Em Ponta Grossa, escolas fazem troca de mantimentos para garantir a alimentação dos alunos

A foto mostra grande número de alunos próximos ao portão do Colégio Borell na saída do turno da tarde.
O Colégio Borell foi um dos colégios em que faltou merenda no ínicio do ano

 

Após o final da greve de 2015, professores voltaram para as atividades esperando melhores condições de trabalho. Os docentes encontraram, no entanto, sérios problemas, como a falta de planejamento na distribuição da merenda e a superlotação das salas.

 

O secretário de organização do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública Paraná (APP), regional Ponta Grossa, Marlon Alves, afirma que, após o fim da greve, as coisas pioraram.

“Tem uma escola que existe em nome, mas não tem espaço físico pra funcionar e a outra tem salas de tapume dentro da quadra”, comenta. O estabelecimento a que se refere o sindicalista é o Colégio Estadual José Gomes do Amaral.

O secretário afirma que, no colégio que funciona com salas improvisadas, turmas de sexto ano também foram fechadas. “Futuramente, essa escola vai deixar de existir porque se esse ano não tem sexto ano, ano que vem não tem sétimo, oitavo e assim por diante. Vai acabar a escola. E, aí, vai sobrar um prédio naquela escola.”

Marlon explica que a política do governo tem sinalizado a intenção de diminuir gradativamente as turmas a fim de reduzir a contratação. “O governo quer diminuir até que a escola definhe em estado de não ter funcionamento, não ter espaço, não ter pessoal. Tem escola que iniciou o ano com dois funcionários pra limpeza, uma escola com 400 alunos.”

Michele Telles, professora da rede estadual e membro do grupo de oposição da APP regional, comenta o fato de haver grande demanda de turmas de sexto ano. “Aqui, na escola onde eu trabalho, sempre tem lista de espera para sexto ano. A comunidade tem demanda para abrir mais turmas, mas a gente não tem espaço físico pra isso.”

A professora também afirma que se essas turmas fossem abertas, não seria uma solução por completo. “Gera um efeito cascata, pois se abrir sete turmas de sexto ano, no próximo ano, eu vou ter sete turmas do sétimo ano.”

Presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas Pontagrossense (Umesp), Christopher Ferreira, afirma que a situação não melhorou após a greve. “O que já era ruim tem se tornado pior ainda. No meu colégio, o lanche vem sendo o mesmo há 20 dias porque não tem comida diferente”.

O estudante também destaca o fechamento de turmas em colégios da cidade como um problema, embora ele afirme que não houve fechamento de escolas, como em São Paulo. Christopher explica que, conforme o governo vai fechando turmas, na soma total, é possível contabilizar uma escola inteira.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou, em outubro passado, a política chamada de reorganização das escolas estaduais, que previa o fechamento de 94 escolas. Muitos protestos e ocupação de mais de 200 estabelecimentos de ensino aconteceram e, em dezembro, o governador acabou voltando atrás.

A luta dos estudantes de São Paulo é, agora, entre outros pontos, pela melhoria da merenda. Os estudantes das Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) ocuparam, no dia 3 de maio, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) pedindo a instauração da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da merenda. No dia 6, após decisão da justiça determinando a desocupação, os estudantes saíram da Alesp. A multa prevista seria de R$ 30 mil, ao dia, para quem permanecesse ocupando o local.

Após o ato de ocupação da Alesp, a CPI da merenda conseguiu mais assinaturas do que o número necessário. Era preciso 32 assinaturas no mínimo, tendo sido obtidas 60. A CPI foi pedida após o Ministério Público denunciar superfaturamento e pagamento de propina em contratos para merenda.

O PSDB, no dia 10 de maio, entrou com outro requerimento de CPI na Alesp para investigar a máfia da merenda. A oposição ao PSDB (que faz parte da base governista) disse não aceitar o requerimento inicial por considerá-lo "chapa branca'. No entanto, os membros da oposição pretendem assinar por considerarem a única forma de o processo ocorrer.

