Instituições de Ponta Grossa oferecem atividades personalizadas para pessoas com deficiência, buscando integrar família e escola

Turmas de estimulação essencial são formadas por, no máximo, quatro alunos para garantir amplo desenvolvimento físico, motor e mental.

 

Escolas voltadas para o ensino de alunos com deficiência ainda são alvos de preconceito. Na grande maioria das vezes, pelo desconhecimento de como é desenvolvido o ensino. Pensando nisso, entidades como a  Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) realizam eventos ao longo do ano que oportunizam à comunidade conhecer os conteúdos e trabalhos realizados.

 

Uma escola como qualquer outra, com estudantes dedicados e professores estimuladores. Uma instituição que busca o bom relacionamento com as famílias, visando o desenvolvimento do aluno. Essas são características de escolas como a Apae - Ponta Grossa e a Associação de Pais e Amigos do Deficiente Visual (Apadevi).

Basta uma volta pelos corredores das escolas para notar um ambiente organizado, salas com poucos alunos e o atendimento individualizado. Os estudantes não são tratados como números, como acontece em grandes colégios, mas vistos como crianças e adolescentes atendidos conforme a necessidade. É o que conta a professora da estimulação essencial da Apadevi, Francisley Fagundes, que já trabalhou no ensino regular e é educadora especial há dois anos.

A complexidade do trabalho é relatada pela educadora que lida com um público com extensa faixa etária. “O nosso ensino é relacionado diretamente com o desenvolvimento específico de cada um. Aqui fico com crianças de meses de idade a três anos. Então, é onde começamos a compreender a especificidade de cada um.”

Fagundes explica que, em função disso, as aulas são preparadas conforme a deficiência de cada bebê. Um relatório é montado a partir do diagnóstico médico e entrevista com familiares. Esse dossiê é utilizado durante todo o ensino, sendo atualizado conforme a evolução. A partir disso, cada atividade é pensada exclusivamente para cada etapa do desenvolvimento, ao longo dos anos.

A estimulação essencial é o momento de primeiro contato entre a criança com deficiência e a escola. Aqui há o desenvolvimento intelectual, sensorial e motor. Nessa idade, brinquedos, cores e luzes são parte do material utilizado. O que para os adultos parece ser apenas garrafas, tampas e caixas, se transforma em equipamentos que auxiliam na apuração dos movimentos infantis.

O que parece ser brinquedos coloridos são estimuladores para a visão, essenciais para os primeiros anos de vida de deficientes visuais parciais.

 

Rosilda Abrão é professora de estimulação essencial há 17 anos na Apae. Durante a semana, ela trabalha com dez alunos, divididos em grupos de duas ou três crianças por turma.

Abrão explica que o fato de a turma ser pequena é o que garante o acompanhamento com qualidade. “A turma é bem reduzida se compararmos ao ensino regular.

Aqui eu tenho alunos que andam, outros que ainda não. Então eu penso atividades específicas para cada um. Além disso, trabalho conteúdos de português e de matemática como no ensino infantil regular”, explica.

Durante o ano, cada turma da Apae desenvolve um tema, que é apresentado na Mostra Cultural. Neste ano, a 12ª Mostra, que foi realizada em agosto, teve temática livre. A professora Lidamir Koroviski esclareceu a forma de trabalho realizada ao longo deste ano.

“Eu tenho duas turmas, uma de adolescentes entre 13 e 14 anos e outra de 15 e 16. Então, realizo orientação com eles de como entender as diferenças. Para isso uso contos e livros, que ajudam a materializar essa vivência que eles já enfrentam”, explica.

A atividade foi uma forma encontrada pela entidade para que a comunidade se integrasse à escola, de forma a se quebrar a barreira que ainda possa existir.

Relação professor e aluno
Dentro do ensino especial cada avanço é comemorado. É assim que Rosilda Abrão define o trabalho que desenvolve. Como educadora há 17 anos, a professora pôde presenciar e acompanhar o desenvolvimento de muitos alunos.

“Não há emoção maior do que ver o empenho da criança em algo que você propôs a ela. Quando o desafio é vencido, mesmo que depois de anos, faz todo o esforço valer a pena”, relata.

A educação especial exige paciência e dedicação, tanto do professor, quando da família e do aluno. Toda essa atenção gera uma relação de proximidade maior do que a propiciada em escolas convencionais.

Durante uma visita à Apae, a equipe do Portal Comunitário pôde presenciar uma mãe que havia levado o filho para se despedir da professora. A família se mudaria e, por isso, o aluno seria transferido para outra sede. Com um presente na mão, a mãe pede para que chamem a professora.

Prontamente Rosilda chega à recepção, reconhece a família e já sabe que se trata de uma despedida. A conversa sai em tom de tristeza, perda. Um abraço fraternal e lá se foi a mãe e o filho.

Quando pergunto à educadora como é esse momento, ela sorri e conclui que cada aluno conquista uma relação de confiança, um elo tão grande que qualquer despedida é sofrida.

A relação criada se dá também pela dependência, principalmente quando se trata de crianças. O cuidado com que são tratadas e a atenção dada graças ao atendimento personalizado criam uma familiaridade.

A proximidade das crianças com o professor permite que o plano de ensino seja traçado.

 

Relação escola e aluno

As deficiências ainda são pouco debatidas, o que impede a total inserção dos deficientes na sociedade. Por isso, o papel da escola especial é também de acompanhamento e aconselhamento dos professores do ensino regular.

Segundo a pedagoga da Apadevi, Lucélia Lara, os deficientes visuais estão inseridos em escolas regulares, já que a entidade funciona como complemento ao ensino, quando esses alunos estão em idade escolar. Com isso, há a necessidade de orientar os professores sobre como ensinar os conteúdos de forma adaptada.

“Nós explicamos aos professores como eles devem auxiliar o estudante em sala de aula. A maioria deles não sabem o braile. Então nós que fazemos a transcrição dos conteúdos para o braile”.

Dentre as matérias de maior dificuldade de adaptação estão as disciplinas de matemática, física e química. Lara esclarece aos professores a necessidade de a explicação ser transmitida da forma mais concreta possível já que nem tudo pode ser passado para o braile.

Relação escola e família    

Além de orientar os estudos, a escola especial se torna um meio de conquistar a independência. A partir do desenvolvimento que adquire, cada aluno consegue quebrar a barreira do medo que, muitas vezes, existe dentro da própria família.

A professora Franscisley Fagundes explica que, ao longo do crescimento, a escola se torna uma fortalecedora da confiança entre filhos e famílias.

“Às vezes, o âmbito familiar se torna uma barreira no desenvolvimento da criança e não é por mal, é justamente por querer proteger. Mas é aí que entra o papel da escola, que é mostrar àquele pai ou àquela mãe que o filho é capaz de fazer tudo que uma criança faz”, conta.

Alguns pais têm resistência em aceitar a necessidade dos filhos. Essa é a primeira tarefa das escolas especiais. Aproximar a família da escola. A diretora da Apae, Josneide Panazzolo, descreve que essa relação é de suma importância para o desenvolvimento e envolvimento do aluno.

Segundo a diretora, algumas famílias demoram anos para se aproximar da escola. Mas há uma busca constante, por parte das instituições, de criação e fortalecimento desse laço. “É uma troca. Os pais se doam para nós, nós nos doamos para a família, e quem sai no benefício é o filho”, conclui.  

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