"Não tenho certeza de quando começou. Me sentia triste há muito tempo, mas achava que era normal. Muitas coisas na minha vida não estavam exatamente como eu queria, então deduzi que era uma situação comum. Acontece que foi ficando cada vez mais insuportável. É uma sensação engraçada quando você percebe que não consegue mais levantar da cama. É um cansaço físico real. Não importa quanto tempo você passe descansando, é um cansaço que não passa. Um sentimento que vai te deixando cada vez mais impotente, sem forças pra fazer absolutamente nada. As pessoas falam para você sair, se exercitar, tomar sol, que isso passa, é só um estado letárgico, preguiça. Mas não. É uma força absurda, que te prende e impede de sentir qualquer coisa boa. Tudo perde o significado. Parece que você está vazio. Quando fui diagnosticado com depressão, minha psiquiatra disse que o quadro estava se formando há mais de um ano e que, se eu não tivesse deixado chegar naquele estágio, as coisas teriam sido diferentes.

Tentei me matar quatro vezes em menos de um mês. Tomei uma caixa inteira dos meus remédios de tratamento. Tentei me afogar. Tentei me cortar.
A falta de perspectiva de melhora deixa você completamente perdido. É o auge de “eu não aguento mais”. Eu me sentia a pessoa mais ingrata do mundo por ver todo aquele esforço, todas aquelas pessoas tentando me ajudar, e não conseguir dar um mínimo retorno. Ficava cada vez pior. Cada tentativa era mais um passo para o fundo."

 


800 mil pessoas morrem por ano vítimas de uma doença invisível no mundo. Uma morte a cada 40 segundos. Esses são dados da Organização Mundial da Saúde sobre os casos de suicídio, situação onde a pessoa tira a própria vida motivada pelas mais diversas circunstâncias.

O Setembro Amarelo chegou no Brasil em 2014, dando luz à essa questão extremamente importante e ainda alvo de tabus. Trazido para cá pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), a campanha tem duração de 30 dias, porém, o enfoque está no dia 10 do mês de setembro, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Mais de 10.600 pessoas tiraram a própria vida no ano de 2014 no Brasil, cerca de 32 por dia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o país ocupa a 8ª posição no ranking mundial de suicídios. O Rio Grande do Sul é o estado recordista em casos no país. A cada dia, aproximadamente 3 pessoas cometem suicídio no estado.

O dado é alarmante e traz à tona outro fato: o suicídio tem matado mais jovens no mundo do que o vírus do HIV, sendo a segunda maior causa de mortes na faixa etária de 15 aos 29 anos, ficando atrás apenas de acidentes de trânsito.

 

Causas



De acordo com uma pesquisa realizada pela Comissão de Combate ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, cerca de 90% dos suicidas possuem algum tipo de doença psiquiátrica. Porém, não podemos generalizar. Nem todas as pessoas que cometem suicídio sofrem de algum distúrbio mental.

"É um ato intencional onde se acaba com a própria vida. Sua causa mais comum é a ocorrência de transtornos mentais como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e uso de substâncias como álcool e drogas", afirma a psicóloga Camila da Silva.


Sinais
Quem convive com essas pessoas, sejam colegas de trabalho, família, ou amigos, são os que podem com mais facilidade perceber os sinais que alguém que está prestes a desistir da própria vida pode dar. A psicóloga Camila listou alguns:
- Isolamento social;
- Aumento no consumo de medicamentos, álcool e outras drogas;
- Comportamentos de risco como agressividade, irritação, choro fácil, impulsividade, ansiedade etc;
- Desapego de bens materiais ou organização (abrir contas, fazer seguro);
- Sono e apetite desregulados;
- Desesperança, pessimismo;
- Falas e pensamentos sobre morte;
- Sentimento de inutilidade.

Além dos sinais, outro fator que precisa ser esclarecido é o dos mitos que cercam o assunto. Não se trata de ‘coisa de louco’, nem de ‘não querer se ajudar’. A desconstrução do tabu que cerca o assunto é fundamental para que o problema seja tratado.

Alguns dos mitos mais comuns:

- 'Quem fala que vai se matar, fala só para se aparecer'. Todas as ameaças de se fazer mal, devem ser levadas muito a sério.

