“Muitas das pedras que eu recebo, eu acabo atirando no outro”, comenta o estagiário de psicologia do Renascer

O Grupo Renascer realiza sessões de terapias de grupo na última sexta-feira de cada mês, na sede da instituição. No último dia 30, o tema da conversa foi “Refletindo sobre o próprio preconceito”. A atividade foi guiada pelo estudante de Psicologia e estagiário na ONG, Lucas Küller, e pela psicóloga da instituição, Ana Paula Souza Santin, que também desenvolve o trabalho de terapia individual com os integrantes do Grupo Renascer.

 

Lucas passou, inicialmente, o vídeo “Ninguém nasce racista, continue criança” https://www.youtube.com/watch?v=kaWUyiMSrV0 , cuja temática é a mesma da atividade. Para ele, um dos maiores problemas é o próprio julgamento das pessoas. “Muitos de nós já sofremos preconceito. No entanto, nós também temos o nosso preconceito intrínseco e sofremos com o nosso próprio conceito”, enfatiza.

O estudante de psicologia destaca que o auto-preconceito é muito comum no universo LGBT. “Quando a gente está falando de sexualidade, o mais difícil é a autoaceitação”, afirma.

Ulisses Massinhan, um dos diretores do Renascer também comenta sobre o auto-preconceito. “A gente aprende a ser preconceituoso. Muitas vezes, acabamos reproduzindo aquele modelo que aprendemos em casa, às vezes preferimos fingir que não vemos”, explica destacando ainda que nenhuma forma de preconceito é algo bom.

“A gente costuma brincar que às vezes a gente se sente até um ET, porque a gente se acha muito diferente, mas na realidade, nós não temos nada de diferente dos outros”, exalta Massinhan.

Durante a sessão, algumas pessoas falaram sobre as próprias histórias de vida. Nomes fictícios serão utilizados ao citar cada entrevistado que compartilhou seu depoimento.

Depoimentos

Lurdes, 43 anos
“Quando era criança, meu irmão falava para mim: ‘Você é doente! Isso não existe, você não pode gostar de mulher.’ E eu coloquei isso na minha cabeça. É complicado, você vai crescendo e você não consegue entender o que está acontecendo. Isso só o tempo para responder.

Quando eu tinha 15 anos, minha mãe descobriu. Ela ficou louca, disse que não tinha mais filha. Já o meu pai disse: ‘Deixe a menina viver do jeito que ela é. Se ela é feliz assim, deixe ela viver assim’. Meu pai sempre me deu força, hoje, graças a Deus, toda minha família me apoia.

Talvez, na época, se eu não tivesse o meu pai me apoiando, eu não sei o que poderia ter acontecido. Eu vejo amigas minhas que são casadas e sofrem a vida inteira, porque a família não aceitou. Eu tive meu pai que me deu força, eu saí de casa, fui morar com uma mulher e ele todos os dias ia me visitar. Se ele ia viajar ele falava: ‘Vou viajar tantos dias, tal dia eu volto’.

Eu tenho um irmão que nunca se assumiu e penso o quanto ele deve sofrer. Esse era o irmão que falava que eu era doente. Ele não conseguiu se assumir e, provavelmente, não vai se assumir. Ele usava a roupa da minha mãe e eu usava a roupa do meu pai. A gente sabe, a família inteira sabe, mas ele não tem coragem de assumir.

Às vezes, eu pensava, por que que eu sou assim? Minha irmã passava batom e vinha passar em mim, mas eu saia correndo. Era uma coisa que eu odiava, e eu achava que eu era única. Quando eu descobri que tinham mais pessoas como eu, foi muito bom porque, aí, eu vi que não era doente.

Nós morávamos no sítio, nem televisão tinha lá. Aí chega alguém e fala para você que você é doente. O que você vai pensar? Você olha todo mundo e se vê daquele jeito. Então, você acaba pensando que é doente. É complicado, mas eu nunca disfarcei. Minha mãe descobriu, mas eu nunca escondi nada, nunca escondi que tinha mulher nem nada.

Muitas vezes, eu entrei no banheiro feminino e me arrancaram de lá, mas eu falava: ‘Dá licença, eu sou mulher!’.

Maria, 50 anos

“Hoje eu levantei cedo, já fiz uns negócios lá no Centro, mas achei um tempinho para vir aqui. Eu acho que aqui é o lugar da gente. Nesta vida, temos que procurar o que a gente gosta. Então, estou aqui.

Eu estou com 50 anos, há 25, 30 anos, se uma travesti passasse lá longe, meu senhor, era o maior vexame. ‘Olha a bicha passando!’ Eu tinha uma amiga no Santa Maria, que já é morta, e ela era bem masculina. Nós íamos num tal de Champagne, que era uma casa noturna onde só ia travesti e trans.

Lá, só ia quem gostava. Iam homens bonitos e eu achava altos namorados lá. Na época, eu tinha 19 anos e andava com essa amiga. Foi ela que ajudou eu me montar. Desde os meus 13, 14 anos, eu pegava emprestada umas mini-saias dela.

Agora, está uma maravilha para quem tem 17, 18 anos. Porque antes, quando eu tinha 15, 16, Deus me livre, você com uma cara de mulher e nome de homem, quem é que ia dar emprego pra gente? Sem querer, você se joga na prostituição, é o seu único meio de sobrevivência. Eu vivia escondida, eu sofri bastante na minha vida.”

Rafaela, não revelou a idade

“Eu acho que preconceito você vai encontrar em toda parte. Eu tive o apoio materno. Quando eu fui falar para ela, minha mãe disse que já sabia. Meus irmãos ficaram “meio assim”, não aceitaram logo quando eu contei.

No colégio, quando eu entrei na quinta, sexta série, começava a chamada e perguntavam ‘Quem é o Felipe?’ Aí, eu levantava a mão. Eu tinha cabelo comprido e parecia uma menina. Quando viam que era eu, já me olhavam e me apontavam. Então, eu já sofri um certo preconceito.

Quando eu comecei a namorar, o preconceito não vinha nem do meu namorado, mas da família dele. Agora, faz um ano que estou casada e tenho o apoio não só dele, mas também da família dele.”

Arthur, não revelou a idade

“Eu apanhei do jardim até a oitava série na escola. Aí, quando eu falei para a minha mãe que eu não queria ir para a escola, eu apanhei da minha mãe. Eu tomei advertência quando eu denunciei bullying. Eu mudei muito de escola, mas acho que sempre foi negligência. Ninguém estava interessado em tentar intervir.

Hoje, eu estou na faculdade, mas não tenho amigos. Então, ninguém mexe comigo também. Mas eu larguei a faculdade ontem. Eu estava fazendo História.

O bom de eu ser maior de idade é que eu posso ameaçar meio mundo de processo. Então, a única vez que eu sofri preconceito, ameacei processar e suspenderam o ‘piá’. Eu não consigo conviver com heterossexuais.”

Preconceito
Lucas comenta que um dos primeiros filósofos a discutir o preconceito foi Gordon Allport. “Allport define o preconceito como sendo uma atitude negativa em relação a uma pessoa”, destaca.

O estagiário ainda descreve que, para o autor, “o preconceito é o resultado de uma frustração. Pessoas que se sentem exploradas e oprimidas acabam deslocando sua hostilidade para outros em posição mais “baixa” na escala social.”

Para o coordenador da atividade, há algo comum que cometemos. “Muitas das pedras que eu recebo, eu acabo atirando no outro”, finaliza.