Na Câmara Municipal, dois alunos falaram em nome das duas instituições educacionais, e tiveram dez minutos para expor suas reivindicações

 

Mesmo com a aprovação da ampliação dos horários de uso do cartão estudante, alunos de universidades de Ponta Grossa continuam na luta. O aumento da frota de veículos do transporte público e medidas para garantia da segurança nos pontos de ônibus passam a encabeçar a pauta de reivindicações do movimento “Libera meu Cartão”.

 

Bruno Atamanczuk, estudante de História da UEPG, explica que as motivações da criação do movimento "Libera meu Cartão" não se limitavam apenas à liberação do passe para além do período de aulas dos alunos.

A iniciativa visa também à garantia de melhores condições da prestação de serviço de transporte público. Isso implica na atuação do movimento para a negociação da pauta de reivindicações junto à empresa de ônibus que tem a concessão do serviço, a Viação Campos Gerais (VCG), e à Autarquia Municipal de Trânsito e Transportes (AMTT).

"Primeiro, o cartão tinha um limite do número de passagens, que era duas por dia. Até aí tudo bem. Neste ano, foi colocado um limite de horário pra uso das passagens. Então, quem é aluno da noite, só podia usar o cartão das quatro horas da tarde à meia-noite. Quem era da manhã, só tem o horário matutino", destaca.

O estudante expõe que, no caso dos universitários, há o envolvimento em atividades de pesquisa e de extensão. Por isso, é preciso horários além da sala de aula e esse foi o argumento utilizado para a extinção da limitação dos horários de uso do cartão.

Na visão dos estudantes, as reivindicações não terminam com os protestos realizados no final de maio que resultaram na ampliação do cartão estudante. Para eles, muitos problemas não foram ainda solucionados.

Dalleska Lopes, estudante de História da UEPG, participa de projetos de pesquisa e extensão. Mesmo sendo bolsista, ela alega que o dinheiro não é o suficiente para se manter em Ponta Grossa e para pagar passagem inteira todo dia.

"Por mês, fica uns R$ 200,00 só para o cartão, sendo que a bolsa é de R$ 400,00. Como que eu vou viver um mês com R$200,00? Sem falar que nem todos os alunos são bolsistas", relata. A estudante também reivindica o preço da passagem inteira de R$ 3,20.

Lopes diz que são válidas e necessárias as manifestações. "Estamos aqui para mostrar que temos boca pra falar e lutar pelos nossos direitos de estudantes. E vamos manifestar até que eles procurem resolver nossos problemas", ressaltou a estudante.

Problemas sem fim

Andrieli Coscoski, estudante de Licenciatura em Ciências Naturais na UTFPR, conta que geralmente precisa sair da aula mais cedo porque não tem ônibus que passe no horário que termina a aula."É complicado, porque está acontecendo muito assalto e quando não saímos antes da aula para pegar o ônibus, somos obrigados a ficar por uma hora ou mais esperando no ponto, correndo risco", afirma.

A estudante de Ciência da Computação da UTFPR, Jhenyfer de Paula, confirma a falta de segurança. A aluna relata que, há cerca de um mês, por volta das sete horas da noite, presenciou um assalto quando estava em frente à UTFPR, junto a um grupo de aproximadamente 40 pessoas.

Como houve uso de arma com disparo por parte do assaltante, o grupo se dispersou, pois as pessoas saíram correndo. No mesmo dia, já havia ocorrido outro assalto e a vítima foi deixada sem roupa próximo ao local. “É uma situação complicada, que sempre se repete. Eu tenho asma e passei muito mal aquele dia. Mas se eu não corresse, poderia ter levado um tiro", relata.

A alternativa encontrada pelos estudantes é aguardar, dentro da faculdade, até a chegada do ônibus. O transtorno é gerado quando o veículo está chegando, pois as pessoas têm que sair correndo para não perder a condução.

O problema não se restringe à falta de segurança. As aulas no período noturno terminam às 11 horas da noite e o último ônibus passa às 10 horas e quarenta minutos da noite. 

