O preconceito acontece na própria comunidade LGBT

Farrá e Denise, integrantes do Grupor Renascer, que compartilharam suas histórias com a equipe do Portal Comunitário

O Portal Comunitário acompanha as atividades do Grupo Renascer, que dá apoio à comunidade LGBT, em Ponta Grossa. Desde que comecei a cobrir a instituição, algumas personagens sempre me chamaram a atenção. Um dos desafios postos, no começo do ano letivo de 2016, pela disciplina Redação Jornalística, foi a execução de um texto em gênero perfil.

Sem dúvida, eu já sabia, desde os primeiros contatos com a instituição, quem eu queria entrevistar. As travestis Fernanda Riquelme e Denise de Lima Dornelles são as protagonistas das histórias aqui relatadas. Convido o leitor a acompanhar, comigo, um pouquinho da vida de cada uma.

Fernanda Riquelme, tesoureira e secretária do Renascer.

 

“Precisamos viver com mais carinho”

Em uma das salas da instituição, chamo Fernanda, mais conhecida por Farrá, para uma conversa. Caminhando com um pouco de dificuldade, devido ao tratamento de um câncer nos ossos, ela entra e senta-se à minha frente. 

- Farrá, eu preciso saber da sua vida!

O nome de batismo, Marcos Aurélio Riquelme, foi substituído por Fernanda Riquelme. Nascida no dia 19 de dezembro de 1963, com 53 anos, Farra esbanja tranquilidade e serenidade ao relembrar o passado. Atualmente, trabalha como tesoureira e secretária do Renascer.

Eu nasci em Ponta Grossa, mas fui registrada em Castro, porque o meu pai já era casado. Ele foi embora quando eu tinha sete anos. Saiu para trabalhar e nunca mais voltou. Ele dizia assim: “Esse guri é muito mariquinha, tem que tomar jeito de homem!” Quando meu pai foi embora, a minha mãe precisava trabalhar e eu ficava sozinha em casa, esperando ela voltar para trazer o que a gente ia comer. 

Nesse período, ela me colocou, durante um ano, em um seminário de padre para depois eu voltar a viver com ela. Aos 9 anos, eu já saía com meus vizinhos. Na época, a moeda ainda era o cruzeiro e eles pagavam sorvetes. Havia caminhoneiros que me levavam para viajar junto. Eles compravam uma coisinha ou outra para agradar. Então, aquela coisa foi me incentivando a entrar na prostituição. Com isso, eu podia ajudar minha mãe. 

Com 12 anos, eu já era uma travesti formada, com seios e tudo.” Enquanto fala, Farrá faz gestos que mostram o delineamento feminino que o seu corpo foi ganhando. 

“Depois, mais tarde, que eu fui conhecendo silicone, cirurgias plásticas. Aí, sim, que a gente vai buscando a perfeição. Mas desde que eu me conheço por gente, eu sempre tive tendência. É como se eu dissesse para você: ‘A gente não escolhe ser. A gente já nasce predestinado. Por mais que teus pais tentem corrigir, tentem que você seja um rapaz, não dá certo. A gente já nasce com o gênero.’

Quando você é criança, você não gosta de brincar com os meninos, de pegar passarinho, jogar bola, de carrinho de rolimã. A gente não gosta disso e acha uma coisa agressiva. A gente gosta mais das coisas de menina: brincar de boneca, usar o sapato da mãe e das irmãs. Então, eu acho que isso é uma coisa que não tem como evitar.” Farrá diverte-se ao lembrar de quando vestia os acessórios de sua mãe e irmã. 

Discriminação

“Na maioria das vezes, a gente não é discriminado pela família. Mas é muito duro para uma mãe, para os irmãos, até para o próprio pai, saber que tem um filho ou uma filha trans porque eles não querem nos ver sofrer com o preconceito das pessoas. É aquela coisa, eu posso falar, o outro, meu vizinho ou meu parente, não pode. 

Muitas vezes, os outros dizem: ‘Ah, teu filho é veado’. Isso é uma coisa chata, ofende e agride, mais a eles [os familiares] do que a nós. A gente está acostumada e não liga, mas para os pais é muito duro, pois eles acham que nós sofremos. Só que a vida é tão dura pra gente, que nos acostumamos e não ligamos. A gente aprende a sobreviver. 

Com o pensamento vago e distante nas recordações, Farra parafraseia sobre o preconceito. "Por isso, eu digo que, na maioria das vezes, o preconceito vem de nós mesmos, nós travestis, nós trans homens, trans mulheres, gays. A gente sempre tem aquilo de se sentir melhor que o outro. Eu tenho mais estudo que você, eu tenho mais capacitação que você, eu sou mais bela que você. E não é bem assim. Todo mundo é igual, nasce igual e falece igual. Então, não existe diferença."

