos serem presos.

O estudante imaginava que a PM iria realizar mais uma abordagem usual, a famosa ‘geral’, algo que não chega a ser incomum na noite da cidade. Entretanto, o que aconteceu na madrugada de 13 para 14 de fevereiro não foi nada rotineiro. A data ficaria marcada por relatos de abuso e violência policial.

Cerca de 50 pessoas estavam no estabelecimento, que tradicionalmente reúne universitários e trabalhadores da região. O show da banda local de rock Lulas Bitucas se aproximava do final quando nove soldados e um oficial da Polícia Militar se aproximaram da multidão e mandaram os músicos pararem de tocar. O relógio marcava dez para a uma da manhã.

De acordo com testemunhas, os policiais pediram para que a proprietária fechasse as portas do estabelecimento, sem maiores esclarecimentos. Já do lado de fora, alguns dos clientes questionavam o motivo da ação. Os soldados tentavam dispersar a multidão com empurrões e ordens ríspidas.

“Até esse momento não tinha nenhum tipo de exaltação. Só havia truculência da polícia, que nos empurrava e mandava ir embora”, conta o estudante Jumar Conceição*, que também presenciou a abordagem.

Descontrole
Na confusão, a polícia agride um trabalhador ferroviário, que é atingido por golpes de cassetete. Nisso, os ânimos se acirram. “Na hora que atacaram o senhor, todo mundo começou a gritar: ‘por que vocês estão levando ele, o que foi que ele fez?”, conta Jumar.

Revoltados com a abordagem que consideravam truculenta, os clientes do bar manifestavam indignação. “Um amigo meu começou a questionar a polícia diretamente, perguntava por que estavam ali, se iriam dar geral ou não. Ele foi derrubado e algemado à força. Nisso, a galera contestou e a violência da polícia se intensificou”, afirma Mauro.

Ele conta que nesse momento alguns dos clientes começaram a filmar, a maioria usando telefones celulares. Testemunhas relatam que a policia tentava impedir os registros e que um oficial quebrou a câmera fotográfica semiprofissional de uma jovem durante a ação.

Na tentativa de escapar dos golpes, a multidão recuou em direção ao prédio da Justiça do Trabalho, que fica no outro lado da Av. General Carlos Cavalcanti, rua que dá acesso à universidade.

A polícia foi atrás e continuou com as agressões. “Quando estávamos tentando fugir, levei uma pancada na perna e cai. Um policial me imobilizou e prensou meus braços contra o asfalto”, diz Jumar, mostrando as marcas que ainda ficaram da agressão, no antebraço.

Cinco pessoas foram presas e levadas para a 13° Divisão Policial, no bairro de Nova Rússia, aproximadamente às 2h da manhã. Entre elas estava a garota que teve a câmera danificada. Lá, foram fichados por desacato e resistência a prisão. Jumar foi um dos detidos e alega que o grupo sofreu agressões também dentro da delegacia. “Nos deram tapas no rosto e nos xingaram”.

Os estudantes relatam que foram liberados às 5h da manhã. Na segunda feira da semana seguinte, 17, foram novamente à delegacia para fazer o exame de corpo de delito.

“Acredito que tudo aconteceu porque a polícia não está acostumada a lidar com questionamentos. Os estudantes que estavam lá questionaram a abordagem, e a partir daí foi uma reação em cadeia”, opina Paulo Almeida*, outra testemunha, que cursa pós-graduação na UEPG.

As vítimas contam que ainda não entraram com ações judiciais sobre o caso. Alguns dos agredidos falam de colegas que sofreram ameaças para não insistirem no assunto.

Outro lado
A reportagem teve acesso em off a trechos do boletim de ocorrência aberto pelos policiais que participaram da ação. O texto registra que a abordagem aconteceu após várias reclamações de perturbação do sossego. Os estudantes detidos teriam ofendido os policiais e incitado os demais a permanecerem no local.

O documento ainda relata que um dos detidos agrediu e rasgou a farda de um oficial. A garota que teve a câmera quebrada teria derrubado o aparelho após “pressioná-lo contra o rosto de um policial”.
 

A reportagem entrou em contato com o departamento de Relações Publicas do 1° Batalhão da Polícia Militar para verificar se havia um inquérito disciplinar em andamento, mas não obteve resposta.

Da mesma maneira, tentou-se contatar a Polícia Civil, tanto no 2° Distrito, responsável pela região de Uvaranas, quanto na 13° Divisão Policial, para onde os estudantes foram levados. O Portal Comunitário não teve acesso a informações sobre o andamento da investigação.

*Foram usados pseudônimos para proteger a identidade das testemunhas, a pedido das mesmas.

Confira gravação amadora que registrou flagrante de agressão:

O Diretório Acadêmico Livre de História (DALHIS), órgão representativo dos estudantes de História da UEPG, comentou o acontecido em nota oficial de repúdio. Leia!

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Categoria: Direitos humanos
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