O nascimento de um bairro

Dona Natália, a quase centenária que assistiu ao nascimento do bairro Orfãs


Natália Schechinski viu o Orfãs crescer e se desenvolver. Uma das moradoras mais antigas do bairro, ela herdou, em 1955, dos pais alguns imóveis. Para ela, um dos marcos do crescimento da região foi a inauguração, no ano seguinte, da Escola Estadual Catarina Miró.

O bairro, que surgiu e cresceu no entorno da Igreja São José, teve como primeiro morador Amásio Buffon. O bairro é localizado em um importante local na cidade, pois conecta bairros mais distantes ao Centro. Ele mantém seu aspecto residencial mesmo sendo afastado apenas dois quilômetros do Centro.

A Igreja São José permanece como uma instituição muito forte no bairro. Sua fundação tem relação com a chegada dos Missionários Redentoristas a Ponta Grossa, em 1934. Os religiosos tinham como missão realizar trabalhos de evangelização no Município. O primeiro espaço utilizados por eles para reunir os fiéis foi a capela do Asilo São Vicente de Paula, chamada capela do Espírito Santo e localizada na divisa do Centro e do bairro Orfãs.

Em 4 de novembro de 1936 foi criada por Dom Antonio Mazzarotto a Paróquia São José, desmembrada da Paróquia Sant’Ana que, até então, era a única paróquia da cidade. Somente 1938, foi iniciada a construção da Igreja São José.

Hoje em dia, além das tradicionais missas de domingo e novenas das quartas-feiras, existem cursos para a comunidade, como carpintaria. Há o Clube de mães onde são confeccionados artesanatos e organizados bazares. O espaço para lazer inclui ainda ginástica. Há também a prestação de serviços de assistência social para a comunidade carente, abrangendo a Vila Catarina Miró e a Vila Margarida.

A farmácia social da instituição de ensino Cescage também também integra o espaço da igreja. Nela, remédios são distribuídos gratuitamente com a exigência de apresentação de receita e comprovante de renda de até dois salários mínimos.


Tempos modernos

O nome do bairro é proveniente de um rumor. Conta-se que, no início do povoamento da região, um casal, com três filhas, era dono da maior parte do que hoje é a área compreendida pelo bairro. A mãe veio a falecer entristecendo a cidade e deixando a região conhecida como “próximo à casa das Órfãs”, conta Natália.

Natália Schechinski, 92 anos, reside há mais de 50 no bairro Orfãs, em Ponta Grossa. A moradora é neta de imigrantes poloneses. Ela nasceu em um sítio em Imbituva, região Centro-Sul do Paraná, onde trabalhou como agricultora, em plantações de milho, durante boa parte de sua vida. Há as duas grandes guerras, tendo presenciado boa parte da revolução tecnológica que marcou o século XX.

Em sua casa, possui uma televisão de 29 polegadas, modelo comercializado nos anos 90. A televisão está conectada a uma antena parabólica que, em cima de seu telhado, treme com os típicos ventos de Ponta Grossa. Conheço Natália desde 2010, somos vizinhas de muro. Em nenhum momento, vi a televisão ligada. Entretanto, Dona Natália liga pontualmente às seis horas da tarde o rádio. Sintonizada na Rádio, Sant’Ana, ela escuta a Ave Maria.

O rádio rege o cronograma do dia de Dona Natália. Quando acorda ela escuta as ocorrências policiais e os óbitos. Foi assim que, recentemente, ela soube que sua irmã mais nova havia falecido. Ao relembrar desse momento, uma lágrima escorre de seus olhos azuis anil, entre os caminhos cavados pelas rugas do tempo, em sua pele bronzeada. Mas ela logo muda de assunto.

- Aos 80 anos, não consegui mais caminhar sozinha até a igreja. Mesmo sem ir à missa contribuo com o dízimo, mensalmente, e recebo a “santinha” da Capela de Santa Catarina.

A comunidade da Capela Santa Catarina foi fundada no dia 28 de fevereiro de 1983. Ela surgiu de um movimento de oração que tinha por base o terço em família e as novenas de Natal e de Páscoa. O grupo fundador pertencia à Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, comunidade da qual, até hoje, ela faz parte, contribuindo com o dizimo e com a “santinha”.

Dona Natália é contemporânea desse marco, apesar de ter frequentado a Igreja São José antes da existência da capelinha.

