Secretaria Municipal de Serviços Públicos alega a existência de residências em área ambiental

Após dias seguidos de chuvas, a Vila Cipa enfrentou, neste início de ano, o problema do alagamento de casas. Moradores alegam que presença de arroios entupidos foi a principal causa para que isso acontecesse. 

 

Dona Maria de Melo, moradora da região com 60 anos, conta que sempre viveu na Vila e nunca viu algo tão forte assim. "Outra vez que eu morava mais no fundo, foi feio também, mas pra cá nunca pegava enchente, e, agora, pegou. O arroio está todo entupido e não tem pra onde a água escorrer, aí vem tudo pra cá", destaca Dona Maria. 

Além disso, ela relata que tem uma valeta que desce das casas de cima e, quando estoura, a enxurrada cai em frente a sua casa. "Vem tudo pra cá. Aí entra água de dois lados. Dessa vez, foi muito corrido, a água entrou lá dentro. Tivemos que sair correndo junto com minha sobrinha e as crianças dela".

Dona Maria que já foi inscrita, pela Defesa Civil, no cadastro de moradia popular da Prolar, mas ela nunca foi chamada. "Não me deram casa, não me deram nada. Daí, agora, estou eu, aqui, com as menininhas da minha sobrinha, que não tinham onde morar e eu arrumei um cantinho pra elas".

Simone Senger mora há 5 anos na região e foi uma das moradoras mais afetadas pela enchente. "Ainda não perdi muita coisa, mas os móveis de madeira estão todos inchados, uma hora vai ceder. E não deu tempo de tirar nada, era tanta água que, nem se eu colocasse em cima da casa, não ia adiantar. Tivemos que fazer um furo no muro da casa para a água poder sair", revela.

A moradora conta que a água quase chegou no joelho, entrando na casa toda. "E no outro dia fez uma chuvinha e alagou tudo de novo”, relata. “Ninguém cuida. Isso é pelo lixo que jogam e aí vem de tudo de lá de cima e caiu tudo aqui. Aí a água, que não tem pra onde ir, sobe e alaga tudo", queixa-se.

Simone conta que, em certas casas, as moradoras, para limpar a casa, tiveram que entrar na rede de escoamento do esgoto para limpar e, então, conseguir escorrer a água. O problema seria provocada pela própria população. "Eles vem pelo mato e despejam tudo aí, no esgoto essa lixarada", comenta destacando que havia muito lixo de grande porte no esgoto.

A moradora Jessica conta que dentro da sua casa não chegou a alagar mas mostra pelas fotos a frente da sua casa alagada. (Fotos enviadas por Jessica)

Jessica Santos, que há 4 anos mora na região, conta que não entrou muita água em sua casa porque ela e os familiares conseguiram tirar a água a tempo. "Não estava enchendo tanto assim, mas agora está direto”, avalia. Para ela, o problema tem origem no terreno ao lado, de onde vem água e pelos bueiros estão todos entupidos.

O secretário da Secretaria Municipal de Serviços Públicos, Márcio Ferreira argumenta que a maioria das casas estão em área ambiental, onde não poderiam ser construídas. "Nenhuma residência pode ser construída a menos de 30 metros de distância de arroios com mais de 5 metros de largura, que é o caso ali”, descreve.

Márcio relata que esse foi o mês de Janeiro mais chuvoso nos últimos 15 anos e que por esses motivos houve alagamento. “Choveu 200 milímetros em duas horas. É mais do que chove, geralmente, em uma semana inteira", revela.

Boa parte das ruas em que as casas foram alagadas é de terra. Sobre a construção do asfalto, Márcio alega que não estão conseguindo alcançar o índice necessário para a reforma.

"As ruas não estão em péssimas condições. O problema é que são ruas de terra e passamos por lá e fizemos galerias em 90% das ruas. Agora o asfalto ele deve ser adquirido por até 60% das pessoas que moram nessas ruas. Nós não estamos conseguindo obter esse índice para que seja feito o asfalto", completa.

