Multa é a estratégia para forçar mudança de comportamento dos motoristas que desrespeitam a lei

Silvia Borges, responsável pelo Departamento de Educação no Trânsito da AMTT, e equipe preparada para mais uma blitz Foto: Ana Ferreira

 

Todos os anos, motoristas e estudantes são alvo da campanha Maio Amarelo. Após o mês de blitz e de palestras educativas, fica a certeza de que somente a mudança de comportamento dos condutores pode baixar os índices de violência no trânsito, o que é provocado, sobretudo, pela direção imprudente.


O Paraná é o estado da região Sul com maior taxa de mortalidade no trânsito, superanado a média nacional. O índice estadual é de 34 mortos por 100 mil habitantes ao passo que, no Brasil, a média é 23.

O último balanço do Mapa da Violência, apresentado em 2013, revela que houve 112 óbitos, em 2011, o que coloca Ponta Grossa na posição 295º do ranking nacional. Das ocorrências nacionais que resultaram em mortes em 2014, as principais causas que puderam ser detectadas pelos policiais foram a falta de atenção (32%), a velocidade incompatível (20%) e ultrapassagens indevidas (12%).

A colisão traseira é o tipo de acidente que mais acontece. Entretanto, o tipo de acidente que mais mata é a colisão frontal, causada, especialmente, pelas ultrapassagens forçadas ou em locais sem visibilidade.

Em Ponta Grossa, o número de veículos supera 191 mil. Isso revela que a frota cresceu, em 10 anos, cerca de 44%, uma vez que, em 2015, a cidade tinha aproximadamente 44 mil veículos. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O fato de a cidade de Ponta Grossa ser entrecortada por várias rodovias é, segundo o enfermeiro socorrista e fisioterapeuta Selmo de Lima, responsável pelo aumento do número de acidentes. Para ele, as medidas adotadas pelo poder público e pelos órgãos fiscalizadores não têm contribuído para reduzir a violência no trânsito.

"Hoje é maior o número de acidentes. Apesar de ter aumentado o número de radares, de faixas de pedestres, de sinalização, de educação no trânsito, o número de acidentes é bem maior", ressalta.

De acordo com o enfermeiro socorrista e fisioterapeuta, Selmo de Lima, acidentes com motociclistas atingem, em maior proporção, pessoas mais jovens e em idade produtiva, na faixa etária de 20 a 40 anos. A maior parte dos acidentes que resulta em fraturas mais graves também acontece nessa faixa etária.

O secundarista Allan Franco é morador do Castanheira, em Uvaranas, e só aos 21 anos ele está finalizando o ensino médio. O acidente que o afastou das atividades resultou em fratura na coluna. “Quase perdi o movimento das pernas”, explica o estudante, que sofreu um acidente de moto por estar em altar velocidade, o que provocou a perda de controle do veículo e colisão com um muro.

Casos como o de Franco são frequentes no cotidiano do trabalho de Selmo, que presta o atendimento não somente logo após o acidente, mas também no tratamento de reabilitação. ”Esse tipo de paciente acaba tendo um convívio com a gente devido às lesões graves, principalmente as fraturas de membros inferiores”, descreve.

Selmo destaca que o acidente com motoqueiro resulta, geralmente, em lesão mais grave. “Se for um carro, isso dependerá da intensidade do impacto. Na maioria dos casos, os acidentes com carros são de menor impacto e, geralmente, são as ocorrências em estradas e, pelo maior impacto, eles se encaixam nos de maior gravidade”.

A recuperação, segundo Selmo, depende não somente da gravidade do acidente, mas também da idade, se é uma criança, um adulto ou um idoso. Para o idoso, a recuperação é mais difícil porque a desmineralização óssea, resultante do processo de envelhecimento, provoca um retardo na reabilitação.

Ouça o áudio sobre a campanha Maio Amarelo

 

Selmo explica que, geralmente, o paciente fica internado em torno de três a quatro dias. Se for um paciente jovem, após esse período, ele é liberado e o restante do processo de recuperação será em casa. A fisioterapia auxilia na retomada dos movimentos. “Se a fratura for simples, a reabilitação dura em torno de 30 a 35 dias. Se for uma fratura mais grave, leva de 60 a 90 dias a recuperação”, explica.

Com relação à reabilitação, Selmo relata que tenta realizar um trabalho para que a pessoa retome 100% a mobilidade para que ela possa desempenhar as próprias atividades. No entanto, algumas pessoas ficam impedidas devido ao encurtamento ou perda de membro. “Alguns terão, sim, perda irreparável, alguma sequela que vai levar pro resto da vida dela”, alerta.

 

A maior parte dos acidentes acontece nas cidades, mas 70% das mortes são na área rural.

O Departamento Nacional de trânsito (Denatran) define acidente de trânsito como evento não intencional, envolvendo pelo menos um veículo, motorizado ou não, que circula por uma via para trânsito de veículos.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) sistematiza dados sobre as infrações de trânsito relacionadas à frota nacional, que tem aumentado a cada ano. De 2007 a 2015, foi registrada uma redução nos índices que medem a violência no trânsito em rodovias federais em todo o Brasil. Estatísticas apontam, no entanto, o crescimento de 136% da frota em 11 anos, passando de 36,6 milhões, em 2003, para 86,7 milhões de veículos, em circulação, no ano de 2014.

Segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Social (Ipardes), em 2014, na cidade de Ponta Grossa, houve 17.427 acidentes por colisão e abaloamento, 24.846 atropelamentos e 7.535 ocorrências classificadas de outra natureza. De um total de 47.002 registros, menos da metade (19.194) ocorreu sem vítimas.