Proprietária de duas casas no bairro, uma na qual reside e outra que é alugada, em ambas, ela cultiva horta com verduras, ervas, frutas e leguminosas. Apesar dos hábitos bucólicos, Natália sempre foi uma mulher à frente de seu tempo. Uma negociante.

Até muito recentemente, cuidava sozinha do dinheiro dos aluguéis de sua casa.

- Eu recebia os aluguéis, mas isso começou a ficar trabalhoso para mim. Agora a Bete, minha sobrinha, que recebe, faz compras e paga as contas da casa.

 

Hortas Urbanas

Natália mostra os tomates de sua horta pessoal

Quando se mudou para a cidade, a ex-agricultora conta que sentiu muita falta de “lidar com a terra”. Apesar de já ter deixado de fazer algumas atividades, o cuidado com a sua horta é algo que Dona Natália não pretende largar.

- Aí, eu fui plantando cebolinha, salsinha, pimenta. Hoje em dia, tenho coisas diferentes como batata, cará, batata doce, jiló e maracujá. Todo dia, como muitas frutas e utilizo as cascas em um sistema de compostagem de frutas e serragem, que a serralheria do bairro, na rua Julia Lopes, traz até a minha casa.

Dona Natália, como é conhecida no bairro, virou uma referência quando o assunto é horta. Frequentemente vizinhos e amigos passam para tomar um café e trocar ou pedir mudas. Até mesmo os jovens do bairro vêm até sua casa para trocar mudas e pedir dicas sobre hortas urbanas.

Quanto à saúde, apesar de sua idade, Natália apresenta apenas hipertensão e diabetes, ambas controladas apenas pelo uso de medicamentos. Também pudera, sua alimentação é essencialmente saudável e orgânica.

- Antes frequentava o postinho do bairro [Unidade de Saúde Antônio Russo]. Agora só vou até lá tomar minhas vacinas. Quando preciso, minha sobrinha me leva até o hospital, mas minha saúde é muito boa.

A unidade de saúde foi inaugurada nos anos 80. Hoje, ela é responsável pela vacinação, consultas obstétricas, pediátricas, clínica geral e odontologia básica. Além disso, é referência em acompanhamento pré-natal, pesagem infantil e exames laboratoriais.

Às vezes, a sobrinha pergunta se ela não está com vontade de comer algo diferente, mas ela responde que gosta mesmo é de comida caseira, “coisa simples”, diz ela.

Ela se alimenta de pelo menos cinco frutas ao dia e gosta de comidas que ela chama de “da roça”, como quirera, sopa de frango caipira, farofa de ovo de suas próprias galinhas, virado de feijão e, seus preferidos, pastel de carne e pirogue.

A grande maioria dos moradores antigos do bairro são de filhos ou netos de poloneses, a tradição de comer pirogue e criar galinhas é algo muito comum no bairro.

Minha casa divide muro com a casa de Natália e a minha wifi funciona lá. Durante minhas entrevistas, eu levava o notebook e utilizava a internet em sua frente. Creio que esse foi o primeiro contato dela com a internet e expliquei como funcionava. Mostrei alguns sites de notícias e o Facebook de alguns de seus familiares. Mas na cabeça de Dona Natália computador serve unicamente para trabalho. Não tendo visto muita graça, logo, voltou-se para as atividades rotineiras.

O imóvel , que está na Rua Espírito Santo, é a típica casa de vó, mesmo que Natália não tenha tido filhos e netos. A casa, que tem estrutura baixa, é cercada de flores e conta com um galinheiro nos fundos. O clima é muito aconchegante. Quando na entrada, fui transportada para uma outra época, pela ambientação e pelo som do rádio tocando um bolero. Reconheci que havia cometido um equívoco ao levar o notebook que contaminava a aura simples do local, misturando diferentes tempos.

Realmente à frente de seu tempo, Natália casou-se numa idade mais madura. Aos quarenta e seis anos, a irmã Catarina a apresentou a Adão Voight.
– Casei apenas no religioso. Não queria mudar meu sobrenome. Quando me casei, meu marido já era viúvo da primeira esposa. Então, não fiquei com nada da herança, exceto a pensão.”

- Como escreve Voight Dona Natália?

- Tanto faz, só sei que se pronuncia Voit em polonês.

