Além das atividades para ensinar a cultura negra nas periferias, o grupo também defende a valorização da capoeira em Ponta Grossa. Em época que se comemora a Semana Municipal da Consciência Negra, o Ilê de Bamba reivindica reforço nas políticas esportivas e culturais por parte do poder público.

 

A roupa não mente. Os trajes característicos apontam, de longe, o que o grupo sabe fazer. Nas costas da camiseta, o nome vem acompanhado de figuras e bandeiras do esporte afro-brasileiro. A capoeira motiva o Centro Cultural Ilê de Bamba a realizar trabalhos na comunidade envolvendo a cultura negra há nove anos, em Ponta Grossa.

No mês em que se comemora a Semana Municipal da Consciência Negra na cidade, o berimbau, batuque e gingado estiveram presentes na noite do dia 20, na Câmara Municipal, para relembrar as raízes africanas presentes.

“A capoeira e a cultura negra nunca foram valorizadas. Aqui, só lembram da gente quando há esses eventos”, desabafa Wallace Amazonas, um dos professores do Ilê.

O grupo se diz viciado em capoeira. Tanto que há sete professores e mais de 100 alunos nas associações de moradores e em cinco bairros da Cidade. Além da capoeira, o Makulelê, samba, e tudo o que envolve a cultura negra é ensinado pelos mestres. Os alunos treinam e trocam de cordas a cada ano.

“Saio do trabalho e arranjo um tempo para dançar capoeira, pois ela é um vício. Tudo o que construímos saiu do nosso bolso”, conta Wallace. Os professores juntam verbas para poder comprar as camisetas para eventos, roupas de dança e cordas necessárias para a graduação.

“Muitos alunos desistem da capoeira, porque não há equipamentos para todos. Já pedimos ajuda, mas a verba ainda é conseguida por nossa conta”, relata o também professor Siderlei Pedroso.

Capoeira é um esporte?

Existem regras, competição, evolução e jogadores. No Brasil, desde 2005, existe a Confederação Brasileira de Capoeira, que auxilia alguns grupos. Mas a capoeira ainda não está totalmente consolidada como esporte e, por isso, ainda não estreou como categoria nos jogos olímpicos.

No Ilê de Bamba, por exemplo, conforme o desempenho e disciplina, os alunos podem chegar à corda branca, a maior de todas, e se tornarem mestres após 13 trocas cordas de cores diferentes.

“O problema é que cada grupo tem suas regras, com golpes e graduações específicas. Por isso, a capoeira tem tantas dificuldades em ser valorizada e reconhecida como esporte no Brasil”, explica o capoeirista Ruly Laurentino.

O outro lado

Procurada pela equipe do Portal Comunitário, a diretoria da Fundação Municipal de Esportes não quis se pronunciar. Para o Diretor do Departamento Cultural da Fundação de Cultura, Cirillo Barbisan, a própria Semana Municipal da Consciência Negra é um meio de valorização da cultura afro-brasileira e do combate ao racismo. “O evento foi instituído no calendário oficial de Ponta Grossa com o objetivo de preservar a memória e dar visibilidade aos símbolos e manifestações do povo negro”.

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