O que um DJ, um grafiteiro e um MC dizem sobre o movimento hip hop em PG

RUDI REDIMENSIONADA

O movimento hip hop em Ponta Grossa vive uma época de ouro. Existe cerca de 20 grupos, de 15 a 20 DJs e beatmaker e incontáveis grafiteiros. Escolhemos três integrantes do movimento para comentar como o hip hop tem influenciando o cenário cultural ponta-grossense.

Poeta Bárbaro

Tudo começou quando em 2011, Luis Guilherme Rudnik Mateus, mais conhecido como Rudi, sofreu uma grande perda familiar; seu pai havia falecido. Com a morte do familiar, Rudi foi tomado por uma tempestade de sentimentos e inquietações. Foi, então, que o rapper sentiu a necessidade de canalizar esses sentimentos para algo maior e produtivo.

Ainda em 2011, Rudi iniciou na arte do freestyle. O estilo musical, que nasceu nos anos 1980, nos Estados Unidos, tem como característica principal a mistura de outros estilos, como o Club, Dance Music, Blues, House Music, entre outros. Depois do surgimento e da produção de músicas freestyle, não demorou muito para que dançarinos começassem a criar novas maneiras e movimentos para dançá-las.

No começo de 2012, o Marechal (MC carioca que dominou as batalhas de rimas durante anos) fez um show em Ponta Grossa. A apresentação foi marcante para Rudi e o impulsionou a criar raízes no movimento hip hop não somente de Ponta Grossa, mas no movimento como um todo. Atualmente, Rudi completa já cinco anos de hip hop.

Dentro desses cinco anos, o movimento proporcionou ao rapper alguns momentos de muita alegria e orgulho, dentro dessas Rudi destaca uma. Empolgado, lembra de um dos seus melhores momentos seus no movimento. “Primeiro Encontro da Malooca. Fazia parte de um grupo chamado Perímetro Urbano. Nesse dia, compartilhamos o Palco com pessoas fodas do cenário Nacional. Dividir palco com a Tábata Alves (MC paulista, cantora que faz parte do movimento Lado Sujo da Frequência) foi foda. Foi marcante também a participação do Dj Qualy (DJ e Mc do grupo paulista Haikaiss). Mas o mais foda, foi ouvir toda a galera cantando o refrão com a gente. Ter o Ganja e o Marcellus vivendo esse momento. Foi foda velho! Alguns manos subiram no palco com a gente. Nunca vou esquecer disso”

Hoje, já bastante mergulhado no hip hop, o rapper procura deixar uma marca na sociedade, contribuir de alguma forma para a transformação social através da música. Já não é de hoje que Rudi trabalha na criação e execução de projetos sociais pela cidade, levando o hip hop para quem não tem acesso ao movimento. Para Rudi, o hip hop possui ligação com a política e ele se orgulha em poder levar, à comunidade, aquilo que não é oferecido pelo poder público, como a cultura, educação e lazer.

Como integrante do movimento há cinco anos, Rudi vê muitos talentos sendo desperdiçados em Ponta Grossa. Segundo o rapper, a cidade tem muitas pessoas com capacidade de ir longe no movimento, que realmente possuem boas produções no rap, conteúdos multimídia e no grafite, mas a falta de incentivo e a acomodação acabam por esconder os grandes talentos. Uma alternativa seria a criação e realização de workshops pelos integrantes do movimento que poderiam compartilhar entre si conhecimento, o que os motivaria e melhoraria suas habilidades. “É preciso ter uma preocupação com o social” diz Rudi.

O hip hop sempre foi um movimento considerado “marginal”, pois é um movimento de protesto, feito por e para pessoas que vivem à margem da sociedade, que questionam padrões e imposições, e que veem no hip hop uma forma de terem voz e poder. Para Rudi, é por isso que sempre vai ser difícil produzir conteúdo no movimento, pois ele não recebe apoio das autoridades ou por parte da sociedade, já que é com o hip hop que o povo se empodera.

