Especialista da IESol defende que unificação trará perdas para categoria

As associações de catadores de materiais recicláveis de Ponta Grossa podem mudar de endereço em 2017. Atualmente, elas estão distribuídas em quatro localidades da cidade: Uvaranas, Oficinas, Montecarlo e Borato. Há planos de remanejar os catadores associados para um novo endereço, no Distrito Industrial.


As quatro associações da cidade seriam unidas em uma cooperativa, que concentraria a recepção dos materiais recicláveis e o trabalho dos associados. “A cooperativa não vai absorver todas as pessoas que estão nas associações, porque parte deles são pessoas com mais de 70 anos e uma das coisas que eles já estabeleceram é que, na cooperativa, não vão trabalhar pessoas com mais de setenta anos”, diz Gilson Cruz, professor do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Gilson, que trabalha na Incubadora de Empreendimentos Solidários (Iesol), entidade que organizou a Associação dos Recicladores Rei do Pet (ARREP), no Borato, acredita que há uma disparidade entre os valores despendidos pelo poder público com a Ponta Grossa Ambiental (PGA), empresa responsável pela coleta de lixo na cidade, para a realização da coleta seletiva e os valores gastos com as associações.

A prefeitura paga à PGA cerca de R$ 750 mil pelo serviço de coleta seletiva de porta em porta em quatro bairros da região central da cidade. Já as associações têm apenas o barracão alugado pela prefeitura e cada associado recebe meio salário mínimo pago para garantir uma renda mínima frente às oscilações de preço dos materiais recicláveis. O restante do dinheiro para o sustento dos catadores vem da venda dos materiais que eles coletam.

Para Cruz, o serviço prestado é o mesmo, mas o tratamento dado a ambos é diferente. “Se a Prefeitura pode pagar R$ 750 mil para a PGA para o serviço de coleta seletiva, por que não pode pagar R$ 4 mil pelo aluguel dos barracões para as associações fazerem a triagem dos materiais?”, questiona. O professor ainda ressalta que, em cidades paranaenses menores, como Ventania, os catadores associados recebem um salário mínimo integral para garantir a renda.

Coordenadora das associações e assistente social da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Ponta Grossa, Jussara Borgo explica que a transição para uma única cooperativa deva acontecer no início do ano, entre março e abril. Além disso, Jussara acredita que por 2016 ter sido um ano eleitoral, o que está previsto até o momento possa mudar no ano que vem. Para ela, o trabalho coletivo dos associados trará recursos e mais condições de venda dos materiais recicláveis.

Jussara revela que, no início da proposta, foram levantados questionamentos pelas associações. Uma das principais dúvidas seria em relação ao transporte, já que a maioria dos associados moram próximo ao local de trabalho. Neste caso, a coordenadora diz que este possível problema seria solucionado pela prefeitura com a oferta de transporte.

De acordo com Marlene de Moraes da Silva, presidente da  ARREP, há, de fato, uma orientação da Prefeitura para deixar o barracão utilizado até março de 2017. Porém, não foi dada nenhuma data fixa para que os associados deixem o local.

Segundo Silva, a localização da nova cooperativa não ajuda as pessoas que moram longe, o que é o caso dos catadores da ARREP. “A assistente social que veio aqui disse que vai ter um ônibus para o transporte, mas é muito pouco. Só aqui são 23 associados, um ônibus só não dá conta de tudo, tinha que ter pelo menos mais um”, relata.

Silva também conta que, até o momento, não foram comunicados sobre o horário de trabalho que terão que cumprir ao mudar para a nova cooperativa. Hoje na ARREP, os catadores associados trabalham pouco mais de oito horas diárias. Todos os dias, chegam às oito para um café da manhã e começam a trabalhar às  oito e meia, encerrando os trabalhos às 16:45.

 

Para catadores, unificação pode trazer benefícios

Os catadores associados entendem de outra forma a mudança para o novo local. Eles compreendem que uma alteração de localização é positiva pelo fato de concentrar as ações em um só local e que, nas novas instalações, haveria maior estrutura para os trabalhadores.

“Eles estão para misturar as quatro para termos uma condição de trabalho melhor. Nós não temos refeitório aqui e lá vai ter. Será mais organizado. Vai ser melhor, espero que seja melhor”, comenta Rosane do Prado dos Santos, presidente da Associação Acamaruva, localizada no bairro de Uvaranas. Ainda de acordo com Santos, a prefeitura já teria um ônibus para o transporte dos trabalhadores até o Distrito Industrial.

A presidente conta que a vida dos catadores em associação é melhor do que na rua. Os catadores que trabalham na rua, com os carrinhos, ganham cerca de R$ 40 por semana de trabalho. Na associação, eles conseguem tirar, semanalmente, em torno de R$ 150 a R$ 200.

A diferença de ganho se dá porque, nas associações, os catadores fazem um pré-processamento dos materiais, prensando o que separam para comercializar. A diferença de preço entre o material bruto (solto, apenas separado, como os catadores encontram na rua) e o pré-processado (compactado) chega a passar do dobro.

Os materiais recicláveis separados nas associações vêm de diversas fontes: a Feira Verde da Prefeitura, a coleta seletiva feita pela PGA nos bairros da região central e doações de empresas e da comunidade. As empresas doam para as associações por uma exigência de lei e a prefeitura cuida da logística de transporte desses materiais até as associações porque os catadores não possuem estrutura para realizar esse trabalho por meios próprios.

Os resíduos da triagem, como copos plásticos descartáveis, são recolhidos pela PGA e os eletrônicos são guardados em um depósito. Há materiais recicláveis que não possuem mercado comprador em Ponta Grossa e, por isso, acabam sendo descartados.

A catadora associada Isonete Aparecida Souza relata que a adaptação à rotina da associação não foi difícil. Ela já havia trabalhado em uma cooperativa (hoje extinta) antes de começar a ajudar na Acamaruva. Souza fala que, quando trabalhava na rua, sofria com o peso do carrinho e com o baixo retorno que a venda dos materiais recicláveis trazia.

“A gente vendia de pingado. Separava material por material, mas eles exploraram muito a gente, dava muito pouco. Trabalhava o dia inteiro e não tirava ‘deizão’ por dia”, lembra Souza. Mesmo com as dificuldades da vida de catadora, Souza fala que conseguiu criar todos os sete filhos sem que precisasse pedir a ajuda de nenhum deles na coleta dos recicláveis.

Em funcionamento há cerca de 10 anos, a Associação de Catadores de Recicláveis de Monte Carlo possui 23 associados. O grupo de pessoas trabalha no menor barracão entre os utilizados pelas quatro associações. Há produção de 50 fardos de material reciclado por semana pelos associados.

Atualmente, a Associação de Monte Carlo armazena uma pilha de materiais para serem reciclado nos próximos meses. A presidente da associação, Ilsa Mara Mendes, explica que a quantidade de material para reciclagem diminui no período de final do ano. Como a renda se dá pela produção, a associação busca usar esse método como estratégia.

Sobre a mudança das associações para uma única cooperativa, Ilsa avalia como necessária e diz que as possíveis demandas só poderão ser solicitadas quando tudo estiver em novo funcionamento.

Membro há mais de sete anos da Monte Carlo, Maria Almeida Souza começou a trabalhar na separação após convite para conhecer a reciclagem realizado por uma vizinha, que era associada. Ela conta que gosta do trabalho e não teve dificuldades quando começou.

Com 37 anos e mãe de um casal de filhos, Maria revela que o atual problema, que atrasa no momento da separação, é a falta de conscientização das pessoas na hora de descartar o lixo. Segundo ela, a criação da cooperativa não representa um problema até o momento.