"A gente precisa aprender a viver sem egoísmo, com mais carinho, mais educação."

"Eu aprendi uma coisa e agora eu sou assim: vivo todo dia, eu não penso nem no futuro e nem no que já passou. O que já passou, já passou. O negócio é você aprender a conviver com o que está acontecendo agora para daí você poder aprender a viver e ser feliz. Um dia de cada vez.”

Farrá

Enquanto mexe nos cabelos, Farrá me explica a origem de seu apelido. “Há muito tempo, tinha a Farra Fawcett, uma pantera do filme As panteras. Eu achava ela muito linda. Eu usava a mesma tinta de cabelo e corte, não para ser igual, mas para ser parecida. Aí, eu usava o nome, e pegou. Até hoje, por mais que eu queira ser Fernanda, todo mundo me chama de Farra.”

Violência

“No 27 de setembro de 2007, eu sofri uma violência muito grande, eu sempre ia embora do trabalho com a minha amiga. Ela morava no 31 de março e eu morava no Pitangui. Às onze horas da noite, caminhávamos juntas até o ponto de ônibus. Naquele dia, eu tinha ganhado pouco. Então, eu falei para ela que eu ia ficar mais. Eu trabalhava na esquina da Caixa Econômica, na rua Francisco Ribas. Então, eu subi para a esquina de trás do cemitério. A única coisa que eu lembro é que eu subi em um carro com quatro rapazes.

Eu fui violentamente agredida. Quebraram meu maxilar e todos os meus dentes. Furaram meu pulmão, quebraram as minhas costelas e queimaram meus pés. Quem me achou aqui no Hospital Bom Jesus foi a Débora Lee que coordena o Renascer. Chamaram ela para reconhecer a travesti que estava internada, porque eles tinham me dado três dias de vida. Eu fiquei no Centro de Tratamento Intensivo (CTI), em coma induzido, para não sentir dor. Quem me viu fala que fiquei irreconhecível.”

Os casos de agressão à comunidade LGBT são alarmantes. Segundo uma pesquisa da organização não governamental ‘Transgender Europe’ (TGEU), rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero, o Brasil é o país onde mais se mata travestis e transexuais no mundo. Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país.

Um relatório sobre violência homofóbica no Brasil, publicado em 2012 pela Secretaria de Direitos Humanos – hoje Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – apontou o recebimento, pelo Disque 100, de 3.084 denúncias de violações relacionadas à população LGBT, envolvendo 4.851 vítimas. Em relação ao ano anterior, houve um aumento de 166% no número de denúncias. Em 2011, foram contabilizadas 1.159 denúncias envolvendo 1.713 vítimas. Os dados foram liberados, em 2016, pela Organização da Nações Unidas no Brasil.

Vida na prostituição

Farrá conheceu a prostituição aos 9 anos, trabalhou em várias boates pelo Brasil, mas atualmente só atende quem entra em contato direto com ela.

 

“Quando eu apareci em Ponta Grossa, eu era o foco. As travestis da cidade não me deixavam trabalhar na rua. Eu fui contratada para inaugurar o Gaiola, a boate da luz vermelha, porque eu era muito linda, realmente dava lucro e eu tinha lucro. Só que quando nova, a gente só pensa em beleza, em cabelo bonito, em roupas bonitas, viagens. Aproveitei muito, não reclamo. Curti muito a vida. Conheci quase o Brasil inteiro. Trabalhei em lugares lindos.

Mas, na rua, a travesti está exposta. Tem muito cliente que para o carro e não quer usar o preservativo. Então, oferece mais. Você está à mercê de tudo: de violência, de discriminação, de tudo que é tipo de coisa ruim. O que você faz? Você precisa daquele dinheiro para sobreviver, você se sujeita. Na maioria das vezes, não são as travestis nem as prostitutas que contaminam, são os próprios clientes que as contaminam.

Uma coisa que todas nós deveríamos pensar é que a gente aparece, fica bela, se transforma, fica feminina, fica humanizada, ‘siliconizada’ do número que quer, da maneira que quer, mas os anos passam, a idade chega e isso é uma coisa que a gente não aprende.

Olha eu tenho 53 anos e todos os dias aparecem travestis novas e belas. E a gente não aprende a lidar com a velhice. Não é que seja triste, mas é uma coisa muito dura, você ver a outra bela, exuberante, e você não chamar atenção nenhuma. Se toda travesti parasse para pensar, ela construiria melhor a sua vida, trabalharia o lado o psicológico. Porque toda transexual, toda travesti, tem a loucura de buscar a perfeição. A perfeição não existe, ninguém é perfeito. A partir do momento que você se aceitar como você é, você vai ser linda.”

