Célio esta abaixado com um chapéu na cabeça em meio a uma plantaçãoCélio Rodrigues é militante do MST e atualmente estuda Direito na Universidade Federal do Paraná (Foto: Cássia Miranda)

 “A reforma agrária é uma reforma de base. Qualquer país, desenvolvido e que conseguiu dar uma condição de vida digna para o seu povo, fez uma reforma agrária. A nossa grande luta é para que ela aconteça em nosso país, para que de fato a gente tenha um país que dê dignidade para o nosso povo.”

Começo o texto com essa citação da entrevista de Célio. Ela me chama a atenção porque basicamente esse pensamento sintetiza quem é o militante e tudo o que ele acredita. Ele acredita que lutar é necessário, que a reforma agrária é necessária. Um país digno só será de fato construído quando todos se preocuparem em acabar com a fome e fazer com que a reforma agrária se torne uma realidade.

Célio nasceu no dia 25 de abril de 1972, em Ponta Grossa. Irmão mais novo de Bernadete, Vera Lúcia, Maurício, Márcia, Márcio, Aurélio, Ana Cláudia e Mari Cléia. Ao todo, são oito irmãos. O pai de Célio era capataz e a mãe dona de casa. Mesmo com os nove filhos, os pais nunca deixaram faltar nada em casa.

O pai de Célio, Graciliano, não gostava muito da ideia do filho participar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mas sua mãe, Dona Leonor, sempre apoiou. Na época, ela não sabia muito bem do que se tratava e, mesmo assim, resolveu ficar ao lado do filho. “Ele quis isso, eu nunca fui contra”. O pai faleceu em 1998. A mãe vai completar 81 anos, em 2017.

Segundo a irmã mais velha, Mari Cléia, ele sempre gostou de fazenda e da vida rural, desde quando era criança. A principal mudança de quando Célio entrou para o MST foi na família. “Ele trouxe a família para a política”, afirma. Segundo Mari, o envolvimento dele nas questões agrárias e políticas fez com que a família pensasse mais sobre as condições do país em que vivemos.

Mari Cléia também destaca que seu papel, como assessor (entre 1994 e 1996) do então deputado federal Padre Roque (PT), foi um acontecimento essencial para a formação do irmão e o início da luta dele pela reforma agrária.

Outra consequência da entrada dele para o Movimento foi a percepção da família de que existiam novas formas de viver e ver o mundo. Célio foi essencial para tornar a família politizada.

Quando ainda tinha 12 anos, ele começou a trabalhar com um homem em rodeios e venda de gado. Depois, já com mais idade e já casado com Tereza, ele se interessou pela terra. Primeiro, ele morou em um assentamento, localizado perto de Teixeira Soares e conhecido por “Che Guevara”, conta a mãe. As crianças eram pequenas, eles passaram necessidade.

Célio formou-se como técnico agrícola pelo Colégio Agrícola Augusto Ribas. Ele também é formado em Teoria Social e Produção do Conhecimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Hoje, ele cursa Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O militante está em seu segundo casamento. Fruto do seu primeiro casamento com Tereza, ele tem três filhos: Cássia, Inácio e Camila. Atualmente, é casado com Gizela, que conheceu na Venezuela. Hoje em dia, a esposa vive com ele, em Curitiba.

Célio começou sua história com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em 1995, quando a reforma agrária estava sendo muito discutida no Brasil. Ele foi influenciado por um amigo da família, o Padre Roque.

Célio foi morador do assentamento Emiliano Zapatta, em Ponta Grossa. Hoje, o assentamento que foi criado em 2003 conta com 60 famílias e 48 unidades de produção. As famílias produzem alimentação para subsistência e para comercialização no município. “A grande marca do MST é produzir alimento para resolver a questão da fome e da soberania alimentar no nosso país”, comenta. O termo soberania alimentar citado por Célio significa o controle do que é consumido como alimento no país.

Em nossa conversa, é possível perceber que o militante pensa muito no bem estar geral. Em momento algum, ele mantém o foco da conversa nele ou destaca algo que tenha conseguido apenas em benefício próprio. Sempre fala em “nós”. Talvez, por este motivo, ele já tenha sido candidato a vereador e também deputado estadual.

Foi filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) do início dos anos 90 até 2005. No mesmo ano, ele ingressou no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Atualmente, Célio faz parte do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Célio conheceu o MST nos anos 90, quando decidiu se engajar à causa, sendo militante do movimento até os dias de hoje. A principal mudança advinda dessa escolha em sua vida foi o aprendizado sobre a história do nosso país e sobre a luta de classes. O movimento também deu a ele a oportunidade de conhecer e ter experiências, em outros países, acerca da questão política e agrária.

O militante deixa bem claro que o mérito de estar fazendo uma universidade de Direito é do MST, que possui vários convênios nas universidades do Brasil para que os camponeses tenham acesso ao ensino público e de qualidade. No caso de Célio, o convênio é entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a UFPR a partir do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).

O curso é matutino. O estudante explica que a maioria dos estudantes utilizam a parte da tarde para se envolver em projetos da universidade e também do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Os estudantes procuram sempre contribuir para que a organização avance, participando de audiências e projetos. “É a retribuição que cada estudante pode dar para a organização que conseguiu esse espaço para que nós pudéssemos estudar em uma das universidades mais conceituadas do Brasil”.

Quando terminar a universidade, ele pretende atuar junto aos trabalhadores em geral. Outra grande vontade é trabalhar com direito ambiental e direito agrário, áreas que dizem respeito à luta pela terra. A contribuição para a reforma agrária é certa.

 

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