No dia 18 de maio, na cidade de Maringá, alunos ocuparam o Colégio Estadual Gerardo Braga pedindo melhorias na alimentação e a instauração de uma CPI da merenda. Eles também pediam maior rigor nas investigações da Operação Quadro Negro. Os alunos desocuparam o colégio na manhã do dia 30 de maio, junto com mais dois colégios que estavam ocupados. A promessa do Governo foi de melhorias e um encontro dos estudantes com o Governador Beto Richa.

Falta de planejamento na distribuição da merenda    

Diretor auxiliar do Colégio Estadual João Ricardo Von Borell Du Vernay, Rodrigo de Andrade, conta que, no início deste ano, faltou merenda no estabecimento de ensino onde ele trabalha. Essa falta de merenda faz com que as escolas colaborem umas com as outras.

“As escolas estão se ajudando porque em algumas delas chega muito macarrão, mas não vem molho. Em outras, vai molho, mas não tem macarrão. Então, a gente faz essa troca para dar uma alimentação para os alunos”, comenta.

Rodrigo confirma que houve um inchaço das turmas com o aumento do número de alunos em alguns colégios. “Mas em outras escolas está diminuindo porque o governo está superlotando as salas, pensando na economia. Dessa forma, ele pode diminuir o número de professores. Educação é vista como um gasto para o atual governo”, critica.

A professora Michele Telles descreve que, no colégio em que trabalha, houve um atraso no repasse de verbas, já que a nova gestão da direção da escola só assumiu no mês de maio. O recurso chegou somente no mês de abril. No entanto, as aulas começaram em fevereiro.

Sobre a merenda, Michele explica que o governo tomou uma atitude paliativa, liberando uma cota extra. “É uma verba que vem para melhorar um pouco, pois tapa os buracos, embora tenha itens que podem ser comprados e muitos itens que não podem ser comprados. Então, sempre fica limitado.”

Michele comenta que a lógica de distribuição usada pelo governo estadual não parece ser planejada para a quantidade de alunos existente. “Um exemplo bem simples disso é que a gente tem muito arroz, mas faltam outras coisas que seriam tão básicas quanto o arroz. Aí sobra muito desse item e falta de outros.”

A professora aponta que produtos perecíveis, como legumes, frutas e verduras, são escassos. “Geralmente, as escolas compram isso com verba que nem é do governo. Faz um tempo que a gente tá se virando com as próprias pernas.” O dinheiro para compra de legumes e verduras vem da Associação de pais, Mestres e Funcionários (APMF) do colégio.

O que mudou e o que ficou do dia 29 de abril?

Fachada de uma escola estadual dias após o dia 29 de abril com uma faixa escrita
Faixa em frente em colégio estadual dias após o masscre do dia 29 de abril (Foto de Arquivo Portal Comunitário)

 
Em 2015, a greve dos professores e funcionários estaduais, no ano passado, durou 44 dias. Para garantir os 200 dias letivos de direito dos alunos, as aulas de alguns colégios e universidades só tiveram fim em março de 2016.

A greve teve como pauta de reivindicações melhorias na educação, aumento salarial de 8,17% (percentual de recomposição salarial referente à inflação) e permanência de direitos. No entanto, o movimento acabou sem ganhos reais, deixando alguns professores desapontados com o final do movimento.

O movimento começou no início do ano quando o projeto do executivo - para alterar a previdência e confiscar recursos do fundo previdenciário para pagar as contas do governo estadual - foi encaminhado para votação na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep). A greve, que contou com ocupação da casa legislativa (no dia 10 de fevereiro), acabou fazendo com que o governo recuasse, com a promessa de que negociaria o pacote de mudanças com os servidores.

No dia 28 de abril de 2015, o projeto para alterar a previdência voltou a ser discutido pelos deputados. Para garantir a votação do chamado “pacotaço”, um grande número de policiais foi chamado para cercar a Alep e garantir a votação.
O “pacotaço” foi o nome dado às mudanças propostas pelo governo executivo. Elas previam alteração da previdência estadual, tornavam mais rigoroso o processo de licença para professores, entre outras medidas.

