Cartaz da XI Semana de Integração e Resistência realizada de 27 à 29 de junho (Foto: Saori Honorato)

 

Lideranças estudantis acreditam que falta mobilização e apoio por parte alunos das instituições de ensino superior


Após um ano de hiato, a Semana de Integração e Resistência foi retomada, no final do mês de junho, em sua décima primeira edição. O Portal Comunitário foi ouvir lideranças estudantis da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e do movimento secundarista. O objetivo foi avaliar a participação dos estudantes em movimentos e entidades que buscam defender os interesses dos alunos.


Gabriela Clair, secretária de finanças da atual gestão do Centro Acadêmico João do Rio (Cajor) acredita que a retomada da Semana de Resistência deva incentivar a mobilização política estudantil. “Queremos, futuramente, se tudo der certo, voltar às raízes da Semana da Resistência tendo, sim, muita resistência contra o sistema”, destaca.


Para a estudante, é baixa a participação dos estudantes no movimento estudantil e isso não se restringe ao curso de Jornalismo da UEPG. “Os acadêmicos estão cada vez mais egoístas e pensando em si mesmos e não no curso”, critica. Para Gabriela, muitos apenas reclamam e nunca participam efetivamente do movimento.


A ex-presidente do Cajor, gestão 2014/2015, Rafaella Feola, avalia o movimento estudantil em Ponta Grossa como algo “segmentado, uma briga de forças políticas”. Para a jornalista, formada pela UPEG, a consequência disso é a ausência de um DCE. “Dentro do curso de Jornalismo o debate sobre movimento estudantil já foi mais presente. É algo que acorda e adormece sucessivamente”, avalia.


Sobre a Semana da Resistência de 2015, ela relata que o evento chegou a ser planejado. A jornalista alega, no entanto, que a greve dos professores acabou atrapalhando os planos ao dispersar os alunos no período em que as aulas ficaram suspensas.


“A ideia era um acampamento dentro do Campus Uvaranas, aberto a outros cursos”, relembra. Feola explica que o objetivo era resgatar a tradição do evento ligada à mobilização política dos alunos promovendo a discussão sobre movimento estudantil, com oficinas artísticas e atrações culturais. 


Apesar de os planos não terem se concretizado, durante a gestão passada do Cajor, se deu um dos atos mais marcantes do movimento estudantil que ficou conhecido como a “Tomada em 5 atos”. “Durante uma semana, realizamos vários tipos de manifestação a fim de contestar e reivindicar reformas no Laboratório de Telejornalismo”, explica.


Rafaella relembra que, na ocasião, houve assembléia estudantil, Rádio Resistência e oficina de cartazes. “O laboratório estava em reforma havia praticamente dois anos, mas no espaço destinado a ele havia somente tomadas. Por isso, o nome do movimento”.


A XI Semana de Integração e Resistência aconteceu de 27 a 29 do mês passado, no Campus Central da UEPG. O tema do evento foi “Direitos humanos, Resistência e Jornalismo”. O evento já se tornou uma tradição no curso de Jornalismo da UEPG.


Durante as manhãs, foram realizados os painéis de debate. Os temas foram mídias indígenas (primeiro dia), representatividade da mulher na mídia (segundo dia) e veículos independentes (terceiro dia). O evento contou ainda com oficinas realizadas no período da tarde e show de calouros, este fechando a programação.


Veja o vídeo em que a repórter Nathália Oliveira entrevista Katiuscia Rockenbach. A entrevistada, que é estudante de Direito da UEPG e integrante da Frente Feminista Malalas, participou da mesa de debate do segundo dia da XI Semana de Integração e Resistência. O tema da discussão foi representação da mulher pela mídia.



Em conversa sobre o movimento estudantil universitário, Katiuscia concorda que a maioria dos estudantes não dá importância para isso, pois acredita ser um ambiente passageiro. No entanto, ela acredita que há, sim, pessoas muito ativas. “Dá pra citar como exemplo os estudantes que se mobilizaram para garantir seu passe livre e que agora estão indo atrás de garantir que o preço do RU não suba”, exemplifica.


Em relação às lutas femininas dentro da universidade, a ativista cita a luta por um ambiente igualitário para que haja oportunidades iguais tanto para homens quanto para mulheres. Outro ponto destacado por Katiuscia é o assédio no ambiente acadêmico. 

Para a estudante, o ambiente igualitário inclui a existência de um “ambiente acadêmico sem que as mulheres tenham que passar por assédio por parte dos professores. Sabemos que isso acontece bastante e que é difícil pra vítima realizar denúncia desses casos”, afirma.


No terceiro e último dia da Semana da Resistência, uma das palestrantes foi Camila Souza, diretora de relações internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE) e integrante do Juntos!, Juventude em Luta. No mesmo dia, à noite, a líder estudantil também ministrou a palestra “Que conjuntura é essa?”, no Auditório da Reitoria, na UEPG Central.

A representante da UNE, Camila Souza, em debate realizado no Campus Central da UEPG (Foto: Alessandra Delgobo)

 

A palestra, seguida de um debate, retratou as experiências vividas por ela, em junho deste ano, no movimento Nuit Debout (Noites em Pé), na França. A estudante falou de sua participação nos movimentos de resistências ao que os militantes, contrários ao governo do presidente interino, Michel Temer, chamam de golpe. 

Ao falar da juventude, ela acredita que as pessoas devem usar os movimentos secundaristas como exemplo. “Os estudantes secundaristas deram uma aula ao país de como podem e devem vencer. Nós temos muito a aprender com eles”, opina durante a palestra.


