No bairro Orfãs, a prática é uma tradição compartilhada por gerações de famílias

Dona Natália mostra manjericão que havia acabado de trocar com vizinha

 

Órfãs, bairro distante apenas dois quilômetros do Centro de Ponta Grossa, preserva um estilo de vida bucólico. A horta urbana está entre as tradições cultivadas por famílias que, em sua maioria, moram na região há mais de uma geração. O cultivo de produtos orgânicos em zona urbana é facilitado pelo fato de muitos imóveis serem residências com cara de “casa de vó”, muitas delas com espaço para canteiros.


A horta urbana tem se tornado não só uma forma de manter tradições perdidas, mas também de promoção de hábitos saudáveis no espaço das cidades. As zonas urbanas são caracterizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como o espaço da cidade no qual há existência contínua de residências e infraestrutura, como esgoto e energia elétrica.

Natália Schechinski, 92 anos, mora no bairro há mais de 50 anos. Ela possui duas casas no bairro, uma na qual reside e outra que é alugada. Em ambas, há horta com verduras, ervas, frutas e leguminosas. Antes de morar em Ponta Grossa, ela morou em um sítio em Imbituva, região Centro-Sul do Paraná, onde ela trabalhava com agricultura, em plantações de milho.

Quando se mudou para a cidade, a ex-agricultora conta que sentiu muita falta de “lidar com a terra”. “Aí eu fui plantando cebolinha, salsinha, pimenta. Hoje em dia, tenho coisas mais exóticas como batata, cará, batata doce, jiló e maracujá”. Dona Natália, como é conhecida no bairro, virou uma referência quando o assunto é horta. Frequentemente vizinhos e amigos passam para tomar um café e trocar ou pedir mudas.

Wanda Krieger, 62 anos, enfermeira aposentada, possui uma variedade de ervas medicinais em canteiro mantido na própria residência. Nesse espaço, ela possui árvores frutíferas, como romã, caqui e um pessegueiro, e verduras, como alface e couve.

A moradora do Órfãs conta que a troca de mudas em sua rua é frequente. “Eu sempre estou trocando mudas com a Dona Sônia ou doando para os meus filhos, pois ter uma hortinha em casa já virou tradição de família”.

A tradição atravessou gerações e chegou aos netos de Dona Wanda. “Quando algum deles está com dor de estômago, eles pedem por um chá de boldo. Quando estão com dor de cabeça, pedem por uma chá de camomila e assim por diante”, conta Wanda.

Segundo o Ministério da Agricultura, o consumo de orgânicos cresceu 51,7% no ano de 2015. A produção orgânica tem por base um cultivo que adota práticas como o uso responsável do solo, da água, do ar e da biodiversidade local. Esse sistema possibilita tanto um cultivo para fins de uso pessoal, em propriedades urbanas, quanto o de grande escala, em áreas rurais. É o que explica o estudante de agronomia da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ruan Gustavo Kobay, para quem verifica-se, atualmente, uma tendência de expansão desse segmento no mercado.

A estudante de agronomia na Universidade Estadual de Ponta Grossa, Patrícia Godoy Gravonski, explica que é viável a o cultivo de orgânicos em hortas urbanas. O interesse pelo tema levou a aluna a se integrar ao projeto de extensão do curso de agronomia “Comércio Justo” que promove a venda através da troca de sacolas retornáveis cheias de alimentos orgânicos.

Patrícia destaca algumas vantagens do cultivo orgânico que traz benefícios para a saúde humana, para o meio ambiente e para a conservação das espécies. “É mais barato e fácil encontrar itens para o cultivo orgânico”, conclui.

 

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