Andres Maldonado, natural da Colômbia, enquanto pratica malabarismo no semáforo em frente à universidade

A presença de falantes de outras línguas tem se tornado constante no Centro da cidade. No comércio, se estabelecem em pontos fixos ou como vendedores ambulantes. Existem também aqueles que, por hobby, apenas passam brevemente por aqui. Com visto ou irregulares no Brasil, Ponta Grossa ganhou uma nova cara nos últimos meses.

 

Ponta Grossa não consegue esconder seu viés multicultural. Basta caminhar por alguns trechos do Centro, ou então passar durante o horário comercial pelo calçadão para perceber isso. Estabelecimentos próprios, barracas na rua ou vendedores ambulantes. Não importa. Os imigrantes estão presentes pelos espaços mais frequentados da cidade.

Ao transitar pela região do Terminal Central, local de maior concentração e passagem de pessoas do município, é comum se deparar com falantes de outras línguas. Mais corriqueiro ainda é escutar um sotaque diferente. Chineses, senegaleses, jamaicanos e bengaleses convivem em meio aos comerciantes do Centro da cidade.

Alguns destes imigrantes possuem pontos fixos de trabalho. No início do calçadão, próximo à Praça Barão do Rio Branco, popularmente chamada de Praça do ‘Ponto Azul’, existe uma loja de mulheres chinesas que trabalham com bijuterias e acessórios. Praticamente em frente, e há muito tempo na cidade, está a “Pastelaria e Lanchonete 888”, também de donos vindos da China.

Mais recentemente, dois espaços foram comprados por imigrantes chineses. Em frente ao supermercado Condor do calçadão, uma pastelaria existe desde maio deste ano. Em conversa, o responsável pelo local, que preferiu ser identificado como Chen, disse que saiu de Pequim, capital da China, há 15 anos. Em Ponta Grossa, esse é apenas o primeiro negócio do chinês.

O outro estabelecimento com donos estrangeiros fica a poucos metros dali. A loja “Xingdu Chen Eireli-Me” funciona há pouco mais de três meses. O local é uma versão das populares lojas de até R$ 1,99.  No calçadão, o endereço mais antigo com donos estrangeiros pertence ao libanês Reda Mohamad Zabad, dono de quatro lojas de roupas na cidade. A mais antiga delas, localizada na Rua Saldanha Filho, no Centro, foi inaugurada em 1976.

 

Estabelecimento com produtos do tipo R$ 1,99 é comandado por chineses

 

Imigrantes itinerantes

Em semáforos da cidade, a presença de alguns estrangeiros já se tornou comum. É o caso dos latinos vistos, com frequência, nos sinaleiros situados em frente ao Shopping Palladium e na esquina da Rua Doutor Penteado de Almeida com a Avenida Bonifácio Vilela, em frente ao Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Nos dias ensolarados, durante a semana, ao menos dois estrangeiros passam pelos locais para ganhar algum trocado.

Na maioria das vezes, eles praticam “malabares” - malabarismo na tradução para o português - para sobreviver. Outros também desenvolvem técnicas artesanais para o sustento, mas apenas o básico. É como define seu ofício Mario Dhartañan Larrosa, argentino de 24 anos, que está há dois meses na cidade.

Larrosa vive como viajante desde 2012. Natural de Paraná, capital da província de Entre Ríos, distante 480 km de Buenos Aires, o rapaz já passou por diversos países sul-americanos, como Uruguai, Bolívia e Peru. De acordo com o argentino, os últimos quatro anos foram de mudanças constantes.
 
Para fugir de responsabilidades impostas como trabalho e família, Mario decidiu que precisava conhecer outros lugares para não entrar em depressão. “Se não fosse este clima que uma viagem propicia, e o contato com pessoas de diferentes culturas, eu ficaria louco”, revela o jovem que saiu com a vida de itinerante pelo mundo para se livrar de um período de depressão.

Desde 2015 Mario Larrosa vive no Brasil. Antes de chegar a Ponta Grossa, o viajante residia em Palhoça, Santa Catarina. Segundo Mario, a forma como o povo brasileiro se mostrou acolhedor fez com ele permanecesse mais tempo no país. Ele ainda revela o desejo de, futuramente, passar algum tempo também no Nordeste do país.

Mario faz parte de um grupo de imigrantes latinos que moram em Ponta Grossa. Aproximadamente 30 pessoas dividem uma casa com vários cômodos no bairro Olarias, próximo ao Shopping Palladium. Todos do grupo possuem a mesma característica, são viajantes.

Andres Maldonado, natural da Colômbia, mora junto com Mario Larrosa. Adepto do malabarismo, já está há oito anos fora de sua terra natal. Andres também reside há poucos meses na cidade e tem o intuito de que a experiência seja apenas passageira. No fim do ano, irá partir para Salvador, na Bahia, onde já viveu por algum tempo.

Na casa, também vive o único brasileiro do grupo. Douglas Alves, que possui apenas 20 anos, saiu de São Paulo em 2015 para fugir do estresse da capital. O jovem pretende passar alguns desta forma, apenas viajando e sem compromissos com o “mundo real”, como diz. “Ainda sou novo, daqui um tempo vou voltar, estudar e constituir família. Por enquanto quero aproveitar e viajar, conhecer o continente todo”, explica.

