“Uma figura!”. Poucas expressões definem melhor José Paulo, vulgo ‘Paulinho’ ou ‘José Ceguinho’, fundador e presidente da União dos Deficientes Visuais (UNIDEV) de Ponta Grossa. Dono de um enorme senso de humor, o homem de 38 anos parece levar a vida brincando.

Nem mesmo a cegueira inesperada, consequência de um acidente de automóvel – “cochilei ao volante”, conta – aos 27 anos impede o alto astral do dirigente da Unidev. Dono de um cabelo preto e comprido até o meio das costas, ele tem a capacidade de brincar com os próprios problemas.

“Na verdade, não sou completamente cego. Sou cego só de um olho. O outro enxerga, mas enxerga tudo preto”, ironiza e ri.

Curitibano, mas pontagrossense de coração e criação, Paulinho se dedica desde 2007 à organização que busca ajudar na emancipação de deficientes visuais na cidade. O semblante só perde as marcas de sorriso quando fala sobre as dificuldades enfrentadas pelos deficientes e a necessidade de fortalecer a autonomia dos associados.

“Às vezes, quando alguém perde a visão, as pessoas encaram como se precisasse recomeçar a vida do zero. Tentam pegar pelas mãos e simplesmente puxar por aí. Não é bem assim”, avalia.

A esposa Solange Souza conhece Paulinho há aproximadamente 20 anos, período em que acompanhou de perto o marido na superação. “No começo foi bem difícil, porque ele sentia muita dor. Algumas vezes ele desmaiava por causa das dores, mas com o passar do tempo foi se acostumando”, conta.

Além disso, ela brinca sobre o temperamento do marido. “Quando, ele propôs fundar uma associação, eu não gostei da ideia, achava que não iria dar certo. Mas como ele é teimoso, seguiu em frente com o projeto junto com outros dois amigos.”

Ex-caminhoneiro, José trabalha atualmente com massoterapia. Nas horas vagas, participa de atividades esportivas e de teatro. Paulinho afirma ser o “primeiro cego praticante de tiro ao alvo no Brasil”, do que muito se orgulha.

Ele costuma viajar pelo país com outros membros da Unidev, que competem em mostras artísticas ou em torneios de basquete e atletismo.
Cultura e esporte fazem parte de um processo amplo de recuperação, que busca devolver a confiança e independência.

“Além de lazer, essas atividades fazem com que as pessoas voltem a acreditar em si”, explica. Com a Unidev, a situação não é diferente: “Já tivemos administradores de empresa que perderam a visão e voltaram a exercer a função, por exemplo”, conta.

Nas apresentações teatrais do grupo, frequentemente aparecem referências cristãs. Religioso, Paulinho diz ter respeito pelo evangelho, mas não se apega à apenas uma vertente da Igreja Católica. “Meu maior amor é Jesus, apenas isso”, relata.

Na conversa com a equipe do Portal Comunitário, o presidente da Unidev ficou sério em apenas um momento – com um pouco de mágoa, talvez. “Quando criamos a entidade, muita gente disse que a iniciativa não ia durar, que iria acabar em menos de três meses”, lembra. Mas a expressão grave e séria dura pouco. “Se enganaram. Já estamos aqui há sete anos!”, destaca. E o sorriso volta a dar as caras.