Violência policial é denunciada no relato da participação nos protestos em Curitiba

A Seção Sindical dos Docentes da Universidade Estadual de Ponta Grossa (SINDUEPG) realizou nesta quinta-feira, dia 30, uma assembleia extraordinária. No auditório do PDE, no Campus Uvaranas, os professores votaram pela continuidade da greve.


A assembleia iniciou com relatos dos docentes e uma avaliação do movimento de greve retomado na última semana. A paralisação das atividades foi motivada pelo entendimento de que o governo estadual estaria descumprindo as decisões acordadas, no início deste ano, quando professores estavam em greve.

Emocionado, o professor Robson Laverdi, do Departamento de História, criticou a violência resultante do aparato militar mobilizado pelo governo estadual para  impedir o acesso dos professores à Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep), durante o processo de votação do PL 252/2015, realizado esta semana.

“Pela primeira vez, eu vi a vida ameaçada de uma maneira impensável”, relembrou. “Nós estávamos lá [na Praça Nossa Senhora da Salete, em Curitiba] defendo a qualidade do processo da educação e nós fomos tratados como bandidos” acrescentou.

A praça, em frente às sedes do Poder Executivo e do Poder Legislativo do Estado do Paraná, foi palco de um cenário de guerra, nesta quarta-feira, dia 29. Um grupo de 1.500 policiais foi destacado para fazer o cordão de isolamento impedindo o acesso à Alep.

Por volta das 15 horas da tarde de quarta-feira, os policiais iniciaram o ataque aos manifestantes que protestavam contra o PL 252/2015. Durante aproximadamente duas horas, os policiais desferiram bombas de gás lacrimogêneo e disparos de balas de borracha. Cerca de 200 pessoas foram feridas.

De acordo com entidades que organizaram os protestos, 25 mil pessoas, entre professores, alunos e demais servidores das universidades estaduais e da rede estadual de ensino público estavam na praça. Participavam ainda representantes de entidades que expressavam apoio ao movimento.  O local era ocupado, desde a última segunda-feira, dia 27, quando teve início a votação do projeto de lei.

Quem é o responsável?
A professora Priscila Larocca, do Departamento de Educação, destacou a importância da adesão dos professores, ao movimento de greve, para a categoria mostrar o próprio valor.

“Independente de você ser professor de direito e, ao mesmo tempo, advogado, juiz ou magistrado, aqui, na UEPG, você é professor. Se você é médico, se você é enfermeiro, se você é das ciências contábeis, aqui, na UEPG, você é professor”, ressalta.

Numa crítica à acusação de vandalismo, feita pelo governo estadual, ao movimento dos manifestantes, Larocca ainda expressou, de forma irreverente, a indignação: “Eu queria dizer a vocês que também sou black bloc. Não tem como não ser em uma situação como essa na qual estávamos só nos defendendo”.

A referência feita por Larocca ao grupo black bloc está ligada a uma afirmação do governador Carlos Alberto Richa (PSDB). O chefe do executivo alegou que a ação violenta da polícia teria sido motivada pela tentativa de membros do grupo black bloc de invadir a Alep.

Durante o ataque policial, enquanto transcorria a sessão que teve como primeiro tema de pauta a votação, em segundo turno, do PL 252/2015, o presidente da Alep, o deputado Ademar Traiano (PSDB), chegou a afirmar que a responsabilidade da casa legislativa era apenas votar.

Isentando-se ainda da responsabilidade pela interdição de acesso à galeria pelo público, Traiano disse que a decisão era uma determinação judicial. Quando deputados da oposição tentaram barrar a votação em face de notícias sobre o que estava ocorrendo do lado de fora da Alep, o presidente da casa legislativa alegou que a ação dos policiais era uma responsabilidade da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp/PR).

Professores cobram uma posição da Reitoria da UEPG
Além do apoio aos colegas em relação à decisão de manter a greve, o professor Marcos Kusnick, do Departamento de História, também manifestou sua indignação contra a violenta ação policial durante o processo de aprovação do PL 252/2015.

“Estava linha de frente do combate, junto a colegas, e acabei levando três tiros de bala de borracha, como também fui atingido pelos estilhaços das bombas.” Marcos conta que foi atingido na região pélvica, sendo que o maior ferimento foi na nádega esquerda.  

“E, hoje, pela manhã, eu fui abastecer meu carro e, por uma dessas questões inexplicáveis do destino, lá estava o professor Luciano Vargas, reitor da UEPG, comendo seu pão de queijo. Então, ali, dentro do posto, chamei por ele, abaixei minhas calças, para que ele contemplasse a obra que ele é corresponsável”, descreveu.

A afirmação de Marcos refere-se à falta de posicionamento da reitoria, que, ao invés de mostrar apoio aos professores, limitou-se a publicar nota no site oficial da UEPG. No texto, o reitor e sua vice Gisele Alves de Sá Quimelli apenas manifestam repúdio “pelo uso da força desproporcional e totalmente descabida no atual contexto democrático em que vivemos”.

Para os professores que participaram da assembleia, é preciso uma posição mais firme da Reitoria ao movimento de greve dos docentes da UEPG.

Após a avaliação da participação nos protestos, realizados em Curitiba, contra o PL 252/2015, foram feitos os encaminhamentos do movimento, como a decisão de continuidade da greve. A previsão é que nova assembleia seja realizada na próxima semana.

CONFIRA AS DELIBERAÇÕES DA ASSEMBLEIA:

  • Continuidade da greve;
  • Aprovação de moção de repúdio à posição da Reitoria, pela forma como a Universidade se colocou no encaminhamento da greve, e também ao secretário de estado de Ciência e Tecnologia (SETI), João Carlos Gomes,  que publicou ser favorável ao ato de descontar salário dos professores que continuarem a paralisação;
  • Exigência de posicionamento da Reitoria da UEPG em relação à greve dos professores;
  • Não levar decisões da greve para deliberação nos departamentos;
  • Encaminhamento, à Corte Internacional de Direitos Humanos, de denúncia contra o governador Carlos Alberto Richa (PSDB), o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, Ademar Traiano (PSDB), e o secretário da Segurança Pública do Paraná, Fernando Francischini.

Arquivo comunitário
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