Pesquisadores e movimentos sociais reforçam o papel do negro na história de Ponta Grossa

Primeiro bloco do debate "13 de maio - Comemorar ou não?"

A recusa de comemoração da data 13 de maio reflete a busca de valorização da cultura afro-brasileira e da luta por maior representatividade do negro. O destaque dado às origens europeias leva, muitas vezes, ao esquecimento da participação da população negra no processo de ocupação e de colonização da região Sul do Brasil.

 

Repensar o sentido do 13 de maio, data tradicionalmente destacada pelos livros didáticos de História como um marco de libertação dos escravos, é um pontos importantes para a revisão da história de Ponta Grossa como destacam pesquisadores e representantes dos movimentos sociais.

O dia 13 de maio é lembrado, no calendário brasileiro, como o dia da abolição da escravidão no Brasil. A data é, historicamente, celebrada como o marco de libertação do negro. No entanto, movimentos sociais se recusam a comemorar a data, por acreditar que ela não de uma luta do movimento negro.

Em Ponta Grossa, neste ano, o Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais não realizou nenhuma comemoração em referência à data. A entidade está ligada ao processo, mais recente, de luta do movimento negro em Campos Gerais. Há quase 40 anos, começaram as primeiras ações que levaram à fundação do Sorriso Negro ligada a uma mobilização no interior de movimentos inseridos no contexto da Igreja Católica.

João Luiz dos Santos, militante e fundador do Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais, relembra que, no início de 1988, houve uma organização social em memória dos 100 anos da abolição da escravidão. Na ocasião, seguidores religião católica se organizaram a partir da união da Pastoral do Negro com a Pastoral da Juventude no Núcleo Rio Verde.

“Eu e a minha irmã, Sandra Santos, começamos a trazer essas discussões para dentro da igreja. Depois, fomos abrindo para a comunidade, com a parceria de alguns amigos do Clube 13 de Maio, escolas e outros grupos de jovens ligados à causa”, descreve João Luiz.

O movimento foi crescendo aos poucos e, no ano de 1991, foi criado o Movimento de Conscientização da Raça Negra, em Ponta Grossa. “Foi ali que começou tudo e, ao longo desse tempo, participamos de várias discussões, participamos do primeiro encontro nacional das entidades negras no ano de 1993, em São Paulo, onde nessa época, já se discutiam as cotas raciais”, lembra João Luiz.

O movimento que nasceu no interior de uma mobilização de caráter religioso não pode ser dissociado de seu caráter político e social em defesa de interesses da população negra em Ponta Grossa. No ano de 2008, foi fundado o Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais, que abrange, atualmente, cerca de 15 municípios. As atividades da entidade incluem o trabalho de palestras, de conscientização e de afirmação da raça negra.

Em Ponta Grossa, a Sociedade Afro-Brasileira Cacique Pena Branca (SABCPB) se destaca por seu trabalho associado à religião. Nessa perspectiva que podemos compreender o porquê a data 13 de maio não foi comemorada associada à abolição da escravatura. De forma distinta, a entidade
realizou uma feijoada para celebração do dia dos pretos velhos.

O dia dos pretos velhos faz parte da cultura religiosa afro-brasileira e também é comemorado no dia 13 de maio. O preto velho é uma entidade da umbanda que, ao ser lembrando nessa data, encarna o sentido de transcendência da violência e sofrimento vivido pela população escrava durante o período de colonização do Brasil.

 

Mobilização dos negros nasce de uma história de exploração e exclusão

Ponta Grossa tem um histórico triste se considerados o tratamento dado memória da participação do negro na história da cidade. Um exemplo é a reprodução do discurso, na educação básica e no calendário eventos regionais, de que a cidade foi colonizada, predominantemente, por europeus.

A história dos Campos Gerais está ligada ao trabalho agrícola. Outro fato que se relaciona a a ela é a chegados dos negros à região para a construção da rede ferroviária do Sul do Brasil. No entanto, a participação da população negra na construção da história de Ponta Grossa fica esquecida na memória da cidade.

Mesmo os negros tendo uma participação fundamental na história dos Campos Gerais, essa história é deixada de lado e aos poucos vem se perdendo, afirma Nilson de Paula, estudante de graduação em jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Na educação básica e, até mesmo nos sites oficiais da prefeitura a história da colonização negra é deixada de lado e a história é contada a partir da chegada dos imigrantes brancos para trabalhar na lavoura que se desenvolviam na região.