E como participante desse movimento, Rudi também faz parte dessa luta, ele leva o hip hop para a vida, para o dia a dia. Não há separação, máscaras ou disfarces, pois ele é do movimento na hora que está fazendo rap, mas também quando está no trabalho. O hip hop faz parte de sua postura, forma de agir, falar e se vestir. Ele respira hip hop e não tem medo ou receio de representar o movimento; isso faz parte de uma luta para maior reconhecimento por parte da sociedade. “É uma luta diária, pois independente do que as pessoas acham, mostra que o movimento existe, é algo que já faz parte da sociedade.”

Os saraus - reunião de pessoas para compartilhar experiências culturais e convício social - voltados ao hip hop tiveram início logo que o movimento chegou ao Brasil, nos anos 1980. Mais especificamente em 1984, os saraus se popularizaram em São Paulo, onde o movimento teve início e tinha mais força. Começaram na Praça da Sé, no Vale do Anhangabaú. Não se sabe ao certo em que ano os saraus, junto com o hip hop, chegaram aos Campos Gerais, mas foi no ano passado que em Ponta Grossa se iniciou um formato único de saraus, diferente dos que acontecem em outras cidades dos Campos Gerais.

O sarau, assim como o hip hop, sendo um movimento que chegou num período pós-ditadura, representa não só uma cultura, mas a luta do povo. Como Rudi descreve, o sarau é um meio de protesto e defesa dos direitos do cidadão comum, é um meio para a luta pelos direitos das mulheres, pelo fim da homofobia, pelo fim do racismo, pelo fim da opressão política e da mídia, entre outras causas.

Os participantes do movimento estão em constante luta pelo reconhecimento do hip hop. Muitas vezes, ele é ignorado e criticado, especialmente em uma cidade tradicional como Ponta Grossa. O que Rudi espera do movimento é que ele não acabe, que a luta continue, que outras camadas da sociedade reconheçam a importância do hip hop, pois, nas palavras de Rudi, “sem apoio, não é fácil”. E não é fácil mesmo. O rapper vislumbra, por exemplo, a possibilidade de fim do movimento, já que não vemos um diálogo da prefeitura com o hip hop, pelo contrário, há sim um descaso, segundo Rudi.

Batidas e riscos

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Poucas vezes, prestamos atenção em quem comanda a batida nos toca-discos nas casas de shows brasileiras. Porém, atualmente, alguém vem realmente chamando atenção. Fernando Bileski, ou o DJ FB, vem dominando a cena do hip hop em Ponta Grossa nos últimos anos. Com participações em eventos históricos e de renome da cidade, como abertura do show do MV Bill, tocando com Kamau e KL Jay, FB vem sendo reconhecido por todos como um dos melhores DJs da cidade. Enquanto os “manos” balançam a cabeça quase quebrando o pescoço, as “minas” sincronizam os movimentos com as mãos e gingando devagar. Esse é o efeito que FB causa em toda festa.

Do alto dos palcos onde as pick-ups (aparelho utilizado pelos DJs para fazer scratchs e trocarem as músicas) de um dos inúmeros “Quintas Sem Crises” (evento que a Cavan realiza) FB, enquanto concentrado no trabalho, nem de longe lembra o rapaz risonho que é fora do palco. Sempre tentando atender e tocar o melhor do hip hop, tanto nacional quanto internacional, é difícil ver FB sem rir conversando com seus “fãs”. FB de longe consegue fazer com que o público entre em sua “onda” e acompanhe cada música com o entusiasmo, cantando e dançando as musicas, que o DJ apresenta no palco

Fernando, que tem 27 anos, além de DJ, é empresário no ramo de automóveis. Sua história com o hip hop teve início em 2011, quando ele começou a ajudar na organização da Essence Movement, um dos coletivos de hip hop de Ponta Grossa. Em pouco tempo, o coletivo lançou diversos hits com o grupo Forma Única, além dos trabalhos solos de Portella e Guinomon, dois MCs do coletivo.