A senhora conta que, quando se casou com o Adão, eles foram morar na Vila Marina, próximo ao cemitério São João. Lá eles moravam em um lote equivalente a uma quadra.

- Eu plantava de tudo e vendia hortaliças para a vizinhança. Mas depois voltamos a morar aqui, na Catarina Miró - esse é o local onde Natália cultiva até hoje frutas,verduras e hortaliças.

Dona Natália, com memória debilitada pela idade, não se lembra, com exatidão, com quantos anos Adão morreu. A lembrança é de que viveu um casamento boêmio, onde os dois saíam juntos para dançar, bebiam e jogavam cartas. “Não foi um tempo de mil maravilhas”, se lembra relatando as constantes brigas. Conta, no entanto, que Adão era um homem generoso que não deixava nada faltar em casa.

Gosto de pensar na Dona Natália como uma mulher contemporânea à evolução dos meios de comunicação e da comunicação social. Pequenos detalhes em sua vida são intimamente relacionados aos avanços que ocorreram junto com os métodos de difusão.

Acompanho de perto como ela vai redescobrindo a existência do WhatsApp. Certo dia, eu e minha mãe estávamos na casa dela, quando ela mencionou que queria conversar com a Bete:

- Eu mandei uma mensagem para a sua sobrinha Natália.

- Ué, mas como você entregou se não saiu daqui?

Mostrei o aplicativo para Natália e, ao ver meu celular em mãos, ela perguntou o que era a “bolinha na frente”. Expliquei que era a câmera frontal. Então, Natália e eu tiramos uma selfie, a primeira de sua vida.

 A primeira Selfie da vida de Dona Natália


Isso foi no final de 2016, na véspera de Natal, dia em que ela me contou que nunca tinha celebrado o próprio aniversário. Ela faz aniversário no dia 12 de janeiro. Então, um pouco antes da data, neste ano, seus familiares planejaram uma festa, aos 92 anos.

- No sítio, o aniversário era um dia comum. Nunca comemorei, não por falta de recurso, mas por ser um costume. Acostumei, agora, que vivo na cidade.
Apesar de morar sozinha a casa de Natália sempre está cheia de visitas. Todos, no bairro, a conhecem. Dizem que ela já foi uma pessoa mais dura.

Porém, hoje em dia, ela é reconhecida como sábia e doce. Mais de uma vez por semana, sua sobrinha Bete a visita, tornando-se, dessa forma, a pessoa mais constante na vida dela. A parente a leva a visitas médicas, ao banco, faz as compras de mercado e paga as contas da casa.

Muitas vezes, Natália é impelida pelas memórias do passado e fica nostálgica. Imagine a dimensão da nostalgia de alguém com 92 anos. Em alguns momentos, a saudade é tão esmagadora que o olhar azul anil fica distante e acinzentado.

- É difícil pensar que só sobrou eu dos meus familiares dos irmãos e da mamãe e do papai, mas aceito. É a vontade de Deus.

Com a memória falha, em alguns momentos, chega a dizer que vai visitar Catarina, a irmã que morava na mesma quadra do bairro Orfãs. Porém, a parente faleceu ano passado. Quando acometida por essa recordação Natália se fecha em casa.

Ela aceita a morte como algo triste de ser sentido pelos vivos, mas como algo muito natural.

- Eu quero ter uma morte tranquila e não dar trabalho aos outros. Quando morrer quero ser sepultada com papai e mamãe, no cemitério de Imbituva. Nós temos túmulo lá.

Na última página de sua obra mais famosa, O Grande Gatsby, Francis Scott Fitzgerald fala sobre como tentamos alcançar o futuro mas somos constantemente bombardeados pelo passado. Gatsby acreditava no futuro orgiástico que, embora se afaste, ano em ano, de nossos olhos, isso não importa.

“Amanhã correremos mais depressa e esticaremos nossos braços um pouco mais além... Até que em uma bela manhã… É assim que todos nós deslizamos, barcos contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado.”

Certa vez um querido professor citou a frase de Carl Sagan, cientista, astrônomo, astrofísico e escritor: “Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você”.

Essa frase exprime como eu me sinto em relação a Dona Natália, mesmo com uma diferença de 68 anos e com a dureza de quem já viu o mundo mudar tantas vezes, Natália Schechinski é dona de uma simplicidade enorme e de uma sabedoria imensa.

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