A estudante explica que muitos se veem obrigados a perder parte da aula para não perderem a condução. “O ônibus chega no horário que estamos em aula e, muitas vezes, perdemos parte da aula pra não precisar ficar tanto tempo à espera do próximo”. Paula diz que é urgente a mudança no quadro de horário de ônibus e a implantação de medidas de segurança no local.

Segundo a assessoria da AMTT, novos ônibus para a frota do transporte coletivo municipal estão previstos para julho. Além disso, duas novas linhas do 'Sem Parar' serão criadas. Uma irá interligar o Terminal Central e o Campus Uvaranas da UEPG e a outra, o Campus de Uvaranas e a UTFPR. Sobre a segurança dos terminais de ônibus e nos pontos de ônibus, a prefeitura alega que novos guardas municipais estão em processo de formação e logo entrarão em serviço.

Durante as reivindicações, os estudantes do DALHIS, colocaram faixas de protesto, tanto as reivindicações do cartão, como pelo governo atual

 

Movimentos estudantis

Bruno Atamanczuk explica que, na UEPG, cada curso tem um diretório e um centro acadêmico. No caso do Diretório Acadêmico Livre de História (DALHIS), os estudantes optaram por criar um movimento estudantil próprio pra reivindicar os direitos dos estudantes. O aluno se queixa, no entanto, da impossibilidade de representação na Câmara Municipal de Ponta Grossa ou mesmo na UEPG.

Atamanczuk conta que o movimento estudantil serve principalmente para dar força ao aluno. "É pra gente ter voz", destaca. No Dalhis, os estudantes se reúnem de duas a três vezes por semana a fim de discutir pautas em defesa dos direitos dos alunos. "Tudo isso é para evitar um sucateamento total das universidades. Já que, com o governo vigente, não temos perspectiva de melhoria, precisamos de um movimento bem organizado", conclui.

Primeiras tentativas

Na Câmara Municipal de Ponta Grossa, estiveram presentes, no mês de maio, alunos organizados pelos movimentos estudantis, para manifestar contra os horários estabelecidos para o uso do cartão estudante, a falta de segurança e a favor da ampliação dos horários de ônibus. Os estudantes tiveram dez minutos para apresentar suas reivindicações na câmara, mas devido à falta de solução, eles se deslocaram para a prefeitura.

Cerca de 30 jovens do movimento "libera meu cartão" gritavam palavras de ordem na porta do gabinete do prefeito Marcelo Rangel. Logo, guardas municipais barraram a entrada dos estudantes. Após algumas discussões, representantes do movimento foram liberados para conversar com o prefeito.

A liberação da utilização do passe livre, sem limite de horários, acabou acontecendo. A decisão se baseou no inciso III, do art. 2º. do Decreto nº 10.370, de 22 de julho de 2015, que traz em sua redação a possibilidade de "utilização [do cartão do estudante] fora da faixa de horário definido para os estudantes, exceto para estudantes do ensino superior".

Enquanto o horário do cartão de estudante não havia sido liberado, estudantes tentaram, através de seus professores coordenadores, maneiras de conseguir liberação. Uma delas foi através de uma declaração concedida pela IES para explicar o quadro de atividades dos alunos. Contudo, isso não foi o suficiente.

No curso de Jornalismo, a professora Karina Woitowicz conta que fez uma declaração para alunos que participam de projetos por ela coordenados. "Fiz uma declaração justificando e mostrando que as atividades realizadas pelo aluno são encontros que costumam terminar depois das sete horas da noite e, às vezes, bem mais tarde. Mas aí teve uma negativa, pois se entendeu que só é possível uso do cartão dentro das atividades de ensino", descreve.

Para a professora, não foi levada em consideração a realidade no curso. Tanto projetos de pesquisa e de extensão, como as aulas especiais acontecem, muitas vezes, fora da grade de aulas das turmas normais. Isso demanda ampliar a aceitação do que se compreende como formação estudantil universitária.

 

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