Silvia Borges, coordenadora de educação no trânsito da Autarquia Municipal do Trânsito e Transporte (AMTT), acredita que as campanhas de trânsito buscam despertar o sentimento altruísta nos motoristas e, dessa forma, pretende-se melhorar o país. Para ela, o principal causa das infrações é ainda o comportamento do condutor que desrespeita as leis de trânsito.

Segundo o Ipardes, Ponta Grossa teve 47 mil acidentes em 2014

 

"O problema é a falta de educação, não digo só do nosso condutor, mas também do nosso cidadão de modo geral. Nesse sentido, eu me incluo, pois precisamos, todos, mudar a nossa postura no trânsito”, ressalta.

A maioria dos acidentes, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), ocorre em áreas urbanas. No entanto, 70% das mortes são em área rural, pois é, nas estradas, que os motoristas mais abusam da velocidade e fazem ultrapassagens não permitidas. Entre os mortos em acidentes de trânsito, os condutores de motociclistas são as principais vítimas. Em 2014, eles somaram 1.748 óbitos, o que ocorreu, sobretudo, nas rodovias federais.

A PRF contabilizou mais de 3 milhões de infrações ao longo dos 12 meses do ano de 2014. Os dados revelam o desrespeito dos motoristas aos limites de velocidade e ao uso obrigatório de cinto de segurança. Além disso, muitos não fazem a manutenção adequada dos veículos e fazem ultrapassagens proibidas.

Para Silvia Borges, que trabalha, há quatro anos, diretamente na área de educação para o trânsito, o principal problema é o fator educacional quando se analisa as infrações verificadas nas blitzs. O condutor não tem a paciência de realizar a conversação de forma correta. “Ele está atrasado, ele está com presa, ele é ríspido no momento da abordagem. E, então, nós sentimos bastante o problema da educação pelo comportamento desse condutor", desabafa.

O desrespeitar a vaga destinada aos idosos e a pessoas com deficiência também é outro problema comum. Para acabar com esse abuso, o lema usado nas ações é “Essa vaga não é sua nem por um minuto”, destaca.

 

Educação no trânsito e ações coercitivas são estratégias para inibir infrações

Durante o Maio Amarelo, Polícia Militar atuou em parceria com o Ciretran e o Departamento de Educação no Trânsito da Autarquia Municipal do Trânsito e Transporte (AMTT). Foram realizadas sete blitz educativas nas principais avenidas da cidade e 20 palestras nas escolas, além de orientação na UEPG Central sobre o uso da travessia elevada.

Silvia Borges, coordenadora de educação no trânsito da AMTT, explica que o Maio Amarelo integra um plano de ações previsto para o prazo de uma década, de 2011 a 2020. A iniciativa foi aprovada em assembleia, que aconteceu no ano de 2011, exatamente no mês de maio. Por isso, escolheu-se o mês para as campanhas anuais.

A escolha do amarelo, explica Silvia, vem do amarelo do semáforo cujo sentido é atenção. A coordenadora lembra que a campanha acontece a nível mundial. O objetivo é a prevenção de acidentes e a diminuição das mortes no trânsito. “Temos um alto índice”, alerta.

O nome Maio Amarelo se baseia na cor amarela do semáforo e simboliza a atenção necessária no trânsito Foto: Marcos Vinicius

 

Durante a última campanha, os veículos eram parados e era dada explicação para os condutores sobre o que é a campanha. Foram também esclarecidas dúvidas dos motoristas sobre questões de trânsito. "Teve uma pessoa que perguntou sobre cadeirinha. Teve pai que perguntou sobre o radar e sobre velocidade. Nós estávamos lá prontamente esclarecendo essas dúvidas", ressalta Silvia.

Para Silvia, a aplicação de multas tem uma função educativa. A coordenadora esclarece que, hoje, é elevado número de multas como forma de inibir o grande número de acidentes provocados por consumo de álcool. No entanto, ela observa que, apesar de ser elevado o número de multas por causa do consumo de bebidas alcoólicas, mesmo assim é grande a incidência de acidentes resultantes desse tipo de infração.

A educação, para a coordenadora, tem que ser fortalecida dentro das escolas, mostrando a realidade do dia a dia, uma vez que as pessoas não têm consciência do que pode acontecer com elas. “Desde a escola, deveria haver essa educação para quando o indivíduo chegar à idade adulta, ele perceba que é importante prestar atenção e dirigir de acordo com as leis de trânsito em nosso país”, enfatiza.

Silvia destaca ainda a importância de uma equipe multidisciplinar para a realização do trabalho educativo. “Nós realizamos blitz nas vias e realizamos blitz e palestras no interior das escolas. Então, o Departamento de Educação no Trânsito da AMTT é composto, atualmente, por agentes de trânsito e por professores”, explica.

“Eu tenho a formação pedagógica, sou pedagoga e sou agente de trânsito. A gente trabalha dentro da sala de aula, com conteúdo curricular e pedagógico de acordo com a faixa etária das crianças e dos adolescentes”, destaca. “A partir do momento em que o fator educacional começar a funcionar, que a nossa cultura evoluir, nós – e aí me incluo – teremos resultados positivos", conclui Sílvia.

A Polícia Rodoviária Federal investiu em câmeras de vídeo-monitoramento e radares mais modernos. As tecnologias são associadas às análises estatísticas que identificam as características dos acidentes. Isso proporciona a otimização e maior eficiência do trabalho policial e um maior controle dos índices de letalidade nas rodovias federais. O Paraná possui 55 postos da PRF distribuídos pelas BRs do Estado.

Segundo a PRF, uma medida importante para a mudança de comportamento dos motoristas foi o endurecimento da legislação, com o aumento do rigor das punições e elevação do valor das multas para as infrações relacionadas às ações que podem resultar em acidentes mais graves.

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08/06/2016 - Maio Amarelo

 

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