Ao fim da Vila Cipa, as ruas seguem sem asfalto. As moradoras alertam para a água parada que pode ocasionar doenças e reproduzir o vírus da dengue.

O lixo despejado no arroio, como explica o secretário, seria despejado pela própria população. "Nós retiramos a vegetação que está em torno do arroio e o entulho”, destaca. “Então, sofás, geladeiras, televisores, material de construção civil, tudo isso faz com que os arroios sejam sufocados e não dê vazão para a água da chuva. O que acontece? Inundação", analisa.

Márcio diz que é preciso fazer uma campanha educativa, informativa e ambiental em que todos participem, tanto o poder público como os moradores da região. "Só assim nós vamos conseguir resolver esse problema. Através da Defesa Civil, nós estamos fazendo cadastro das pessoas que estão nas áreas ambientais. Todas elas serão remanejadas para casas da Prolar", compromete-se.

O secretário ainda relata que a Defesa Civil já iniciou os trabalhos de coleta de dados com cada morador.

Associação de Moradores da Vila Cipa

Durante os dias de semana, costuma acontecer bazar na sede. O espaço é cedido aos moradores, através da locação, para aniversários também.

Jean Ribeiro, vice-presidente da Associação de Moradores da Vila Cipa que não tem fins lucrativos, conta que a entidade tem promovido ações progressivas para melhoria dos problemas. Junto ao presidente, ele tem aplicado o dinheiro arrecadado, através da locação da sede, um espaço da associação, para a melhoria das condições ambientais da região.

"O dinheiro arrecadado é do bazar e da locação. Há dois anos, quando eu peguei a administração, se você olhasse isso aqui, você ficava pasmo. Não tinha piso, as paredes estavam sujas e tudo estava quebrado. Não havia iluminação. Tinha que arrumar um monte de coisa e estava cheio de mato em volta. Aí a gente foi arrumando".

Jean relata o trabalho de melhoria da praça que estava abandonada. O dinheiro que entrava também era usado para o corte do mato, limpeza e preservação do parque. O vice-presidente descreve que está em negociação para resolver, junto à prefeitura, o problema do campo de futebol que o poder público iniciou a obra para transformá-lo em quadra society, mas não concluiu. Jean diz que está para marcar uma reunião com o Marcelo Rangel para tratar dessa questão.

O vice relata que trabalha e não é fácil estar à frente de uma Associação. "É coisa que é mais na boa vontade do que uma coisa assumida. Você não está ganhando pra isso, sendo remunerado. Você está fazendo por ajuda e amor ao bairro", queixa-se. Jean considera uma grande conquista ter um posto de saúde na região, mas que esse é apenas o começo.

Sobre os planos futuros, Jean comenta sobre o asfalto que foi colocado em muitos lugares, mas que ainda não foi terminado. "Foi colocado asfalto em vários lugares aqui no bairro, só que muitas ruas secundárias, estradas de chão, ficaram sem. Daí não passou mais a máquina e ficou muito mato lateral e muito buraco”, descreve, relatando que este problema foi agravado pelo excesso de chuva. “O final da Vila Cipa é muito precário e o principal apelo dos moradores é pela continuação do asfalto nas ruas", aponta.

Jean conta que a prefeitura demarcou os locais que não eram para construir casa, justamente pelo arroio que tem. "Aí alaga, como aconteceu. Mas a prefeitura fez a parte dela. O pessoal já sabia que não podia construir as casas", conta.

O vice-presidente diz receber ligações e mensagens dos moradores sobre várias questões, mas que faz o que pode. "Fiz pedidos, ofícios para arrumar ruas e para colocar sinalização. Só que eles falaram que já tem aprovado para arrumar até um determinado ponto e que, para além disso, não é permitido e eles não vão podem arrumar. E tem coisas que demoram, Pedi faz tempo, mas devagarzinho vamos arrumando", finaliza.

*O vídeo foi gravado pela moradora Simone Senger e disponibilizado por ela.

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