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Luciana Gimovski já trabalhou na instituição Irmãos Cavanis e hoje trabalha no Núcleo Promocional Pequeno Anjo

certooooooooooooLuciana em seu horário de trabalho no Pequeno Anjo

Por Marina Semensati

Conheci Luciana Gimovski há mais ou menos um mês. Comecei a fazer trabalho voluntário no Núcleo Promocional Pequeno Anjo, e ela é uma das “tias” da brinquedoteca. Já de cara, percebi o quão honesta e dedicada ela é.

 

A “Lu”, como eu gosto de chamar, faz parte de uma família grande. Tadeu, Eugênio, Ambrózio, Marciano, Maria, Cecília, Teófila, Dionízio e Bernadete são os nomes de seus nove irmãos. Ela nasceu, em 1962, em Matão, no interior de Prudentópolis, aqui no Paraná.

Infância

Vinda de uma família muito carente, desde os 8 anos ajudava nas atividades em casa, como tirar leite da vaca, cuidar dos animais, cuidar dos irmãos mais novos e demais tarefas domésticas. Mas é claro que também tinha tempo para brincar.

“Eu lembro bem que eu brincava muito de casinha. A gente brincava de médico e, hoje, você sabe como é brincar de médico... A gente também brincava de cozinhar, lavar, e a gente brincava todos os primos juntos”.

Um ponto muito lembrado por Luciana é sobre a ingenuidade que era presente em sua infância, não tinha malícia. Como tem muitos irmãos, os intervalos de uma gravidez para outra eram curtos, e como ela mesmo me disse, eles não queriam saber de onde vinham os bebês e nem como, era só felicidade por ter mais um membro na família.

A avó materna, Maria Hamulak, foi quem fez todos os partos de sua mãe, Tereza Burko. Maria morava um pouco longe da casa da família e o pai de Luciana, Paulo Burko, sempre ia buscar sua avó de carroça. “Quando a mãe ia ganhar bebê, o pai mandava a gente ir na casa dos primos ficar lá. O pai falava que ia buscar o bebê lá no banhado (rio), imagine! Não era nem cegonha na época. Só que daí, quando a gente chegava, já tinha criança nascida”.

Antigamente, o respeito dos filhos pelos pais era muito mais forte, era difícil alguém sair da linha, mas quando aprontava... Você conhece “rabo de tatu”? É um rabo de couro de boi, na ponta é bem desfiado e o resto era trançado. E era isso que o pai de Luciana usava para dar uma lição em quem fazia coisa errada.

“Quando a gente desobedecia o pai, a gente fugia pro mato e ele não ia atrás. No fim da tarde, quando estava escurecendo a gente já vinha trazendo um monte de lenha cortadinha ou já ia guardando as galinhas, catando ovo. E, mesmo assim. apanhava”

Juventude

Com 15 anos. a família se mudou para Cascavel para cuidar de uma fazenda. Eles viajaram só com a roupa do corpo, sem mais nada de bagagem. Isso porque quando ainda moravam em Prudentópolis, seu pai tinha tudo ligado ao banco, coisas do trabalho e vida social que envolviam dinheiro, e o mesmo tomou posse de todos os bens da família.

Por ser menina, Luciana não tinha tanta liberdade como os irmãos. “Minha juventude teve muitos limites. O que eu lembro é que eu tinha umas revoltas. Antigamente, tinha festas nas igrejas e, pra eu sair, era só com meus irmãos, porque o pai não deixava eu ir sozinha”.

Mesmo o pai sendo rígido, foi ele quem mais passou lições de vida para ela e para o restante da família. Paulo Burke foi um lavrador, sempre trabalhou na roça e, infelizmente, faleceu há 22 anos.

“A gente era muito pobre mesmo! A gente não tinha bens materiais, mas o que ele passou, a herança que ele deixou, foram os valores pra vida, a união. Você nunca pode desistir dos seus sonhos, mesmo você não tendo nada, você tem que correr atrás.”

Eu acho que é daí que vem o caráter de minha colega de trabalho. É incrível como ela menciona o seu Paulo, e o respeito e admiração que sente por ele. Às vezes, até lhe faltam palavras. Dele parece vir a compreensão de que ajudar o próximo é muito importante como uma lição levada para a vida. Afinal, há sempre alguém em uma situação pior a nossa.

Depois de aposentado, o pai de Luciana recebia, em média, um salário mínimo. E sempre que o pagamento chegava, ele já separava uma quantia para comprar balas, bolachas, pipoca e bananas para as crianças. E não era só para seus filhos, mas também para as crianças da rua. No caminho de volta para casa, já distribuía os doces.

Com 17 anos, ela voltou para Prudentópolis e, até os 28 anos, morou no Colégio Interno, enquanto estudava. Após esse período, se mudou para Ponta Grossa e morou, por muito tempo, no Pensionato Santa Olga.