Para FB, os melhores momentos são nas pick-ups e todos têm um valor único. “Cada evento feito ou tocado é marcante pra mim sempre tiramos aprendizado e coisas boas!”. FB, que já tocou com grandes nomes, parece não ligar para a pressão de estar ao lado de ídolos, e toca normalmente. Isso pode ser notado por sua plateia. FB nunca perde o jeito. Ri, quando necessário, e acerta as músicas, uma após outra, contagiando, cada vez, mais o público presente.

Enquanto a batida vai levando a música, FB é o DJ, o dono do momento. Mas não é sempre assim. Durante a semana, FB é Fernando Bileski, empresário. Ele comenta que, geralmente, o hip hop influencia sua vida, mas ele diz que procura “separar as duas atividades para conseguir fazer as duas coisas bem feitas!” Assim, conseguindo separar a “vida dupla” (mas sem identidade secreta), Fernando, ou FB, consegue levar o dia a dia como algo normal.

FB comenta que, para ele, ao mesmo tempo que o movimento cresce muito na cidade, existem problemas como a falta de apoio da prefeitura. “Estamos tomando a rua, as baladas, mas ainda assim a prefeitura faz de conta que não vê a gente.”

Vira o disco, muda a próxima faixa e o público ainda acompanha FB, enquanto, cada vez mais, vem se aproximando gente do palco. É possível ver todos cantando, do início ao fim, “Vida Loka Parte 2”. Enquanto o embalo do show fica agora por conta de KL Jay, Brown, Ice Blue e Edy Rock, é notável a entrega de FB ao que faz. Enquanto ele relembra tantas histórias e momentos, todo mundo nota que ele vai fazendo o melhor setlist que pode.

FB lembra que, quando começou, o hip hop era diferente em Ponta Grossa. “A gente dominou espaços que não eram nossos, sabemos onde estamos e onde podemos ir.”. O que tem acontecido, segundo ele, é uma reviravolta mundial. O hip hop criou diversas “vozes” (ou estilos) e consegue agradar a todos. A influência digital também ajudou, ainda segundo FB. “O hip hop dominou todas as plataformas. Agora, é mais fácil de consumir.”

Enquanto FB troca de disco, podemos ver o movimento rápido dele com as mãos para controlar cada um dos botões, sem deixar a festa parar. Agora, é a vez de outro clássico nacional, Thaide e DJ Hum com “Pra Cima”. Desse modo, FB já olha para os cantos e vê que está chegando o fim de seu horário nas pick-up. Enquanto o público canta com Thaide o refrão, FB já começa a passar a vez para os músicos que vêm logo depois.

“Levar a boa música, a música com mensagem é o meu trampo”. Com essa frase, FB sai de perto, pois resolve virar fã de seus amigos e acompanhar o show balançando a cabeça. Enquanto os outros músicos cantam, FB acompanha cantando da plateia. Durante esse momento, vemos que FB é um qualquer no meio de tantos outros, como todos os amantes do movimento na cidade.

Dos muros para as peles

LUIDHI REDIMENSIONADA

Luidhi Felipe Correa Lima ou, simplesmente, Luidhi é um grafiteiro de Ponta Grossa. Com o corpo tatuado, Luidhi carrega a cultura onde quer que vá, já que boa parte de suas tatuagens remetem ao movimento hip hop. Com seu estilo irreconhecível, o membro da “Trutas Crew” passa o dia inteiro desenhando, quando não em muros, em peles de pessoas. Com tintas sempre por perto, seja para o estúdio, seja para os muros, Luidhi tenta sempre mostrar sua arte para mudar a vida das pessoas.

O grafiteiro começou a acompanhar o movimento aos 8 anos, por influência dos tios e primos. Do mesmo modo que anda de lá para cá antes de escolher o melhor lugar para sua pintura, Luidhi parece ter começado assim no movimento, algo natural e sem tentar ter algo imposto pelo que acontecia. Enquanto analisa o melhor lugar, podemos ver que Luidhi já tem todas suas criações do dia, em papel, próximo a ele, para não perder as ideias.