As origens da Semana de Resistência


Em 2004, aconteceu o Acampamento Dois de Março, movimento estudantil que ocorreu de 02 de março até 02 de abril. A UEPG passava por uma crise. No início do ano letivo, faltavam 181 professores na Universidade. O curso de Jornalismo só tinha cobertura de sete disciplinas. O então governador, Roberto Requião (PMDB), não tinha liberado a contratação de professores substitutos. Além disso, ele também tinha decretado o fechamento de 43 cursos nas Universidades Estaduais e, desse total, oito eram da UEPG.


Após uma semana de acampamento, foi criada a I Semana de Integração e Resistência. O evento surgiu como uma forma de unir forças a fim de que os integrantes do movimento conseguissem atingir seus intentos.


A liderança da primeira Semana de Resistência partiu do curso de Jornalismo, mas contou com o apoio de outros cursos da UEPG. O atual professor do Departamento de Jornalismo, Felipe Pontes, era na ocasião aluno do curso de jornalismo. Como ex-ativista do movimento estudantil, ele relembra sua atuação na criação do evento.


Felipe relata que o movimento, formado por alunos e professores, se uniu a outros movimentos sociais. “Eram pessoas excluídas e marginalizadas na cidade, no estado e no país, que estavam lutando pela sobrevivência. Eram pessoas que estavam à margem e que queriam, de alguma forma, ter suas vozes reconhecidas”, relembra. O fim do acampamento se deu quando foi liberada a contratação de novos professores.

 

Cartazes das Semanas de Integração e Resistência na sala de reunião do Departamento de Jornalismo (Foto: Saori Honorato)


Desde então, a Semana da Resistência se consolidou e se tornou uma tradição no curso de Jornalismo. A organização anual é de responsabilidade do Centro Acadêmico João do Rio (CAJOR). As primeiras edições se deram a partir da reivindicação da reestruturação e de melhorias para o curso de Jornalismo. A mudança do nome do centro acadêmico para João do Rio foi uma das mais marcantes.


Atualmente, a Semana de Resistência, como avalia Felipe, se tornou uma “obrigação histórica”. O professor relata que, há pouco mais de uma década, o Jornalismo tinha que ser a vanguarda. "Isso mudou em termos de perfil do curso de jornalismo. O jornalismo já não tem mais o papel de vanguarda. Boa parte dos estudantes que entram não tem mais essa dimensão de que o jornalismo pode servir pra mudar alguma coisa. Muitos encaram como uma profissão, uma forma de ganhar a vida, o que também é honesto e é justo, mas não com esse ideário político. Somos muito menos políticos", afirma.

 


Faltam interesse e apoio dos universitários ao movimento estudantil?


A força do movimento estudantil em Ponta Grossa não se restringe à mobilização dos universitários, mas abrange também os secundaristas. No dia 10 de junho, cerca de 2 mil estudantes de 25 colégios estaduais se concentraram no Centro da cidade e seguiram em passeata até a prefeitura. 

 

Os estudantes tinham como reivindicação melhorias e ampliações nas regras do passe livre estudantil. Após o ato, eles conseguiram marcar uma reunião entre estudantes e o prefeito para o dia 05 de julho, esta que posteriormente foi adiantada para o dia 04.


Presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas Pontagrossenses (Umesp), Christopher Ferreira, avalia que a mobilização foi um ato histórico. No entanto, para o líder estudantil, falta apoio, tanto da sociedade quanto de outros estudantes, como os universitários. 

 

“Vejo hoje um cenário meio bagunçado e sem apoio, pois a sociedade não reconhece a importância da luta social que o movimento estudantil exerce em nosso país”, avalia.

Christopher critica a inexpressiva mobilização dos universitários e sugere uma união de forças. “Talvez fosse necessária uma união maior com os secundaristas, pois as nossas lutas são basicamente as mesmas. Se nos unirmos podemos nos fortalecer muito”, destaca.

 

Movimento Estudantil em manifestação por melhorias no passe livre, realizada em junho (Foto: Mariele Zanin)

 

O estudante de História, Bruno Atamanczuk ingressou no movimento estudantil através do Diretório Acadêmico Livre de História (Dalhis). Ele confirma a falta de apoio e mobilização dos universitários. “Na universidade a galera parece se sentir superior demais pra lutar por melhores condições, pra tentar conquistas de base”.


Para Atamanczuk, há várias posições assumidas pelos alunos que tornam baixa a adesão ao movimento estudantil na UEPG. “Alguns [estudantes] se sentem envergonhados. Outros não concordam com a visão de políticas sociais para auxiliar o estudante”.


O presidente da Umesp, Christopher, ainda explica que o movimento estudantil secundarista é organizado por jovens estudantes e que dependem do apoio de entidades e de diretores de colégios, sindicatos e movimentos sociais. Esse suporte é importante para que os estudantes possam ter livre organização e espaço para encontros, o que acarretaria maior participação dos alunos.


Após conquistas como o passe livre, o movimento estudantil secundarista ganhou mais credibilidade em Ponta Grossa, inclusive por parte dos diretores dos colégios. O movimento, que esteve presente em momentos como o Massacre de 29 de Abril, promove atividades culturais e sociais em colégio. É o caso do “Se liga 16”, projeto que incentiva jovens, com mais de 16 anos, a se inscreverem como eleitores e a participarem ativamente nas eleições.


A diretoria da UMESP explica que a entidade se divide em várias áreas para uma maior representatividade estudantil. Há a diretoria feminina, diretoria LGBT e a diretoria de cultura e movimentos periféricos, esta também pauta discriminação racial e social. Diretores participam de eventos e debates relacionados. 


Raphaela Pacheco, integrante do Movimento Estudantil Independente (MEI) também se posiciona sobre a questão. “Acho importante todos os tipos de representatividade dentro do movimento estudantil para que aqueles que não têm voz sintam-se representados por aqueles que podem gritar”.

 

Arquivo Comunitário
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