“Meu mundo é um mundo preto, de sons, porque me oriento através dos sons, estou conversando com você e embora não te veja, acho que estou olhando para você, diretamente nos teus olhos. Me guio pela tua voz”.

 

 

Marcos Germano Pesck, 35 anos, nasceu com a síndrome de apport, uma doença passada de mãe para filhos homens. Aos dois anos de idade, uma tia percebeu que ele tinha dificuldade em encontrar os brinquedos e que ficava trombando nos moveis da casa.
Levaram-no ao médico e ficou confirmado: Marco era portador de deficiência visual e precisava fazer uma cirurgia. A catarata no olho direito precisava ser operada para que a doença não passasse para o olho esquerdo.
Passou o aniversário de 6 anos no hospital, permaneceu lá por quase um mês. A primeira cirurgia foi em janeiro e a segunda em março, apenas dois meses depois.
Marcos teve descolamento de retina e precisou passar por nova intervenção médica. Mas ao contrário de melhorar, a visão apenas piorou. Perdeu o pouco que enxergava com o olho direito e, no esquerdo, enxergava passou a ter apenas 5% da visão.
“Nos guiamos pelos sons, o segundo item que usamos é localização do espaço, reconhecer a sala onde me encontro, a mão vai a frente como uma proteção” explica Marcos enquanto caminha pela sala, desviando da mesa que ele já sabe onde está e chegando até a porta.
Ele caminha com cuidado e tranquilidade para não esbarrar em ninguém. “Quando passamos por coisas, tipo um poste, percebo o ar fechar”.
Marcos estende as mãos: “Onde você esta? Feche os olhos”. Ele passa a sua mão no ar. “Consegue ouvir isto? Passei a mão ao lado do teu rosto, você conseguiu sentir essa sensação?”  
As escolas não estão preparadas
A escola foi uma fase que marcou a vida de Marcos. Sempre estudou em escola regular. Para poder copiar o que os professores passavam no quadro, levantava da carteira que ficava no primeiro lugar, caminhava até o quadro e, de bem perto, copiava a matéria. 

“Os outros alunos se incomodavam, gritavam: sai da frente, quero copiar. Os professores precisavam intervir e dizer que eu também queria copiar”.  Quando chegou a quinta série, os professores ditavam a matéria.


Depois de concluir o ensino médio, fez um curso pré-vestibular e prestou o vestibular oral. Em 2009 se formou em Ciências Contábeis, na Universidade Estadual de Ponta Grossa.


Contudo, Marcos nunca chegou a exercer a profissão.  No ano da sua formatura, o governo instituiu o exame de suficiência do CRC, para retirar o registro. “Eu estudei para o exame, mas no ano da minha prova eu perdi totalmente a visão”.
Durante o seu tempo de acadêmico, recebeu auxilio dos professores e dos colegas que ditavam a matéria para Marcos. Sempre se apresentava para os professores e falava da sua limitação.


“Eu ensinava os professores como dar aula para mim, porque nem mesmo o chefe de departamento sabia como trabalhar comigo. Ele disse que nunca teve um aluno assim”.
Marcos sempre pedia o material com antecedência, para amplificar no seu computador e depois imprimir em folhas A3 (com o dobro do tamanho da folha comum, chamada de papel ofício ou A4).


Com a dificuldade visual, desenvolveu muito a memória, guardava com facilidade a matéria e sempre escrevia tudo o que os professores diziam. Na hora das provas, as notas de Marcos eram melhores do que dos colegas
“Os professores sempre diziam: o Marcos, com problemas, tira notas melhores do que vocês. Com o tempo, os colegas emprestavam meu caderno para estudar”.


Marcos afirma não ter sido alvo de preconceito, apenas de resistência por parte dos colegas.
“Eles achavam que os professores me protegiam, que avaliavam minha prova de forma diferente, pra me ajudar, mas não foi assim, era eu que estudava muito. Os alunos tinham medo ou vergonha de me perguntar sobre a minha limitação, achavam que eu não iria querer explicar ou que ficaria bravo”.
A maior dificuldade dos alunos com deficiência visual é a falta de material. Segundo Marcos, na UEPG não há nenhum material acessível relacionado às matérias. “A única área que está um pouco preparada é pedagogia, só porque são eles que vão incluir esses alunos nas escolas”.
Marcos tem limitações, mas não impossibilidades. Namora Sonara há quase um ano. Ela também é frequentadora da União dos Deficientes Visuais (Unidev) e, como Marcos, tem deficiência visual.


“Fomos a um casamento, primeiro minha irmã me levou para reconhecer o espaço do salão, dancei uma musica com ela, e depois busquei minha namorada e saímos para dançar”.

03/07/2013 - Entidade oferece aulas de dança, teatro e artesanato para pessoas com deficiência visual