Prefeitura não cumpre prazo de entrega do canil municipal e o local não atende toda demanda de Ponta Grossa

O Centro de Atenção Animal foi criado para abrigar animais resgatados de maus tratos e abandono até a sua a adoção, porém a situação dos cães que vivem no CAA é de esquecimento

 

O espaço que deveria atuar como um local de proteção e defesa dos animais transformou-se em sinônimo de desamparo, descaso e maus tratos. Promessa de campanha do atual prefeito Marcelo Rangel, o Centro de Atenção Animal (CAA) funciona como um depósito de cães.

“É melhor ir de galocha. Há lama e fezes em todo o lugar”, alertou uma das protetoras de animais que me acolheram durante a visita ao abrigo de cães.

Ainda que tivesse achado certo exagero, a recomendação foi acatada. Durante o percurso de carro realizado, junto a algumas protetoras, até o “Centro de Atenção Animal”, ouvi relatos de que o espaço alugado pela Prefeitura de Ponta Grossa funcionava como um canil clandestino.

A chegada ao CAA impressiona pelas condições do local. É quando percebo a dimensão do relato feito, anteriormente, pelas protetoras de animais. A situação do CAA é, atualmente, marcada pela falta de estrutura e de recursos.

Logo na entrada do CAA, nota-se o grande número de fezes dos animais espalhados pelo local, com forte mau cheiro

 

A dica sobre o uso de calçado e roupas adequadas para fazer a visita com as protetoras foi útil. Em virtude das últimas chuvas, sobre o chão, que não é rastelado, fica uma enorme quantidade de fezes. Além do mau cheiro, há o risco de doenças, o que torna o lugar insalubre tanto para os animais como para quem visita e trabalha no CAA.

Chamado por muitos protetores da cidade de “auschwitz canina”, o CAA abriga cães filhotes e adultos, fêmeas e machos. Os cachorros ficam todos misturados e disputam a água esverdeada e a ração, que fica em sua maior parte depositada diretamente sobre o chão bruto e sobre o cimento.

O Centro de Atenção Animal impressiona pela condição de debilidade em que os animais se encontram

 

Com visível aparência de desnutrição, há animais doentes. Os protetores informaram que, no último verão, além do mato que se espalhou pelo local, o lugar ficou infestado de carrapatos. Além disso, não há funcionários suficientes para atender as necessidades dos animais.

Como os cachorros que estão no local ficam misturados, torna-se mais fácil a proliferação de doenças

 

Na parte de baixo do terreno, há divisões em concreto, que funcionam como baias para cães que, segundo informações dos protetores, já faziam parte do espaço quando o governo municipal o alugou.

A Prefeitura informou que o terreno alugado funcionava anteriormente como um canil particular

 

Ao ver e indagar sobre o estado de um cão adulto que tremia, babava e tinha os olhos cheios de secreções, obtive a informação de que ele estava em estágio terminal. O animal tinha a doença chamada cinomose.

A prevenção da doença deve ser feita com vacinação. A cinomose é uma doença contagiosa. Uma vez contaminado, como o tratamento é difícil, o animal, provavelmente, acabará morrendo em função das consequências dessa virose.

A cinomose é mais comum em filhotes ou em cães adultos que estão com imunidade baixa. Outros animais que se aproximem do ambiente onde o cão contaminado esteja, ainda que separado, estão sujeitos a contrair a doença. Na situação em que o animal se encontra, sem conseguir se alimentar, a solução é a eutanásia, como explicaram as protetoras de animais.

Muitas das baias estão destelhadas e necessitam reparos. Há também relatos de animais que, simplesmente, sumiram do CAA. Em um espaço fechado e sem estrutura, encontram-se remédios em uma prateleira, destinados ao tratamento dos animais.

Além de visível estado de desnutrição, há cães com doenças como cinomose, no Centro de Atenção Animal
Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Ponta Grossa, os cães são examinados assim que dão entrada ao CAA

 

De acordo com Isabele Furteko, integrante do grupo Fauna, muitas protetoras já retiraram animais do CAA e pagaram, com o próprio dinheiro, o tratamento deles.

