A vida e o abrigo mantido pela protetora de animais se confundem numa instituição que abriga cães e gatos idosos e vítimas de violência

Vanat e famíliaFelipe à esquerda, Rosélia no meio e suas filhas Aline e Lorraine à direita em seu lar e abrigo animal - Foto: Marcos Vinicius

Ela nasceu em 1962, em Ponta grossa, Paraná. Define-se como uma mulher diferente das normais, um homem com algo a menos. Filha de pai motorista e mãe ajudante de leiteria. Aos 8 meses, ganhou o primeiro animal de estimação, um gato que seu pai teve que buscar na casa da tia.

 

Roselia Vanat conta que a tia morava em uma chácara distante da sua onde passou um dia brincando com um carneiro e um gatinho que se chamava Mitz. Seu pai não quis trazer o felino [não gostava muito de gato]. A mãe sempre lembrava, no entanto, que às duas e meia da madrugada do dia seguinte, Roselia ardia em febre e o pai teve que pegar o caminhão e ir até a casa da tia para buscar a filhotinha de gato. O nome do bichinho era Chicamove.

A infância, ela define como fantástica. Corria no mato, acampava, pescava, viajava e subia em árvores. Ainda empinava papagaios, andava de bicicleta, jogava futebol e brincava com cães e gatos. O pai era muito sistemático, rigoroso, mas muito amoroso, assim com sua mãe.

O amor pelos bichos, Vanat herdou da mãe que sempre gostou muito de animais, ela os criava e protegia. Da figura materna, vieram ensinamentos, como o de não judiar nem de uma planta e o de pedir licença ao arrancar um pé de couve, pois o verde tem vida. Enfim, respeitar a natureza e os animais.

Vanat é a caçula de três irmãos. O irmão tem 15 anos a mais que ela e a irmã, 14 anos.

Quando jovem, dirigia caminhões e foi piloto de Fucacross (Modalidade de corrida de Fusca especial para trilhas) . Andou muito de moto e foi instrutora de autoescola. Teve ainda a experiência como motorista de caminhão e ambulância. A chegou a tirar um brevê de voo de 78 horas porque queria muito saber como pilotar um avião.

Chegou a começar um curso de paraquedismo, mas só deve 12 aulas. Define sua juventude como aventura pura. Diz que não para nunca, pois cada dia é um dia, e a vida é para ser vivida e, por isso, procura viver intensamente.

 

Ao encontro do canil em um sábado a tarde

Era uma tarde de sexta-feira quando a encontrei, junto à filha, no Departamento de Jornalismo da UEPG. Foram pegar jornais usados. Muito metódica, pediu para que a secretária Darlene dissesse quais jornais elas não poderia pegar. Estava conversando com ela pelo Face, mas foi a oportunidade de confirmar a entrevista pessoalmente.

Sábado à tarde após me perder por uma zona rural da cidade, encontro o local combinado para aguardá-la. Estranho um rapaz (que depois descobri ser o filho dela) me esperando em uma camionete. Mas vendo que o veículo está cheio de sacos de ração, coloco minha bicicleta na caçamba, conforme ele mesmo sugeriu, o cumprimento e entro no carro.

A camionete roda pouco mais de dois quilômetros, num trajeto íngreme. No caminho, vejo um rapaz roçando a área. O motorista para o carro e pergunta se ele está quase acabando o trabalho. Finalmente, chegamos.

Quando estamos próximos à entrada o rapazinho olha para mim e diz: “Agora, você vai ver”, diz soltando uma risada. Aí, vejo Roselia. A cena dela auxiliando na manobra é quase surreal. A camionete vai bem devagar, enquanto ela, com uma varinha de madeira, grita com os cachorros e usa o instrumento para controlá-los. O rapaz segue e ela grita: "Pare! Vai, aí, tá bom!". Vejo mais de cinquenta cachorros naquele pátio... Penso: "Ainda bem que gosto de animais."

canil Cachorros abrigados em um dos vários canis da chacará Foto: Marcos Vinicius

O canil e a protetora de animais uma história de amor e sacrifícios

Roselia Aparecida Elbl Vanat é uma senhora branca, tem os olhos azuis, estatura mediana, cabelos curtos e parece não preocupar muito com a aparência. Está com uma calção e uma blusa sem mangas, e nenhuma produção especial para a entrevista.

A protetora de animais me pede duas coisas: para não revelar o local do abrigo e, ao falar, para que eu olhasse em sua direção porque ela usa aparelho. Minha dicção é naturalmente péssima e, após quase trinta quilômetros de pedal, estava pior. Tive que repetir as perguntas várias vezes porque ela não me entendia.

O motivo para não revelar o local do abrigo é o receio de que mais animais sejam abandonados, pois pessoas vinham visitar o local e até doaram ração. Pouco tempo depois, um animal aparecia abandonado na porteira.

