Dona Maria auxiliou na fundação de uma das associações de catadores de Ponta Grossa

Em um barracão localizado na avenida Souza Naves, próximo à entrada da Vila Borato, funciona a Associação dos Recicladores Rei dos Plásticos (Arrep). O local se divide, basicamente, em duas partes: o lugar onde é feito todo o processo de separação do material reciclável e a parte onde se cuida da administração e onde os catadores associados fazem as refeições. Em uma bancada externa, feita de chapas de compensado, junto a uma parede, trabalha Maria da Luz de Oliveira ou, simplesmente, dona Maria.

Texto e fotos: Daniel Schneider

Dona Maria foi uma das primeiras catadoras associadas da Arrep. Começou o trabalho em 2011, limpando o barracão e conversando com a vizinhança para ver se pessoas aceitavam que houvesse, ali, um trabalho de separação de material reciclável e se os moradores poderiam ajudar com a doação de material.

O rosto marcado pela passagem do tempo - hoje ela tem 72 anos - não impede que um sorriso apareça com facilidade. Extrovertida, dona Maria é daquelas pessoas que te convida para sentar e não se sente envergonhada de contar histórias da sua vida.

A catadora nasceu em 10 de maio de 1944, na cidade de Reserva, interior do Paraná. De família pobre, começou a trabalhar na roça, para ajudar os pais, aos 14 anos. Teve o primeiro filho aos 15 anos, mesma idade em que deixou a casa dos pais para viver com o marido para ter outros oito filhos. O parceiro faleceu há dois anos e quatro meses.

Com os filhos casando e indo embora, disse que se sentia muito sozinha em casa, então, quando a filha falou que precisava mudar de cidade, pediu para deixar o neto com ela. Na época o garoto tinha apenas um ano e sete meses, hoje, já possui 15 anos e continua morando com a avó, mesmo com a mãe retornando para Ponta Grossa.

Dona Maria já está aposentada. Os colegas falam que ela não precisa mais trabalhar ali, mas ela mesma diz que gosta. “Fico doente se parar de trabalhar”, justifica-se.

“Na associação somos uma irmandade”


“Aqui na associação nós somos como uma irmandade”, diz dona Maria, se referindo ao modo como os catadores associados tratam uns aos outros. Ela mesma faz questão de tratar a todos como se fossem parte de sua família.

Membro da Associação há um ano e cinco meses, Lucilene Aparecida Paes relata que todos querem muito bem a dona Maria. “Ela foi uma das que mais me recebeu bem, aqui”, lembra a catadora. A colega de ofício conta que, quando chegou à Arrep, dona Maria a ensinou como funcionavam as coisas por ali, para que servia cada parte do barracão e em que cada um trabalhava.

Há duas coisas que tiram dona Maria do sério: mexer em seu local de trabalho e cometer uma injustiça com alguém. Lucilene fala que, se alguém inventa alguma história para prejudicar uma pessoa ou se resolve distorcer um fato e dona Maria sabe o que realmente aconteceu, não pensa duas vezes antes de defender a vítima.

Sobre o fato de mexerem no lugar onde trabalha, Lucilene conta uma história recente. “Uma vez, nós estávamos limpando ali onde ela trabalha e tinha uns pedaços de EVA jogados. Ela dizia que eram os artesanatos dela. Acabamos jogando tudo fora na limpeza. Ah, mas a velhinha ficou tão brava!”, conta aos risos.

Nos dias de seu aniversário, os associados costumam comprar um bolo e fazer alguma coisa em homenagem à integrante mais velha e, também, a mais antiga do grupo. Isso quando ela mesma não resolve dar um dinheiro aos colegas para comprar pão, vina e mais alguma coisa para comemorar a data. “A associação é a segunda casa dela”, conta outra de suas colegas, Marlene de Moraes da Silva, amiga pessoal, há mais de 20 anos, e presidente da Associação.

O fim de uma era


“Ela não precisa vir aqui. Ganha aposentadoria e só vem porque gosta mesmo”, relata Marlene. Dona Maria conta que não gosta e nem consegue ficar muito tempo em casa.

Dona Maria ajudou na fundação da Associação de catadores. Procurou o barracão, limpou e mobilizou a comunidade para doar os materiais que eles precisavam. Ainda orientou cada um que entrou ali para trabalhar. Porém, sua história como catadora associada vai chegando ao fim. A Prefeitura irá abrir uma cooperativa de catadores no Distrito Industrial e todos os associados passarão a ser cooperados.

Dona Maria não se encaixa no perfil dos que podem entrar no novo estabelecimento: tem uma idade muito avançada e ganha aposentadoria. Com o projeto de reunião de todos os catadores em um mesmo espaço, foi dado o prazo de até março deste ano todas as associações limparem e desocuparem os barracões. Atualmente, esses espaços são alugados pela Prefeitura.

Os colegas terão de se acostumar a não ter, por perto, o sorriso fácil dela e a não ouvir seus “causos”. Muito extrovertida, conversa durante quase o dia todo.

Quando está animada, chega até a cantar e dançar durante o serviço, garantem os colegas. “Parece até um rádio, a velhinha”, se diverte Marlene.

Com uma saída iminente da Associação, dona Maria fala em retomar o trabalho no Clube de Mães, ensinando outras mulheres a fazer artesanato. Conta, também, que um rapaz do Santa Luzia, dono de uma sorveteria, ofereceu um freezer para que ela possa vender sorvete em casa, como uma filial no bairro onde ela mora. Um meio de se manter ocupada e complementar a renda da aposentadoria.

Arquivo Portal Comunitário
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