O grupo Fauna, que completa, em setembro, 18 anos, sempre acompanhou as políticas públicas voltadas aos animais da cidade. A ONG se coloca contrária ao Centro de Atenção Animal e ao modo com o qual ele é estruturado e administrado.

 

Promessa de campanha

O Centro de Atenção Animal era uma das promessas de campanha (https://www.youtube.com/watch?v=ZrJ4KgoQBgY) do atual prefeito, Marcelo Rangel (PPS). O CAA fazia parte do chamado “Plano Verde”, projeto que previa ações relacionadas ao meio ambiente. Ainda que o CAA tenha sido inaugurado em junho de 2014, muitas denúncias sobre as condições precárias do local e das condições de saúde e de confinamento dos animais foram divulgadas pela imprensa.

Em junho de 2015, reportagens sobre um vazamento no esgoto do CAA mostraram como o local é inadequado para os animais. Na época, o presidente da Agência Reguladora de Água e Saneamento (Aras), Márcio Ferreira, explicou à imprensa que, por se tratar de um terreno alugado, não é possível que a Prefeitura de Ponta Grossa faça reformas no espaço.

Uma alternativa face às condições precárias do Centro de Atenção Animal seria abrigar os animais no Canil municipal, que está sendo reformado. O local, que está com a data de entrega atrasada há mais de um ano é de propriedade da Prefeitura de Ponta Grossa, como informaram os protetores. No novo canil, está previsto um espaço para equinos e um gatil.

 

Histórico do Centro de Atenção Animal e denúncia ao Ministério Público

A falta de estrutura do CAA se reflete no tratamento aos animais que vivem no local

 

Criado em junho de 2014, o Centro de Atenção Animal, localiza-se no bairro Shangrilá, na Rua Cirema Becker. O local, segundo a Prefeitura de Ponta Grossa, funcionava como um canil particular.

No dia 14 de maio de 2014, a prefeitura firmou um Termo de ajuste de conduta (TAC) com o Ministério Público para que políticas públicas para animais fossem efetivadas. Como resultado do TAC, o CAA foi inaugurado. Entretanto, embora a prefeitura tenha criado o CAA, alguns sites repercutiram, em abril de 2015, informações sobre a situação precária do local.

Um dossiê foi preparado pelo grupo Fauna. O documento trouxe denúncias acerca dos maus tratos sofridos a que estão submetidos os animais que estão confinados no local.

Entre as denúncias, estava o relato de que muitos animais chegavam doentes ao espaço e o estado de saúde se agrava no local. Há ainda falta de funcionários (apenas um para dar conta da demanda dos animais), salas sujas e o risco de transmissão de doenças pelas condições de higiene.

Em abril de 2015, um dossiê com denúncias de maus tratos aos animais que vivem no CAA foi entregue ao Ministério Público

 

Grupos protetores de animais de Ponta Grossa

O grupo de protetores de animais Au Miau, criado em janeiro de 2015, já recebeu pedidos de ajuda de pessoas que se depararam com situação dos cães do CAA. Alguns integrantes do grupo, já foram ao abrigo e conhecem as condições do lugar, que deveria funcionar como local de amparo e de proteção aos animais.

Maria José Zimermann trabalha em defesa dos animais há 18 anos. Em maio de 2015, ela oficializou a criação da Associação Protetora dos Animais de Ponta Grossa (APA PG) e acabou assumindo a função de presidente.

Conhecendo o CAA, a protetora critica a falta de infraestrutura e de funcionários especializados no local. Maria José relata uma situação em que um pitbull foi levado ao CAA.

Na ocasião, ela chegou a alertar para o fato de que o espaço não era adequado, pois é fácil os cães escaparem das divisões. O animal conseguiu sair da baia e acabou matando um cachorro adulto. No dia seguinte, ele foi sacrificado. “Para mim, o CAA não serve para nada, afirma a protetora.