- 'Quem tenta uma vez, não tenta mais'. Na realidade, o período mais perigoso é o depois da tentativa, pois é quando a pessoa está ainda mais fragilizada e frustrada, portanto, continua em risco.

- 'O suicídio é sempre repentino'. A ideia de tirar a vida com as próprias mãos pode até parecer repentina, mas foi pensada pelo sujeito durante algum tempo.


Apesar de inúmeros estudos tentarem desvendar o que se passa na cabeça de uma pessoa que tem como objetivo tirar a própria vida, somente quem convive diariamente com esse desejo pode explicar qual é a sensação.

" Sofro há muitos anos de depressão. Em 2014 comecei um tratamento para crises de pânico e ansiedade, e em 2015 fiquei totalmente incapacitada de sequer entrar em um carro. A cada crise eu ia parar no hospital. As medicações costumam ser muito fortes e, como costumam dizer, piora muito antes de melhorar
Eu tive fases em que não queria mais acordar. Acordar para quê, se não consigo viver? Há uma distorção do real. Nada parece possível. Por mais que você veja tudo bem, você não sente tudo bem. A total falta de perspectiva, por mais que se saiba que vai passar um dia, leva ao desejo da morte. Não necessariamente por desistir da vida, mas para acabar com o sofrimento. A morte passa a ser algo desejável, como se fôssemos deixar o corpo apenas.

Claro que convicções pessoais também influenciam muito, assim como o apoio dos que amamos (ou a falta dele), mas a incapacidade de percepção de tudo à nossa volta distorce tudo. Eu só senti que estava desistindo de viver quando falei para uma amiga e vi o desespero nos olhos dela. Talvez se não tivesse exposto daquela maneira tão sincera e espontânea, tivesse ficado mais tempo de cama.

Meu "suicídio" estava vindo aos poucos: fiquei por meses sem comer nada. Dormia 16h seguidas. Tomava um copo de café e ficava catatônica por horas olhando para TV. Na maior parte das vezes não tirava o pijama. Não penteava o cabelo. Sair de casa ou receber visitas, nem pensar. Sofrido, triste, pesaroso. Existe um preconceito muito forte sobre o assunto, o que nos faz querer nos isolar do mundo, sumir na vida. E a falta de viver parece ser mais atraente, entende? Aí quando você tem um sopro de vida, parece que "não pode", porque o preconceito é tanto que ou você está ótima ou está na lama. Não existe meio termo."

“Falar é a melhor solução”

A campanha ganhou repercussão nas redes sociais através da tag #SetembroAmarelo. Usuários do Facebook atualizavam seus status pedindo para que seus amigos comentassem um coração amarelo, o qual seria respondido por eles com elogios e coisas boas que reconheciam nos amigos.

Além disso, outros usuários replicaram em seus perfis uma imagem com o seguinte texto "Eu disponibilizo meu inbox para desabafos, conversas e conselhos. Prevenção ao suicídio e valorização da vida. #SetembroAmarelo".

Com o objetivo de ampliar ainda mais o debate acerca da depressão e da prevenção do suicídio, um grupo de estudantes do Centro Universitário do Norte (UniNorte), produziu um curta-metragem que ajuda a entender o assunto. De acordo com Andrew de Souza, um dos produtores, o processo de produção durou ao todo 3 semanas. Ao todo 9 pessoas participaram do projeto. Apesar de ter sido produzido no mês de julho, Andrew conta que o curta-metragem foi lançado apenas em setembro para reforçar o peso da campanha do Setembro Amarelo.

“Quando chegou setembro e com ele a campanha do Setembro Amarelo, não podíamos mais pra manter o curta apenas para nós. Precisávamos mostrá-lo para a sociedade, principalmente porque queríamos mostrar nosso ponto de vista sobre a depressão”.

“Todas as Minhas Anotações” é um curta-metragem de 7 minutos, disponível no youtube, que conta o drama de um garoto com sintomas de depressão e a sua luta diária contra a doença.
https://www.youtube.com/watch?v=I8XzMU7D-pE

De acordo com a psicóloga Camila Silva, a pessoa que está pensando em tirar a própria vida precisa ser ouvida de forma cordial, sem julgamentos. Os amigos e a família devem demonstrar interesse em ajudá-la, e empatia para com o seu sofrimento. Além desses cuidados, a psicóloga ressalta que se faz indispensável a procura por serviços especializados.

 

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