O ambiente político em Ponta Grossa ainda é dominado por homens.

 

O debate quanto à participação das mulheres na política voltou à tona no último mês. Por conta da reformulação dos ministérios, durante o governo do presidente interino Michel Temer, o Brasil não possui nenhuma mulher como ministra. Porém, não precisamos ir muito longe para percebemos como o espaço feminino em cargos políticos ainda é limitado. Atualmente, em Ponta Grossa, há apenas uma vereadora, Adélia de Souza (DEM). A baixa adesão de mulheres à política é evidente quando são analisados dados nacionais, ainda que o Brasil tenha eleito uma mulher, Dilma Rousseff, para a representação máxima do poder executivo.

Segundo levantamento realizado, em 2015, pela Procuradoria Especial da Mulher, no Senado Federal, apenas 16% dos cargos de senadores são ocupados por mulheres. Na Câmara, a porcentagem é ainda menor, apenas 10%.

Essas porcentagens colocam o Brasil como o 158º país no ranking mundial de participação feminina no parlamento, com apenas 9,9%. Ruanda, país da África, lidera a lista com 63,8%. A média mundial gira em torno de 22%.

Quando se pensa a porcentagem de mulheres apenas em cargos ministeriais, o Brasil estava, até a composição proposta pela presidente afastada Dilma Rousseff, em melhor posição no ranking, o 52º lugar.

A posição permaneceu, portanto, até maio passado, quando o Brasil ainda tinha seis ministras. Com o atual cenário, comparativamente com o levantamento da ONU de 2015, o Brasil ocuparia a 94º posição, juntamente com países como Arábia Saudita e Paquistão.

Os debates sobre o espaço da mulher na política se tornaram frequentes antes mesmo de Michel Temer assumir, interinamente, a presidência do Brasil. A exemplo disso temos o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) que, a nível federal, desenvolveu um projeto de iniciativa popular de reforma política.

Um dos itens apontados na cartilha desse projeto é a alternância de gênero nas listas partidárias. O projeto nada mais é que a obrigatoriedade de que 50% das vagas para cargos políticos sejam preenchidos por mulheres. A cartilha do MCCE aponta, como principal argumento, o princípio da igualdade presente em regimes democráticos. Neles, todos devem ter a possibilidade participação no espaço da chamada vida pública.

O porta-voz da seção Ponta Grossa do MCCE, Ermar Toniolo, aponta que a cidade precisa caminhar em relação à igualdade entre os gêneros. Para ele, a cultura do espaço político como algo majoritariamente masculino está enraizada em parte da população.

Toniolo considera que a mudança no cenário local demorará a acontecer. A justificativa estaria no fato de a dinâmica de representação política em Ponta Grossa ser um reflexo do que acontece na esfera estadual e federal.

Para conhecer mais sobre a cartilha e a proposta de reforma política do MCCE, acesse o site do movimento.

O Portal Comunitário entrou em contato com algumas mulheres e representantes que fazem parte do engajamento e envolvimento das mulheres na política.

Entre eles, estão a pré-candidata pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Josiane Kieras; a primeira mulher presidente de sindicatos em Ponta Grossa e militante política desde 1988 pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Rosélia Ribeiro; a secretária de organização do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Isabela Gobbo; o presidente do Partido da Mulher Brasileira (PMB), Júlio Kuller; a liderança do Partido do PMB, Nilson Ribeiro; e o secretário geral do Democratas (DEM), Diego Santos.

Representatividade feminina

As mulheres, como os números apontam, são minoria dentro das esferas políticas no Brasil. Porém, isso não significa que elas não estejam participando de partidos políticos.

É o que defende a militante Rosélia Ribeiro ao afirmar que existe a participação e o engajamento interno, mas que a decisão de tornar candidata a algum cargo reflete em outros setores da vida feminina, como a família e a vida profissional. “Nós trabalhamos para que as mulheres tenham espaço e queiram ocupar. Fazemos isso por meio de palestras e mostrando como é que isso pode ser feito. Porém, entendemos que a mulher tem outras atividades para além disso, como a vida profissional e familiar”, avalia.

Rosélia aponta ainda que, atualmente, o PT possui maioria feminina de afiliados e que boa parte são professoras. Rosélia explica o que considera o motivo dessa dificuldade da inserção da mulher no cenário. Ouça na entrevista a seguir:

Quando existe o envolvimento direto da mulher na esfera política é que se percebe que ainda existem barreiras. A pré-candidata e professora Josiane Kieras entende o espaço da mulher como algo ainda fechado e cercado de preconceitos.

A professora afirma que, mesmo neste momento de pré-candidatura, ela já nota um olhar de preconceito e reprovação por uma parcela dos políticos, principalmente homens. “Eu percebo que existe esse preconceito, mas aí eu me pergunto ‘Por que eu não seria capaz? Será que algum dos que estão na política conhecem tão mais que eu de educação ou administração’, e é aí que eu tiro forças para continuar”, relata.

Outra vertente da luta das mulheres, que não está fora do que foi colocado por Josiane e Rosélia, é o feminismo. A secretária de organização e militante Isabela Gobbo defende que a participação da mulher deve ser acompanhada de um conhecimento da luta travada pelos movimentos feministas.
“Precisamos de mulheres feministas, com a consciência clara da necessidade de desconstrução do machismo existente, já que a reprodução do pensamento patriarcal é a principal barreira para a participação”, avalia.