Desde 2005 próximo a muros, Luidhi já traz 12 anos de pintura nas ruas da cidade. Mas antes disso, Luidhi arriscou nos passos do break dance. Segundo o mesmo, ele até levava jeito. “Eu era bom, mas a tinta me conquistou!”. Hoje, o grafiteiro é um dos mais conhecidos da cidade.

[Danilo Schleder: Lembro, até hoje, do meu primeiro contato com Luidhi. Eu, como apreciador da cultura, participei fotografando um evento em um ginásio de vila, aqui, em Ponta Grossa. Comecei a fotografar tanto que o wildstyle (estilo de grafite que sobrepõe e entrelaça as letras) de Luidhi me chamou atenção, era o único fazendo aquilo naquele evento. Na maioria dos eventos que Luidhi “colava”, era possível ver que o diferencial dele não ficava somente no wildstyle; o uso de cores chamativas também atraía atenção.]

Enquanto prepara o desenho e as tintas num muro qualquer, Luidhi vai conversando comigo, contando como tem rolês que marcam mais que os outros e o que ele mais preza na cultura. “Aqui, na cidade, não existe um rolê que eu ache marcante demais, faço todos com a mesma qualidade e vontade. Mas uma vez fui para o Chile, lá o negócio é diferente. O hip hop lá é mais forte nas cidades. Acho que não só pela viagem, mas a experiência de lá fez esse rolê ser tão marcante para mim.

Para ele, os maiores problemas da cultura em Ponta Grossa são dois: a falta de apoio e de políticas públicas por parte da Prefeitura e a divisão que existe no movimento. “Falta união, compromisso, dedicação e menos ibope (gíria usada para falar sobre fama no meio) (ok, ótimo!) para crescer aqui. O movimento cresceu muito em número, mas alguns chegam sem estudo e sem saber de nada, só acham que é falar ‘eu sou do hip hop’ e vai tá envolvido ou respeitado. Mas não é assim, não pode ser!”.

Luidhi já separa a primeira tinta, chacoalha para misturar os químicos de dentro da lata e começa a riscar a parede. Com paciência e precisão, começa o desenho. Enquanto isso, como em qualquer outro evento de hip hop, as batidas graves nos falantes começam a fazer mais barulho. Luidhi está entre vários grafiteiros pintando o muro de um colégio. Todos querem terminar para poder curtir o evento, beber com os amigos e relembrar histórias.

A falta de união entre os quatro elementos (MC, DJ, grafiteiro e break dancing) é o que mais falta na cidade. “Tem tempo que não rola algo que envolva todas as pessoas do movimento. Geralmente, são eventos pra pintar, pra dançar ou pra rolar um som!”. Enquanto pensa sobre o movimento, Luidhi vai transformando o muro amarelo em algo colorido, fazendo sua arte para ficar marcada em mais um lugar da cidade.

A calça larga e o boné de aba reta são mais que peças de roupas para ele, são instrumentos a serem defendidos da cultura. “Sempre honrei a calça larga e o boné aba reta, não tem porque eu fugir deles. Consegui fazer do meu trampo algo que eu possa ser desse jeito e ouvir rap. Pra mim, a cultura casou comigo e com minha vida.”

Já quase acabando o desenho no muro, Luidhi comenta novamente sobre a cena em Ponta Grossa. “Talvez o fato de cada um fazer o corre sozinho atrapalhe um pouco. Temos muitos grupos de rap, muitas crews. Falta todo mundo se unir e fazer a coisa acontecer mesmo.” Desse modo, Luidhi se afasta do muro, olha a obra na parede e sorri. Talvez, a expressão no rosto reflita a satisfação ao deixar mais um pedaço de si para os outros ou por absorver mais do que a cidade tem para ele.

 

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