Nilson desenvolve para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), um documentário sobre o clube 13 de maio, um dos principais monumentos da cultura negra na cidade. O estudo destaca como monumentos, praças e histórias relacionadas à construção da cidade estão intimamente ligados ao movimento negro.

Nilson destaca que “até mesmo a catedral da cidade é um exemplo de como a história do negro em Ponta Grossa. Na época em que ela foi construída, não era permitida a entrada de negros no local. Isso originou um movimento paralelo que inaugurou a conhecida Igreja do Rosário, que era o local de preces construído a partir dessa demanda”.

O estudante de jornalismo lembra a importância do atual Clube 13 de Maio que deriva da Irmandade do Rosário, esta criada no século XIX. O Clube Literário 13 de Maio foi das iniciativas da época para valorizar a cultura africana. A entidade oitocentista, que reunia escravos recém libertos, foi fundada forma de resistência do movimento negro.

 

Movimento negro de Ponta Grossa destaca as contradições ligadas à comemoração do 13 de maio

O curso de Jornalismo da UEPG realizou um debate para discutir por que a data 13 de maio não é comemorada pelo movimento negro. O evento destacou a importância da discussão sobre a representatividade negra na sociedade e sobre a questão da identidade negra, bem como do papel da educação nesse processo.

Durante o debate, um dos pontos discutidos foi o destaque dado pelos livros de história, no Brasil, ao dia 13 de maio de 1888, data em que a princesa Isabel, então regente do Império, assinou o decreto que ficou conhecido como Lei Áurea. Com o ato, ela proibia a escravidão de negros no país. No entanto, para o movimento negro, a data é meramente simbólica.

Assista ao bloco 2 do debate "13 de maio - Comemorar ou não?"



Licenciada em História e mestranda em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela UEPG, Merylin Ricieli participou do debate promovido pelo DeJor. A painelista apresenta a sua visão sobre o dia 13 de maio e a razão pela qual a data não é comemorada pelo movimento negro.

“Enquanto mulher, negra, compreendo que é complicado a gente falar em comemoração do 13 de maio. Eu vejo o 13 de maio como um momento estratégico de suposta libertação, que estava relacionado não apenas a fatores econômicos, mas também políticos. Na época, apenas 15% da população brasileira ainda era escrava”.

Alguns fatos, que antecederam a assinatura dessa lei, já refletiam uma tendência de substituição da mão de obra escrava, com a implantação de um novo modelo com a contratação de mão de obra europeia. Um deles é a Lei Eusébio de Queiroz de 1850, que proibia o tráfico de escravos no Brasil. Mais tarde veio a Lei do Ventre Livre, em 1871, que considerava livres todos os filhos de escravos. Em 1885, a Lei dos Sexagenários passou a considerar livres todos os escravos com mais de 60 anos.

Segundo dados do movimento negro, coletados pelo Instituto Sorriso Negro, cerca de 85% da população negra eram livres quando a Lei Áurea foi assinada, em 1988. Segundo dados históricos foram mais de 12 milhões de negros que foram trazidos forçadamente para o Brasil para serem escravos aqui.

Para o movimento negro, representado em Ponta grossa pelas entidades Cacique Pena Branca e Instituto Sorriso Negro, a grande questão do fim da escravidão, é que os escravos eram libertos sem nenhum tipo de assistência ou política pública de inclusão social. Assim, eles não conseguiam se manter nas cidades por não conseguirem empregos devido ao preconceito racial. Por consequência, também não conseguiam moradias dignas, nem alimentação adequada, isso obrigou a população negra a migrar para as periferias, em locais de risco e sem condições básicas para viver.

As consequências desse processo de marginalização são sentidas até os dias de hoje pela população negra. Segundo João Luiz dos Santos, representante do movimento Sorriso Negro, a data de 13 de maio não simboliza uma conquista pela luta do movimento negro. A data comemorada, por representar a luta do movimento, é 20 de novembro, dia da consciência negra, quando se relembra a morte de Zumbi dos Palmares, um dos maiores ativistas dos direitos negros no Brasil.

Silionara Madureira, mestre em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela UEPG e pesquisadora da representatividade do negro na sociedade, destacou um dos grandes problemas na construção da imagem na sociedade. “Nós crescemos ouvindo estereótipos negros que foram e são muito presentes, mas que devem ser revertidos em nossa sociedade.”

A pesquisadora destaca ainda que, nas grandes mídias, a representatividade do negro é quase sempre a mesma, “a partir da apresentação do negro como subclasse, como trabalhador braçal, a mulher negra com um simbolismo de atrelado à sexualidade”, completa.

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