“É de quem essa menina?”

Denise de Lima Dornelles, voluntária no Renascer trabalha como cabeleireira, e sonha em ser técnica de enfermagem. 

 

Denise de Lima Dornelles, a princípio, teve vergonha de revelar a idade, mas depois contou que fez 40 anos no dia 15 de janeiro. Em seus registros, traz o nome de Edenílson de Lima. Pela família é reconhecida por Dê, ou Ede. Ela conhece o Renascer há 11 anos e, atualmente, é voluntária da instituição, além de exercer a profissão de cabeleireira em casa ou na moradia de suas clientes. 

- Então, amor, o que você quer saber?

- Denise, eu quero saber tudo!

- Com oito anos de idade as pessoas já me confundiam com menina. ‘É de quem essa menina?’ ‘Não é uma menina, é um guri!’ - o riso enche a sala. 

“Quando eu cheguei aos 12 anos de idade, eu já comecei a ter um outro pensamento. Eu queria parar de usar cueca, mas eu pensava que eu tinha que largar aos poucos. Para a minha família não desconfiar, então, ao invés de eu comprar a cueca de acordo com o meu corpo, eu comprava uma de tamanho menor. Aí, eu enrolava a cueca e fazia de calcinha. 

Eu tive a minha transformação bem calma, não tive que passar por sérias pressões da família. Então, eu comecei a ver quem eu era e quem eu queria ser. Com 12 anos, eu comecei a ter a minha própria vida, comecei a cuidar de criança. Morei fora de casa, com outras famílias, comecei uma vida sozinha e ganhando, naquele tempo, uns CR$ 70 [cruzeiros]. 

Com 15 anos eu já estava totalmente transformada, cabelo comprido, já usava calcinha. E, aos poucos, fui conquistando minha família. Fui estendendo uma calcinha, depois fui estendendo outra, quando vi o varal estava cheio. Eu fui para o quartel, me apresentei, queria servir, queria ser advogada, mas não consegui. Fui dispensada pela minha opção sexual. Então, eu falei que não iria esconder mais nada de ninguém. ‘Vou ser quem eu sou!’”

Prostituição

“Eu entrei na noite por dificuldade financeira. Eu cuidava de um casal de deficientes. Eu fiquei seis meses cuidando desse casal. O meu patrão foi embora e me deram a conta. Por necessidade, eu caí na rua. Entrei com 30 e fiquei até uns 32 na rua, vivendo apenas da prostituição. Vi que não era uma coisa para mim.”

Enquanto formula as frases para me responder, Denise revela que ainda faz alguns programas. “Eu não vou dizer que hoje eu não faço, mas eu faço só quando me ligam. Me expor na esquina, eu não me exponho porque eu me sinto desvalorizada, não me agrada. Se você me falar que a prostituição vai ser legalizada como profissão, eu não quero ser registrada como prostituta.

Quando comecei a frequentar o Renascer, ganhei um curso de cabeleireira e, agora, pelo menos uma profissão eu tenho e exerço. Eu quero terminar o ensino médio, quero um curso técnico de auxiliar de enfermagem. Eu adoro lidar com doente, adoro mexer com sangue, adoro picada de agulha.”
A prostituição é algo que não agrada Denise, para ela não é uma profissão para se orgulhar. Mas ao referenciar a sua paixão pela enfermagem, o futuro que a espera é o seu grande sonho.”

Família

“Eu tive que parar meus estudos por causa da responsabilidade que eu assumi. Então, como sempre, os meus irmãos me falavam, todos vão casar e quem vai ficar responsável pela mãe é você, Denise. ‘Você vai ter que correr com a mãe para cima e para baixo.’ Então, eu larguei meus estudos, já era para eu estar formada em alguma coisa. Mas, agora, graças a Deus eu estou continuando meus estudos.

Eu tenho a guarda dos meus três sobrinhos, porque meu irmão é alcoólatra e dependente químico. Vamos dizer que ele e a ex-mulher só colocaram no mundo. Minha mãe e eu tivemos que criar. Com isso, eu tive que parar de estudar porque senão eles iam parar num abrigo.
Nas reuniões, no médico, dentista, se ligavam da escola, era eu que tinha que ir lá. Eu fiquei como responsável. Em uma audiência, o juiz me deu, há quatro anos, a guarda definitiva, viu que meu irmão não tinha condições. Ele foi bêbado na audiência e a mãe deles sequer apareceu. Um deles, agora, está com 17, um com 16 e a menina com 12.

Eu penso em casar, tenho esse sonho de encontrar um cara, que ele me respeite como trans, eu respeite ele como um homem e que nós levemos uma vida como um casal normal.”

 

Salvar