Casal

Luciana sempre gostou muito de catequese até que um dia se tornou catequista e foi dar aulas para crianças e jovens na cidade de Wenceslau Braz, e foi lá que conheceu Mariano, seu marido.

“Foi amor à primeira vista! Como eu nunca tive aquele negócio do namoro, eu era bem ‘reservadona’ assim. Sabe quando você olha... Eu olhei pro Mariano e ele olhou pra mim.”

Depois que se conheceram, os dois ficaram seis anos sem se ver e sem se falar, até que se reencontraram, por acaso, numa festa que teve na mesma cidade em que se conheceram. O casal namorou por seis meses e casou. A cerimônia foi num sítio, com cerca de 400 convidados e com direito a um banquete com dois bois, 50 galinhas e cinco porcos.

Luciana e Mariano têm dois filhos: Mariele, de 18 anos, e Maurício, de 20. Em busca de compartilhar todas as coisas que aprendeu com seu pai, Lu sempre ensinou seu filhos sobre a vida desde cedo.

“Eles começaram a trabalhar com 14 anos, como menor aprendiz, e trabalham até hoje. Eu falo: trabalho não mata ninguém! A Mariele trabalha numa corretora e o Maurício na empresa do meu irmão. Eu acho que consegui passar um pouco pra eles do que meu pai passou pra mim.”

Religião

Quando era criança, Luciana e sua família moravam a 13 quilômetros da igreja, em Prudentópolis. Todo domingo, eles seguiam a pé, saindo às cinco horas da madrugada e retornando pra casa por volta das duas horas da tarde. “Uma coisa que eu prezo muito é a religião. A gente morava longe da igreja. Não tínhamos calçado, era só Conga que a gente ganhava, uma vez por ano. E pra não estragar o Conga, a gente ia descalço”.

O procedimento passado pelo pai era claro. Ele deixava um pano dentro da Conga e as crianças deveriam lavar os pés na lagoa, secar e vestir o calçado antes de entrar na igreja.

Outro fato que fazia parte da rotina, aos domingos, era passar na casa da avó depois da missa. “Ela fazia pão de forno, pão de centeio, naquelas formas grandes. Cortava o pão, passava banha e colocava açúcar em cima. Terminava a missa dez horas da manhã e a gente tava morrendo de fome. Era uma delícia!”

Lu também tinha o costume de rezar o terço todo dia. Então, desde pequena, a religião esteve presente em sua vida.

Profissão

Luciana fez magistério e três anos de um curso para ser professora da pré-escola. Deu início ao curso de Pedagogia por três vezes, mas sempre interrompia. Agora, está no terceiro ano do curso de Pedagogia na Cesumar.

Seu primeiro trabalho na área foi em uma escola particular, que hoje em dia não existe mais. Ficou lá por três anos. Pediu as contas porque conseguiu um trabalho no Irmãos Cavanis. “Fui fazer a entrevista às 11 horas e o Padre Guilherme que me contratou. Disse que precisava de uma professora para aquele dia, às 13 horas. Eu só pedi um dia para pedir as contas no outro emprego e comecei.”

Em seu primeiro dia de trabalho, ficou responsável por uma turma de 35 alunos. E reforça que foi através dos desafios e dos tombos que aprendeu tanta coisa com seu trabalho. Luciana se identifica muito com trabalhos sociais, com crianças carentes, que precisam de ajuda.

Aprendeu muitas coisas com o Padre Guilherme, como ética de trabalho, organização, respeito e pontualidade. “Um dia eu atrasei pro trabalho. Eu morava lá no Santa Paula. Pra ir lá na Cipa é uma viagem de ônibus, e sete e trinta era o meu horário. O padre pegava uma bíblia e ficava andando pra lá e pra cá enquanto as crianças tomavam café. Quando eu cheguei no portão e vi o padre, eu falei ‘bom dia’ e ele só apontou pro relógio.”

Lu permaneceu 21 anos na instituição, 18 anos como professora dentro da sala de aula e os outros três na coordenação. Acabou pedindo as contas pelo desgaste do relacionamento no ambiente de trabalho e por atitudes com com as quais não concordava resultantes da mudança de direção e de outros fatores.

“Eu sou muito transparente e gosto das coisas muito certas, sabe? Quando eu saí do Cavanis, eu falei pra Deus me colocar onde ele achava que eu precisava ficar. Eu fiquei seis meses no seguro e vim pro Pequeno Anjo, que é uma missão bem complicada. Eu gosto de coisa difícil, o fácil todo mundo faz.”

Agora, faz 10 meses que Luciana trabalha no Núcleo Promocional Pequeno Anjo, e um mês que a conheço. Uma mulher apaixonada pelas coisas simples da vida, apaixonada pela família e apaixonada pela profissão.

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