Mas antes de entrevistá-la e de eu beber água pela segunda vez [a primeira foi no ponto de encontro errado], ela me mostra o canil. Pensava que ser longe, separado da casa e com várias casinhas com animais separados individualmente [conforme havia visto no YouTube, em uma reportagem antiga], mas, como em sua história de vida, não tinha como dizer onde terminava a casa e começava o canil. Era tudo junto.

Uma casa e um canil inacabados. A causa, segundo Roselia, seriam as chuvas que destruíram tudo. Assim, o canil e o gatil estavam em reforma e os animais provisoriamente alojados ao redor da casa.

 

Mencionei que estava com dó dos gatos, presos dentro de um recinto de madeira. Ao meu comentário, ela retrucou, "Ou deixo assim, provisoriamente, por 30, 60 dias ou solto e morrem todos abandonados.

Insisti nos gatos, perguntando se não conseguiam conviver com os cachorros. Vanat disse que não, que os gatos são individualistas e os cachorros traiçoeiros. Imaginei que 80 gatos com 160 cachorros não ia mesmo dar muito certo.

De qualquer forma, tentei ver os gatos, mas consegui ver mais cachorros.

A construção do novo abrigo (canil e gatil) ia de vento em popa. Era um galpão grande, mas todo feito artesanalmente e por seu próprio filho, Felipe, um jovem de apenas 18 anos. E me chamou a atenção a qualidade da obra, muito bem-feita e perguntei para ele com quem havia aprendido a trabalhar tão bem. A resposta me surpreendeu e foi Roselia que contou que havia sido ela a mestra. E, além de fazer serviços de pedreiro, ela também era carpinteira.

Com relação à obra, ela disse que o problema não era a mão de obra, mas sim doações de materiais. Ela chegou a solicitar doação a uma loja do ramo de construção civil, mas o pedido foi negado. Outro problema eram doações em pontos distantes da cidade. Aí, faltava combustível mesmo para pegar.

Roselia sente orgulho em mostrar seu abrigo e faz pedidos: ração, mas doação contínua (todo mês). E ainda pede materiais de construção, mas que a loja entregue e ela não precise buscar. Outro pedido é a castração dos animais. A quantidade de ração que seus quase 281 cachorros e 64 gatos comem por dia é de 10 sacos de 25 quilos.

Vanat diz que há 35 anos cuida de animais abandonados, mas sua ONG existe oficialmente desde 2009.

O foco do Canil Lar é animais idosos, violentados ou mutilados que, por terem uma idade avançada, não se enquadram ou se adaptam para serem adotados. “Aqui é o local deles, onde podem correr, brincar, sem ninguém maltratar”, explica.

cadelaCachorra recém-resgatada vítima de maus-tratos que teve 11 filhotes, mas só sobreviveram dois até o momento (Foto: Marcos Vinicius)

A todo momento, ela mostra os cachorros, destacando a idade dos mais velhos - animais com 18, 19 anos - e a violência sofrida. Ao fim do encontro, Roselia apresenta um de porte médio, pelo cinzentado e que, atualmente, por ter sido vítima de maus tratos, teve a boca cortada. Em função disso, ele come só papinha. Parecia um cachorro de desenho. Na verdade, ele já tinha se apresentado, sozinho, para mim, encostando o focinho e babando na minha perna e sacolas onde eu reembalaria os equipamentos levados para a entrevista.

Apesar dos animais idosos e da reclamação de que o estoque de ração só daria para mais um dia e meio, noto que os animais são bem tratados, estão gordos e com o pêlo lustroso. Todos gostam muito dela. Uma pretinha, de porte pequeno, se manteve debaixo da cadeira dela, durante parte da entrevista. Um preto grandão, de 18 anos, ficou nos rodeando e chegou a pisar no fio do único microfone de lapela que temos no Departamento de Jornalismo.

Incomodada com o assédio dos caninos, comigo, ela chegou a gritar “Aline! Vem me ajudar, segura a pretinha! Desse jeito não posso conversar com o moço! Aline!” Aí, a moça aparece, meio envergonhada, e tenta segurar uns bichos. Digo que não ligo, mas acho que ela não me escuta.

Aline e Felipe são seus filhos de coração que a ajudam no canil

Lorraine Lorrana Elbl é sua filha, mas não é do casamento que manteve com um, já falecido, sub-comandante do exército. Roselia Vanat é viúva e vive, entre a cidade e esse sítio, com a filha e mais dois filhos adotados, Felipe, o pedreiro e motorista, e Aline, a moça que a ajuda no controle dos animais.

A dona do canil explica que a filha Lorraine é a que mais ajuda, ocupando a função de secretária da organização e cuidando das doações pela internet. Foi ela que também cuidou de sua campanha para vereadora na última eleição. Vanat conseguiu 800 votos no pleito.

