Debate sobre ajustes nas políticas de cotas para negros reúne representantes acadêmicos e da comunidade para discutir formas de melhorar os processos de admissão na universidade e divide participantes entre os que desejam a volta da banca de constatação e os que ressaltam o grande retrocesso que isto significaria.


As políticas afirmativas implantadas na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) voltaram a ser discutidas por estudantes, professores e representantes da comunidade na última quinta-feira, dia 26. O encontro foi promovido pela Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) na Sala dos Conselhos, no Bloco da Reitoria, Campus Uvaranas.

Segundo o pró-reitor de graduação, Miguel Archanjo de Freitas Júnior, a reunião teve como objetivo ouvir a comunidade sobre ajustes na política de cotas para negros, instituída na universidade desde 2006, com o intuito de melhorar o processo de seleção e combater possíveis fraudes.  

O debate girou em torno da extinção da banca de constatação, que analisava os candidatos que se autodeclaravam negros e confirmava, ou não, sua condição a partir de critérios fenótipos. Para o pró-reitor, a ausência dessa banca dificulta o processo e pode facilitar fraudes no sistema de cotas.

Miguel Archanjo citou como exemplo o caso de fraude de sete candidatos denunciados pela própria Prograd que, segundo ele, não se encaixavam no critério fenótipo pré-estabelecido pelo edital e, consequentemente, não teriam direito às vagas reservadas ao sistema de cotas para negros.

 

A bipolaridade da discussão

A volta da banca de constatação foi defendida em sua maioria por professores da instituição que representavam seus respectivos setores. O argumento predominante era de que havia uma preocupação em não prejudicar os candidatos que se enquadravam nos critérios do edital, bem como os que não correspondiam as características fenótipas, e poderiam ser remanejados para o sistema de cotas para alunos de escolas públicas.

Para a professora do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino, Ione da Silva Jovino, a banca de constatação não é a melhor alternativa.

“Eu não me sinto à vontade de dizer se uma pessoa é negra ou não é. Se ela está dizendo que é, então para mim ela é”, defendeu, sugerindo que a universidade invista em melhor informar a comunidade sobre a política de cotas para pessoas negras.

Também defendendo a ausência da banca de constatação estavam o professor Luís Fernando Cerri, do Departamento de História, e o estudante Rafael André Marcon, representante do Diretório Acadêmico de Licenciatura em História (Dalhis), que afirmou durante a abertura das falas dos participantes que “qualquer banca que venha a dizer se alguém é negro ou não é um retrocesso”.

 

Avanços no debate

A reunião resultou na manutenção da Resolução Universitária nº 17 de 9 de dezembro de 2013, dando início a uma campanha da instituição, em parceria com os movimentos negros, para a conscientização da comunidade sobre a política de cotas. Por sugestão da professora Ione, também haverá a produção de materiais de divulgação educativos e em linguagem acessível para distribuição em toda a comunidade.

O grupo responsável pela produção dos materiais informativos será composto por representantes do Núcleo Regional de Ensino (Nuregs), do Movimento Sorriso Negro, da Comissão Permanente de Seleção (CPS) e da Prograd. Além dessas resoluções, foi acordado que, nos editais de vestibulares, devem ficar claras as penalidades em caso de autodeclaração considerada falsa, e que a instalação de uma comissão de constatação só será realizada em caso de denúncia.

Arquivo comunitario:
23/06/2013 - Instituto Sorriso Negro promove Seminário sobre cotas
27/03/2014 - Data relembra a história da luta contra o preconceito racial