 

Loja de bijouterias, localizada no começo do calçadão em direção ao 'Ponto Azul', possui donos chineses que ainda não falam português

 

Migração por melhores condições de vida

Enquanto uns migram para conhecer lugares diferentes e fugir do cotidiano o qual estão inseridos, outros buscam vir ao Brasil para garantir um melhor sustento, seja para si mesmo, seja para a família. No calçadão de Ponta Grossa, além dos imigrantes legalizados e com lojas próprias, existem os comerciantes ambulantes. Geralmente, essa classe de estrangeiros trabalha com um único tipo de produto e em um local onde percebem que terá mais procura e movimento. É o caso de um grupo de bengaleses, homens que vieram de Bangladesh para Ponta Grossa com a finalidade de vender cigarros importados.

Morando em uma casa localiza próxima ao Centro, os quatro bengaleses estão há pelo menos dois anos na cidade. A maioria deles, inclusive, morou em outros lugares do país, como São Paulo e Brasília. Desta forma, eles compreendem bem a língua portuguesa. Md Jasmin Uddin, que mora desde 2013 em Ponta Grossa, conta que a carteira assinada não compensa para ele.

Uddin relata que o valor obtido com as vendas no calçadão superam, e muito, o que um emprego formalizado poderia oferecer. No entanto, o bengalês conta que pretende, junto com seus conterrâneos residentes na cidade, abrir um restaurante de comidas típicas da região central do continente asiático. O endereço até já foi escolhido, o bairro Nova Rússia.

Na parte final do calçadão, já na junção com a Rua Santos Dumont, um homem da Jamaica vende bonés e acessórios masculinos. Ocas Diallo saiu de seu país há seis anos. Em Ponta Grossa desde o início do ano, ele mora com a esposa no bairro Uvaranas. Diallo passou pelo México e por outros países latinos. Chegou também a morar, durante três meses, em Manaus, tendo depois se mudado para São Paulo com o propósito de aprender o idioma.

Diallo, que está legalizado no país, conta que já passou por momentos difíceis como imigrante. Na Amazônia, perdeu todo seu dinheiro e, se não fosse uma família que o acolheu, teria morrido de fome.  Por conta disso, Diallo diz que sempre será grato aos brasileiros e que pretende ter filhos no país. No ‘Paraguaizinho’, os irmãos Junior e José Carles são colombianos que já estão “regularizados” no país.

Na última semana, estiveram na Polícia Federal para dar entrada na carteira de trabalho local. Os colombianos, que estão há 10 meses na cidade, afirmaram que conseguem tirar um valor bem mais alto por mês do que conseguiriam se estivessem vivendo em Cali. Um deles relatou que, em média, cada um recebe R$ 1.800,00.

Pastelaria no calçadão de Ponta Grossa recebe mais de 200 clientes por dia

 

Estatísticas na cidade

Segundo dados da Polícia Federal local, 39 registros permanentes foram concedidos, em 2015, a estrangeiros em Ponta Grossa. Além disso, mais 59 registros foram feitos para imigrantes que entraram na lista de permanentes por terem o cônjuge ou filho nascidos em território brasileiro.

Para conseguir a cidadania brasileira, o estrangeiro terá de residir por 15 anos no país e sem registros criminais. No entanto, este número pode ser reduzido para apenas quatro anos, caso seja comprovado que o estrangeiro possui residência no país, tenha compreensão do idioma, esteja empregado e apresente garantias monetárias suficientes para o próprio sustento e da família. Quando existe uma relação conjugal e de filhos nascidos no Brasil, o tempo poderá ser reduzido para um ano de residência no país.
 
Sobre o visto temporário, usado para viagens ou a trabalho, os documentos e restrições variam, pois dependem dos acordos do Brasil feito com outros países. O mais indicado, neste caso, é que o viajante procure o Consulado brasileiro em seu país de origem para se obter todas as informações necessárias.

Com relação ao número de registros temporários, seja para pesquisadores ou do Mercosul, foram conferidos 216 pedidos no ano passado. Ou seja, mais de 200 sul-americanos pediram visto temporário em Ponta Grossa.

Os dados referentes à imigração na cidade ainda trazem o número de refugiados que foram registrados. Em 2015, 15 registros de permanência no país para fugir da guerra foram concebidos. Destes, mais de 70% correspondem a estrangeiros que vieram da Síria.

Além do controle feito pela Polícia Federal, alguns dos imigrantes passam pelos órgãos de assistência social do município. Na unidade central do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), especializado em moradores de rua, uma média de 15 estrangeiros, a maioria latinos, passam todos os dias no local.

De acordo com Rose Cristóforo, chefe da unidade do CREAS, existem alguns imigrantes em situação de rua que passam no local para se alimentar e manter a higiene pessoal. No entanto, a maioria deles estão irregulares no país, sem qualquer tipo de estadia permanente. Além disso, afirma Rose, muitos dos viajantes também passam por ali, pois conseguem, dessa forma, economizar ainda durante a permanência no Brasil.

Itinerante há oito anos, Maldonado irá para Salvador, na Bahia, no mês de dezembro

 

 

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