O uso da força policial teve como finalidade evitar que novas ocupações da Alep impedissem a votação da alteração do regime Paraná Previdência. No entanto, um grupo de manifestantes se concentrou na Praça Nossa Senhora de Salete, próximo ao cordão de isolamento formado por policiais.

Um tumulto teve início às duas da tarde do dia 29 de abril, quando o projeto começou a ser votado. A ação dos policiais, que avançaram contra os manifestantes, durou cerca de duas horas e terminou com mais de 200 pessoas feridas. Apesar do grande enfrentamento, o projeto seguiu em votação e foi aprovado.

No mesmo dia, a Casa Civil lançou uma nota explicando o ocorrido naquela tarde e culpando pessoas, mascaradas e armadas com pedras, bombas caseiras, paus e barras de ferro, pelo confronto que se instalou na Praça Nossa Senhora de Salete.
Na ocasião, os sindicatos dos professores se manifestaram contra a nota do governo. Investigação foi aberta para apurar os excessos cometidos pela polícia no dia 29 de abril.

Um ano depois, em 29 de abril deste ano, atos foram realizados em Curitiba para relembrar o que aconteceu em 2015. O evento foi centralizado e professores e funcionários do Paraná todo foram, até a capital. Segundo a APP Sindicato, cerca de 100 ônibus se deslocaram de diversas regiões do estado até Curitiba.

A concentração inicial aconteceu na Praça Santos Andrade. Na sequência, os manifestantes seguiram, em caminhada, até a Praça Tiradentes, onde os professores e funcionários encontraram servidores públicos da saúde, agentes penitenciários e funcionários do Detran que apoiavam a classe.

Na sequência, o grupo seguiu até a Praça Nossa Senhora de Salete, local que ficou marcado pelo cenário de guerra do dia 29 de abril do ano passado.

O ativista argentino de direitos humanos e ganhador do Nobel da Paz em 1980, Adolfo Pérez Esquivel, realizou discurso. Também foram distribuídas rosas aos manifestantes.

O evento encerrou às três e meia da tarde com o show da banda Detonautas. De acordo com a Polícia Militar, 2,5 mil pessoas participaram dos atos. Segundo a organização do evento, foram 20 mil pessoas.

A manifestação em descomemoração ao 29 de abril foi acrescida da insatisfação da classe de professores. Em Ponta Grossa, as reclamações e reivindicações continuam. Os problemas, no entanto, não se restringem ao fechamento de turmas do sexto ano e à falta merenda diferenciada.

Os pagamentos referentes às progressões de carreira ainda não foram realizados. A falta de pagamento e os problemas estruturais também afetam a rotina de atividades de profissionais e estudantes da rede pública de ensino.

O diretor de escola Rodrigo Andrade ressalta que, apesar do pensamento das pessoas de que ser funcionário público é uma situação segura financeiramente, no Estado do Paraná, isso não é mais certo.

“O que eu sinto é que, a qualquer momento, a gente pode perder direitos se não nos unirmos, se não ficarmos fortes no movimento. O que eu senti, durante toda a greve [do ano de 2015], é que muitos direitos que a gente tem podem ser retirados”, avalia.
O secretário de organização da APP Sindicato de Ponta Grossa, Marlon Alves, comenta que um ano após o dia 29 de abril não aconteceram muitas mudanças.

“Alguns pagamentos e progressões, ele [governo do Paraná] pagou. No entanto, há outros pagamentos atrasados que são direitos do pessoal que entrou agora, que avançou na carreira e que terminou o pró-funcionário. Então, começa todo um ciclo novamente. Nesse ciclo, a gente vê que o governo parou de dialogar”.

Alves também confirma que melhorias necessárias e reivindicadas desde a greve de 2015, como maior número de médicos e mais agilidade para marcar consultas no Sistema de Assistência à Saúde (SAS), também não ocorreram durante este ano.

Até o fim da reportagem não, conseguimos contato com o Núcleo Regional de Educação de Ponta Grossa, da Secretaria Estadual de Educação. Foram encaminhadas, ao órgão, perguntas solicitando esclarecimentos acerca das denúncias apresentadas nesta reportagem.