Porém, quando se fala em mulheres na política, alguns partidos defendem que isso não se restringe ao incentivo à participação da mulher na política. Seria necessário ainda um envolvimento masculino em prol das causas femininas. O argumento é apresentado pelo presidente do Partido da Mulher Brasileira, Júlio Kuller. O partido foi criado em 2008, mas só existe em definitivo desde 2015.

Júlio explica que o partido entende as mulheres como parte fundamental da família e que, por isso, luta pelos direitos da mulher não a partir do feminismo, mas por uma ótica da política voltada às mulheres. “Nós temos o desafio de representar as mulheres e somos orientados por aquelas que são nossas presidentes de diretórios”, defende.

As cadeiras são tradicionalmente ocupadas por homens.

 

A Lei nº 12.034 de 2009 prevê que 30% das vagas em chapas sejam preenchidas por mulheres. Em 2010, a lei já foi praticada, mas se tornou obrigatória em 2012. O secretário geral do Democratas, partido que possui a única vereadora de Ponta Grossa, Diego Santos, coloca que a obrigatoriedade da porcentagem torna o espaço da mulher uma cota. “Não é interessante colocar essa porcentagem por forçar uma participação que deveria ser espontânea. Alguns colocam candidatas apenas para cumprir a cota e não pela garantia de espaço”, critica.

Adélia de Souza, que é a única representante feminina no legislativo municipal em Ponta Grossa, encontra-se, neste momento, afastada do cargo por licença médica.

Busca da garantia de espaço

A luta por espaço se mostra notória por parte das mulheres e o envolvimento e engajamento podem vir de diferentes esferas sociais. Josiane Kieras, por ser professora, entende o espaço escolar como principal local de debate e exposição da necessidade da participação política feminina. “Muita das vezes o aluno só começa a entender a política após uma certa maturidade, já na Universidade. Mas nós precisamos reverter e trazer esse debate para as salas de aula, desde o início. A política está para além dos partidos, está na escola, pois a escola é, sim, o espaço onde se tem politização”, explica.

Outra forma de busca do engajamento das mulheres na política é a partir da análise do cenário nacional. Essa compreensão pode mostrar como a falta da representatividade feminina é prejudicial e gera problemas para as próprias mulheres. O argumento é defendido por Júlio Kuller para quem a necessidade de aumentar o percentual de mulheres na política deve ser correspondida por um envolvimento engajado e não apenas pela busca do preenchimento de números.

A luta por espaço e, principalmente, por representatividade, não se limita à política institucionalizada, mas abrange também pequenas ações. Rosélia Ribeiro entende a descoberta política como algo que começa com a participação em pequenos grupos sociais, em movimentos organizados de bairros e, até mesmo, em espaços religiosos.

Por que ter mulheres na política?

Pensar política é pensar democracia a partir dos desdobramentos do que se compreende como representatividade face às diferenças de interesse e de grupos. É também garantir que as pessoas se sintam representadas dentro da esfera de poder. O debate sobre como isso deve ser feito pode levar a vários caminhos, como é possível notar pelas diferentes falas dos entrevistados desta reportagem.

O debate abrange o questionamento acerca da legitimidade de homens representarem mulheres. Nilson Riberio, liderança do PMB, explica que a ideia do partido é ter uma política voltada às mulheres, com espaço de participação dado a elas, mas essa representação pode ser feita por homens.

Já Josiane Kieras coloca a necessidade de que a mulher se posicione, mas não somente mulheres, como também outros grupos incluídos nas chamadas minorias em geral. “As mulheres precisam se posicionar de forma incisiva, se precisar queimar sutiã de novo [o episódio conhecido com Bra-Burning, ou em português ‘a queima dos sutiãs’, foi um protesto com cerca de 400 ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) na realização do concurso de Miss America em 7 de setembro de 1968, em Atlantic City, EUA], vamos queimar. Parece que Ponta Grossa não conhece essa história dos sutiãs queimados. E então, se for preciso, faremos novamente”, ressalta.

Entenda o contraponto do debate sobre homens representando mulheres a partir da visão de Josiane Kieras. Ouça na entrevista a seguir:

Mulher mãe x Mulher política

A sociedade atual exige da mulher um acúmulo de atividades: ser mãe, profissional e esposa. Essa multiplicidade de papéis é apontada como uma das razões pelas quais algumas mulheres preferem não participar da vida política. É o que entende Diego Santos. “A mulher é uma figura familiar ainda mais forte e presente que o homem. Ao entrar na política, essas imagens automaticamente se confundem”, defende.

Por entender que essa multiplicidade de papéis existe, Rosélia possui um trabalho voltado à conscientização, engajamento e apoio às mulheres que procuram formas de conciliar todas essas funções. Ela pretende, dessa forma, garantir o interesse feminino no envolvimento político direto.

A família se mostra a base da mulher que entende e busca a política. Por vezes, é onde se tem o primeiro contato e, por vezes, é onde o público feminino encontra razões para fazer mais do que apenas não concordar com os padrões machistas da sociedade. Josiane Kieras descreve que foi assim que se engajou e buscou, na política, um espaço para a luta por várias causas. Entre elas, a luta LGBT.

A expectativa para as eleições de 2016 é de que mais mulheres consigam ocupar a Câmara.

Arquivo:
09/11/2015: MCCE Ponta Grossa coleta assinaturas em prol da reforma política democrática e de eleições limpas
02/10/2014: Mulheres ainda têm pouca participação em eleições no Paraná

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