Em 2011, a mãe de Roselia faleceu aos 87 anos. Teve trombose, já que não cuidava da diabetes. Impossibilitada de andar em decorrência da doença, ela acabou ficando na cidade. A protetora de animais conta que foram vários processos - em todos obteve ganho de causa - e bombas jogadas pelos vizinhos.

Pergunto quantos animais tinha na cidade e como chegou a tantos. No começo, era dez cachorros abrigados, todos de sua mãe. Aí uns vizinhos jogaram um cadela grávida na propriedade da família. Tentaram doar e não conseguiram. Depois, veio um filhote até que chegaram a ter 165 cachorros, quando ainda morava com a mãe na cidade, na rua Catarina Miró, no bairo São José.

Na cidade, ela chegou a ter um canil estruturado e, para construir essa estrutura, fez empréstimo bancário. Quitou a dívida com o banco em três anos.

Após a morte da mãe, ela se mudou para a zona rural, mas diz que a chácara é alugada, paga R$ 600 de aluguel e R$ 300 de luz. Questiono se ali já não é eletrificação rural e ela responde que paga até a iluminação pública de postes inexistentes e que pretende solicitar quatro postes à prefeitura.

Pergunto de onde vem a renda para a manutenção da família e ela diz que recebe a pensão do “seu falecido”, que era do Exército. Roselia diz ter consciência que, quando morrer, os filhos não terão direito ao benefício e, por isso, quer que eles façam uma faculdade, tenham uma profissão. Felipe está terminando o segundo grau no Regente - para onde ia todo dia de bicicleta - e quer ser policial.

Em relação aos planos para o futuro, ela pretende terminar o canil e gatil e depois terminar a casa. Tem o sonho de comprar o imóvel, orçado em R$ 160 mil. Ela me mostra, no celular, fotos da enxurrada, que ano retrasado, invadiu a casa, fazendo com que a família perdesse tudo.

Roselia estudou até o segundo grau e passou, agora, no Enem. Pretende fazer Psicologia ou Direito, e não veterinária. Ela se justifica dizendo que é alto o custo para a montagem do consultório e, como não teria condições, só sofreria mais.

Não pude ver a gata de 22 anos de idade [e esqueci de perguntar se fazia parte de algumas perdas que tinha me relatado no início da visita], nem outro gato. Também não conheci o pastor alemão que tem a pata cortada e foi vítima de violência sexual, cometida por seres humanos. Pude, no entanto, conhecer a cadela recém-resgatada que teve 11 filhotes e dos quais sobraram dois. Os sobreviventes serão castrados e doados. E a cadela? O animal já é a moradora 281 do abrigo. Aliás, castração é outro problema, pois a prefeitura suspendeu as castrações de emergência.

Roselia é uma senhora hiperativa, que não para quieta. Muito falante, ela gosta, o tempo todo, de dar ordem aos filhos e aos cachorros. Sua paixão são os animais e sua vida se resume a cuidar deles. Diz que já tentou fechar o canil ou passar para a prefeitura, mas a resposta que obteve do poder público e de muitas pessoas é que ONG não fecha. Perguntei, aos filhos dela, se eles gostavam da ONG e se pretendiam continuar. Eles responderam que sim, se tiverem ajuda.

Kelisson Felipe de Andrade admira sua mãe e diz gostar de ajudá-la. Há 6 anos, ele trabalha no canil. Gosta de animais desde criança e acha que é uma grande sina esse cuidado que a mãe tem com os bichos, pois ela mãe ama e gosta muito dos bichos. Ele ajuda em tudo no abrigo, desde dar comida, lavar o canil, tirar o lixo até construir a área para abrigá-los. E diz que faz o serviço pesado.

Já Lorraine é mais falante e gosta muito de ajudar a mãe. Ela corre atrás de doações, principalmente pela internet, e pretende seguir com o abrigo, no futuro se tiverem ajuda. A jovem usa muito a internet para pedir doações e, desde pequena, trabalha com a mãe.

Aline Strachusk diz que desde os 10 anos ajuda a mãe e tem muito orgulho de cuidar dos bichos. É o maior prazer que ela tem. “Pretendo cuidar dos animais até o resto da vida deles e da nossa também”, conclui.

Rosélia é muito objetiva e, às vezes, meio ríspida. Talvez, seu temperamento seja resultado das experiências ao longo da vida e da convivência com o marido, militar. O olhar, no entanto, é uma pessoa bondosa, que adora os animais e não entende a razão pela qual tem gente que maltrata tanto os bichinhos.

Os interessados em fazer doações para o canil podem depositar a quantia desejada na conta bancária da Associação Pontagrossense Canil Lar. Veja os dados abaixo:

Associação Pontagrossense Canil Lar
CNPJ: 11351.708/0001-03
Caixa Econômica Federal
Agência: 1547
Conta poupança: 56055-2
Operação 023

 

 

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