Muitos protetores de animais já retiraram cachorros do CAA e arcaram com as despesas junto ao veterinário

 

Para Maria José, os abrigos deveriam existir somente nas situações em que os cães estão sem condições como, por exemplo, em caso de alguma deficiência ou cegueira. Outra situação seria o período de gestação da cadela, para maiores cuidados com os filhotes.

A protetora salienta que a APA-PG é a favor do cão comunitário iniciativa instituída pela Lei Estadual 17.422/2012. Em seu artigo 7º, a legislação define o cão comunitário deverá ser “recolhido, esterilizado, identificado, registrado e devolvido à comunidade de origem”.

O artigo 8º define que o animal comunitário é aquele “que estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção, ainda que não possua responsável único e definido”. Já o cuidador é “membro da comunidade em que vive o animal comunitário e que estabelece laços de cuidados com o mesmo”

Lorena Bandeira, integrante do Clube do Miau, aponta que, embora nunca tenha estado no CAA, mas teve conhecimento, através de fotos do local e de relatos do grupo Fauna e outros grupos, da situação precária do local.

A protetora destaca inúmeros exemplos de desrespeito aos animais, como o não controle de entrada e saída dos cães. Animais ficam misturados, sem um protocolo adequado de organização, há uma estrutura inadequada e alimentação de baixa qualidade. Para ela, o CAA é um exemplo de descaso e desrespeito aos animais.

Relatos de protetores de animais explicam que, em várias situações, o cachorro chegou ao CAA saudável e ficou doente

 

Prefeitura de Ponta Grossa

De acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Ponta Grossa, o CAA é uma ação inovadora de atenção aos animais em situação de abandono. “É algo inédito que demonstra a preocupação da atual gestão. Ponta Grossa nunca teve um local específico para o atendimento e cuidados de cães de rua”.

Sobre vacinação e tratamento aos animais, a assessoria informou que os animais são examinados assim que dão entrada no CAA. “Os cães recebem, inicialmente, a avaliação veterinária, onde são observados sobre a condição corporal, pelagem e eventuais ferimentos. Os cães enfermos são medicados e inicia-se o acolhimento, que consiste na apresentação do novo cão para os outros da matilha. Após o acolhimento, os cães recebem uma dose de vermífugo, vacina polivalente e são submetidos à cirurgia de castração. O pós-operatório é feito no próprio CAA”.

Os remédios encontrados no CAA ficam guardados em um local sem uma estrutura ideal

 

A prefeitura relatou também que exercícios são elaborados para os animais. “Os cães recebem adestramento e possuem atividades motivacionais, que têm como finalidade o enriquecimento ambiental, para que os cães sintam-se constantemente estimulados. Eles possuem amplo espaço para se exercitar”.

Muitos animais se alimentam no chão bruto e precisam disputar a ração

 

Segundo a assessoria, toda verba vem da Prefeitura de Ponta Grossa. Em relação à denúncia de maus tratos, a assessoria confirmou o queixa. “Houve, sim, um grupo que denunciou os maus tratos, mas foram feitos trabalhos e conversas com esse grupo sobre etologia canina, sobre adestramento moderno e sobre cães policiais. Depois da aproximação, o grupo passou a ver de outra maneira e hoje são nossos parceiros de ideais”.

Uma nota de esclarecimento foi publicada no site oficial da Prefeitura de Ponta Grossa em 13 de abril de 2015. A nota era sobre o CAA e o TAC que o governo municipal firmou com o Ministério Público. No texto, havia o anúncio de que, em 60 dias, o novo Canil Municipal estaria pronto. Hoje, o espaço ainda se encontra em obras.

A protetora de animais Maria José disse que também visitou o espaço do novo Canil Municipal. Segundo ela, o espaço é pequeno e, por isso, não dará conta de atender toda a demanda, incluindo os animais que já estão no CAA.

 

Arquivo: 09/09/15 - Como está o projeto da prefeitura de recolher cavalos abandonados?