Em entrevista à equipe do Portal Comunitário, Arilson falou sobre os problemas pelos quais passam os acampados, a relação com o poder público e a importância do apoio da sociedade à causa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

 

Quais os maiores problemas de Ponta Grossa para vocês aqui do Acampamento Emiliano Zapata?
Nós somos uma comunidade e estamos em Ponta Grossa já faz cinco a seis anos. Eu acho que o maior problema para nós é relacionado à saúde.

Nós moramos numa área onde não temos condições de saúde, a não ser a nossa própria organização, através de remédios fitoterápicos. Devido às questões da estrada, tem alguns lugares aqui na comunidade que, se alguma pessoa passar mal, é capaz até de falecer, porque não tem como sair para ir até a cidade.

Há cinco anos que eu estou aqui, nós não temos nenhum tipo de investimento por órgãos públicos, até mesmo da prefeitura, do governo. As famílias não têm luz, não têm água. Então elas estão à mercê, não têm endereço. Porque devido à área não estar regularizada, ela não tem um número de matrícula, então as famílias não têm nem endereço.

Ou seja, vivem aí numa terra que não é de ninguém. Uns dizem que é da Embrapa, já outros dizem outras coisas. Mas as famílias vão vivendo. É assim, um dilema e mais tarde se resolvem essas questões.

São quantas famílias?
 São 60 famílias no Zapata.

E isso dá quantas pessoas mais ou menos?
Deve dar em torno de umas 300.

E coisas boas que tem em Ponta Grossa?
Para nós, do Movimento, em Ponta Grossa, nós não participamos da vida social da cidade. Nós temos a nossa organização interna. Então, o nosso convívio é aqui mesmo, aqui na comunidade. Nós fazemos diferente de bairros e das das vilas. Nós conduzimos nossa vida social aqui dentro.

Nós achamos que Ponta Grossa ainda tem algumas belezas naturais. Nós, talvez, não conhecemos, e moramos tão perto. É, eu acho que Ponta Grossa ainda tem muito potencial, que pode melhorar, na questão de movimentos sociais, pelo menos. Nossa visão é que Ponta Grossa parou um pouco para as lutas sociais. Não acontecem mais mobilizações, não acontecem mais atos políticos dos grandes na cidade.

Qual a contribuição do movimento, sua existência, aqui na cidade?
Ponta Grossa é o berço do agronegócio. Que é uma política que exclui, principalmente, os pequenos agricultores, e que tem pouca terra.
Acampamento tem infra-estrutura precária      

Então, o objetivo do MST de vir para a cidade (aqui é a primeira área de ocupação do município) é de nós contrapormos a esse modelo através da agroecologia, que é um modo diferente de você produzir, respeitando o meio ambiente, respeitando as fontes de água, respeitando a vida. O que o agronegócio, ao inverso disso, destrói.
 
O nosso objetivo é formar uma comunidade diferente, uma comunidade onde nós possamos estar organizados. E os benefícios que mais tarde podem vir na regularização do assentamento e de outras áreas aqui em Ponta Grossa é o benefício que a reforma agrária traz para qualquer município: mais empregos, mais investimento na cidade, mais pessoas que vão poder participar da vida ativa e comercial da cidade, como em outras cidades que cresceram muito mais em relação aos impostos, depois que viram assentamento.

São quantos assentamentos aqui em Ponta Grossa?
No município de Ponta Grossa nós somos os primeiros. Nós viemos do município de Palmeira, aí descobrimos essa área aqui da Embrapa e fizemos a ocupação. Então aqui não tem. Tem alguns assentamentos ao redor, em Teixeira Soares, em Castro.

Como é a relação com o poder público?
O MST é um movimento que não tem ligação com partidos políticos, ou seja, em algumas épocas teve uma ligação com o PT, devido a ser o Partido dos Trabalhadores. Hoje, já se desviou, não é mais como era antes. Então, a nossa ligação com o poder público, principalmente com a prefeitura e alguns órgãos é muito restrita.
Nós não temos acesso à prefeitura. Se precisamos de educação, temos que ir lá, brigar. Se for preciso, ocupar a Secretaria de Educação, pra conseguir um transporte, que é direito dos estudantes para poder leva-los para a escola. A saúde e outras coisas mais, então, é complicado.

Nossa relação com o poder público é difícil. Tem alguns setores que ainda têm algumas pessoas que, vamos dizer assim, entendem um pouco o processo de luta de classes e tentam ajudar a organização.

Mas quando, vamos dizer assim, os superiores delas descobrem isso, eles as afastam para outro lugar. Um exemplo: nós tínhamos um médico que vinha aqui e estreitou uma amizade junto da organização e quando os superiores dele perceberam isso, mandam pra outra cidade.
 
E tem algum setor em que seja mais fácil essa relação?
Agora, nós estamos criando uma relação com o setor de Agricultura, que também faz parte do poder público e nós conseguimos já viabilizar algumas coisas aqui para a comunidade, algumas sementes, algum calcário. Mas é uma relação que ainda está começando.

Depois de, acho que, seis, quatro anos que estão aí no poder, agora que nós fomos ter uma relação mais ou menos. Bem distante do que o poder público tem por lei de ajudar e favorecer, ajudar, as pessoas que moram no município. Porque nós moramos no município, somos iguais às pessoas que moram na cidade. Nós temos os mesmos direitos.

E como funciona a questão financeira?
Primeiro, a gente vê a área,a ocupa e depois de um certo tempo, pode demorar cinco, dez, 15 anos para ela se tornar um assentamento. Às vezes, esbarra em questões jurídicas e outras questões a mais. Mas é um tempo demorado, para que as famílias possam receber investimento do governo, isso ocorre só depois que se tornar assentamento, para que elas possam construir moradias, para que elas possam plantar, para que elas possam comprar uma vaca.

Então nós não temos nada. O que as famílias têm aqui são coisas que elas tinham na cidade. Tipo: eu tinha uma casa na cidade, eu vendi e investi aqui, pra eu poder plantar e pra poder construir um, nós chamamos de um barraco, melhor.

      Talvez o que mantenham as famílias aqui seja um projeto, um programa da Conab. Ou seja, as famílias produzem as verduras aqui agroecologicamente e repassam para o Banco de Alimentos. O Banco de Alimentos distribui nas creches da cidade e a Conab reembolsa as famílias num valor de 3 500 por ano. Essa é a única forma de renda que as famílias têm aqui.
Acampados cultivam produtos agro-ecológicos      
A não ser que elas façam uma lavoura, tem que vender, nós vendemos para atravessador que já perde um tanto de lucro. Mas o que dá sustentação pra elas, mesmo, é esse programa da Conab. Que é um programa que foi desenvolvido pelo governo Lula, a época que ele foi eleito. E, por enquanto, está dando certo.

Tem gente que apóia fora do Movimento? Com é a relação com a sociedade?
Na verdade, o Movimento é hoje o que é devido ao apoio da sociedade. Aí tem alguns setores que apóiam a luta do Movimento, a luta pela Reforma Agrária. São alguns sindicatos. Aqui em Ponta Grossa, nós temos a APP Sindicato, que sempre ajuda nós e sempre está nas mobilizações do Movimento.

Tem o Sindicato dos Comerciários, alguns setores da igreja católica, alguns padres. Mas, enfim, o Movimento só existe há 25 anos devido ao apoio que a sociedade dá para a luta do MST. Porque, se não fosse isso, o MST já tinha sido aniquilado, como outros movimentos foram no Brasil, por serem movimentos isolados que não focaram num objetivo só. O MST não, o MST é um movimento de nível nacional que tem os seus objetivos em todos os cantos do país.